Scarlett.
A pesada porta de metal no fim do corredor bate com estrondo, e eu acordo sobressaltada, condicionada a reagir àquele som como se fosse um choque elétrico.
Eles estão vindo me buscar de novo.
Começo a tremer — mais uma resposta condicionada. Por mais que eu queira me manter forte, eles estão me afetando, me quebrando pedaço por pedaço. Cada interrogatório exaustivo, cada humilhação, grande ou pequena, cada dia que se mistura à noite enquanto fico ali sem comida e sem dormir — tudo isso se acumula, destruindo minha força de vontade pouco a pouco. E eu sei que eles estão apenas começando. Romanov deixou isso implícito da última vez que me levou para aquela sala espelhada.
Tentando controlar a respiração, sento na minha cama estreita, puxando um cobertor fino e sujo ao redor do corpo. Lá fora pode ser maio, mas nesta prisão ainda é inverno. O frio aqui é eterno. Ele se infiltra nas paredes de pedra cinza e nas grades de metal enferrujadas, escorrendo pelas rachaduras no chão e no teto. Não há janelas em lugar algum, então o sol nunca aquece esses cômodos. Eu existo em uma penumbra fluorescente, com as paredes frias ao meu redor parecendo se fechar um pouco mais a cada dia.
Passos.
Ao ouvi-los, deslizo meus pés cobertos por meias dentro das botas. Minhas meias estão sujas, assim como o macacão que estou usando. Não tomo banho há três semanas, e com certeza devo estar fedendo horrivelmente. É uma daquelas pequenas humilhações feitas para fazer alguém se sentir menos que humano.
— Princesa... — Uma voz familiar, cantada, me faz tremer ainda mais.
Igor é o guarda que eu mais odeio, aquele com as mãos mais abusadas e o hálito mais nojento. Mesmo com câmeras por toda parte, ele consegue encontrar oportunidades para me tocar e me machucar.
— Princesa — ele repete, aproximando-se da minha cela, e vejo o prazer em seus olhos castanhos pequenos. Ele usa um forma mais íntima e irritante para me chamar. algo que normalmente seria dito com carinho por pais ou familiares. Nos lábios grossos dele, soa sujo e perverso, como um pedófilo falando com uma criança.
— Está pronta, Princesa? — Ele me encara enquanto alcança a fechadura da porta da cela.
Luto contra o impulso de recuar até a parede. Em vez disso, fico de pé e jogo o cobertor para o lado. Ele adoraria qualquer desculpa para colocar as mãos em mim, então não dou essa chance. Apenas caminho até as grades e fico ali esperando, com o estômago se revirando de náusea.
— Estão te chamando de novo — ele diz, agarrando meu braço. Quase vomito quando ele segura meu pulso, seus dedos grossos e oleosos contra minha pele. Ele prende uma algema naquele pulso e pega meu outro braço, aproximando-se ainda mais. — Disseram que você não vai voltar para cá — sussurra, e sinto uma de suas mãos apertando minha b***a, os dedos afundando dolorosamente. — Que pena. Vou sentir sua falta, Princesa.
O vômito sobe pela minha garganta ao sentir o cheiro do hálito dele — cigarro velho misturado com podridão. Preciso de toda a minha força para não empurrá-lo.
Lutar só faria com que ele me tocasse ainda mais; eu sei disso por experiência. Então apenas fico ali, esperando que ele me solte. Ele não vai me estuprar — essa é uma humilhação da qual fui poupada, graças às câmeras — então tudo que preciso fazer é ficar imóvel e não vomitar.
Como esperado, depois de alguns segundos, ele prende a segunda algema e se afasta, a decepção escurecendo suas feições.
— Vamos — ele rosna, segurando meu cotovelo, e eu puxo o ar com força, desesperada por ar que não esteja contaminado pelo fedor dele, torcendo para que meu estômago se acalme. Já vomitei uma vez antes, quando me deram carne gordurosa depois de três dias sem comer, e me obrigaram a limpar tudo com o cobertor que ainda está na minha cama.
Para meu alívio, a náusea diminui enquanto Igor me conduz pelo corredor, e registro o que ele disse.
Você não vai voltar.
O que isso significa? Eles vão me transferir para outra instalação ou finalmente decidiram que não vale a pena tentar arrancar algo de mim? Estou prestes a ser executada? Foi isso que Romanov quis dizer quando falou sobre uma nova autorização?
Meu coração dispara, e uma nova onda de náusea me atravessa. Não estou pronta para isso. Achei que estivesse, mas agora que o momento chegou, eu quero viver.
Quero viver para ver Misha.
Exceto que, se eu der aos russos o que eles querem, nunca mais verei Misha. A irmã de Petrov e sua família serão forçadas a se esconder, e meu irmão junto com eles. A vida feliz de Misha acabará, e a culpa será minha.
Não. Minha determinação se fortalece novamente. É melhor morrer.
Pelo menos assim estarei livre deste inferno de uma vez por todas.
Apesar da minha determinação, minhas pernas parecem gelatina enquanto Igor me conduz por um corredor desconhecido. Estamos nos afastando da sala de interrogatório, o que significa que o guarda não estava mentindo.
Algo diferente está acontecendo hoje.
— Por aqui — diz Igor, puxando-me em direção a um conjunto de portas duplas. Quando nos aproximamos, elas se abrem, e eu pisco diante da súbita explosão de luz.
Luz do sol.
Ela é quente e pura sobre minha pele, tão diferente da iluminação fria da prisão. O ar que entra pelas portas também é diferente — mais fresco, carregado de cheiros que falam de uma cidade na primavera, sem nada de desespero ou sofrimento humano.
— Aqui está ela — diz Igor, me empurrando para fora, e para meu choque, uma voz feminina repete suas palavras em inglês com sotaque russo.
Semicerrando os olhos por causa da claridade, viro a cabeça e vejo uma mulher baixa, de meia-idade, ao lado de cinco homens em um pátio estreito. Além deles há um muro alto com arame farpado no topo e vários guardas armados.
— Quem são vocês? — pergunto em inglês, mas ela não responde. Em vez disso, olha para um dos homens — alto, magro, aparentemente o líder.
— Você já pode ir, obrigado — ele diz a ela, falando inglês americano sem sotaque, e percebo que ela é uma intérprete.
Ela assente e se apressa em direção ao portão. O homem dá um passo na minha direção, e vejo uma expressão de nojo atravessar seu rosto estreito. Ele deve ter sentido meu cheiro.
— Vamos — ele diz, agarrando meu braço e me puxando para longe de Igor.
— Para onde estão me levando? — tento manter a calma. Isso não é nada do que eu esperava. O que americanos poderiam querer comigo? A menos que... será que eles são…
— Colômbia — ele responde, confirmando meu pior medo. — Otávio Zaytsev solicita a honra da sua presença.
E antes que eu consiga processar esse novo golpe, ele me arrasta em direção ao portão.
E quanto a Christian De Luca?
Uma dor familiar atravessa meu peito ao pensar no nome dele. Eu só o conheci por uma única noite, mas lamentei por ele, chorei por ele no frio sufocante da minha cela. Será que ele pode estar vivo? E, se estiver… eu vou vê-lo novamente?
Será que será ele quem vai me torturar?
Não. Aperto os olhos com força. Não posso pensar nisso agora. Preciso levar um minuto de cada vez, assim como fiz naquela sala de interrogatório. É provável que as próximas horas sejam as últimas sem dor extrema — se não forem minhas últimas horas no geral — e não posso desperdiçar esse tempo precioso me preocupando com o futuro.
Não posso gastá-lo pensando em um homem que provavelmente está morto.
Então, em vez de pensar em Christian De Luca, penso novamente no meu irmão — no sorriso ensolarado dele e na forma como seus bracinhos gordinhos me abraçavam quando era pequeno. Eu tinha oito anos quando ele nasceu, e nossos pais tinham medo de que eu ressentisse a chegada de um novo bebê em nossa família tão unida. Mas não foi assim. Eu me apaixonei por Misha desde o momento em que o vi no hospital, e quando o segurei pela primeira vez e senti o quão pequeno ele era, soube que seria minha responsabilidade protegê-lo.
— É maravilhoso como Scarlett ama tanto o irmão — diziam os amigos dos meus pais. — Veja como ela cuida bem dele. Um dia será uma mãe incrível.
Meus pais concordavam, orgulhosos, sorrindo para mim, e eu me esforçava ainda mais para ser uma boa irmã, para fazer tudo o que pudesse para garantir que meu irmãozinho fosse feliz, saudável e seguro.
A van para de repente, me arrancando dos pensamentos, e percebo com um sobressalto de pânico que chegamos.
— Vamos — diz o líder do grupo quando as portas da van se abrem, e vejo que estamos em uma pista de pouso diante de um jato particular Gulfstream. Não consigo andar com os pulsos algemados aos tornozelos, então o homem que reclamou do meu cheiro mais cedo me carrega para fora da van e me leva até o avião, cujo interior é tão luxuoso quanto qualquer coisa que já vi.
— Onde você quer colocá-la? — ele pergunta ao líder, e percebo o dilema.
Os assentos largos da cabine são revestidos em couro bege, assim como o sofá ao lado da mesa de centro. Tudo aqui é limpo e impecável — enquanto eu estou imunda.
— Ali — diz o líder, apontando para um assento junto à janela. — Diogo, cubra com um lençol.
Um homem de cabelo escuro assente e desaparece para o fundo do avião. Ele retorna um minuto depois com o que parece ser um lençol. Ele o estende sobre o assento, e o homem que me carrega me deposita ali.
— Quer que eu tire a mordaça e solte os tornozelos dela? — ele pergunta, mas o homem magro balança a cabeça.
— Não. Deixe essa v***a sentada assim. Vai servir de lição.
E, com isso, eles se afastam, me deixando encarar a janela e tentar não pensar no que me espera quando o avião pousar.