É INDEFESO QUEM AMA

2064 Words
Pedro Point Of View Agora estávamos sentados em perna de índio sobre a cama de Luciana. Quando cheguei ao seu quarto o material já estava todo sobre a cama, mas o que me prendeu a atenção foi a arrumação do lugar, mesmo sendo vizinho de Levy há dez anos eu nunca havia reparado no quarto dela, porém sempre imaginei algo fofo, arrumadinho, impecável. Mas não é nada disso, é um lugar com bastante personalidade, as paredes são forradas de pôsteres de algumas bandas realmente boas, encostada em uma parede há uma escrivaninha totalmente desorganizada, existem algumas roupas num canto esquecido do quarto, uma estante lotada de livros e é claro, varias pelúcias que Luciana havia jogado no chão para eu sentar na cama. Ela não é tão estranha quanto pensei... — Gostei do quarto, arrumou especialmente para mim? — soltei ironicamente fazendo a menina corar de maneira violenta — Vamos, nerd, sinta-se em casa. Depois de me olhar rapidamente Luciana começou a abrir seu caderno. — Sobre o que mesmo é essa lição? — perguntei brincando com o zíper do meu estojo. — Trovadorismo. — Ah, sim! — exclamei como se realmente soubesse que merda é essa. — Você pelo menos sabe o que é? — perguntou vidrada no caderno. — Sim. — Sério? — perguntou debochada e me encarou com uma sobrancelha suspensa. Eu assenti e ela fechou o caderno prendendo sua atenção em mim — E você gosta mais das obras de qual século? — XVII — arrisco. — Oh, claro — disse prendendo o riso, o que eu disse de errado? — Mas isso não é importante, vamos acabar logo com isso, nerd — falei dando a conversa por encerrada. — Sim, como quiser. Mas primeiro, o trovadorismo começou no século XII e terminou no século XV — informou com um olhar superior. Luciana 1 x Eu 0 — Você me pegou, eu realmente não sei o que é esse negócio! — assumi — Satisfeita? — Só quando você aprender. — Então me explica — falei com a voz aveludada me aproximando da menina, ela claramente ficou nervosa. Ponto pra mim. Luciana 1 x Eu 1 — Tudo bem — limpou a garganta — O trovadorismo foi a primeira forma literária existente em Portugal. Como eu tinha dito começou por volta do século XII e... — e eu já não entendia mais nada. Quer dizer, eu a ouvia, via sua boca se mexer, mas não entendia muita coisa, sua voz era tão linda, sua boca chamativa, o modo como ela arrumava o óculos no rosto, os gestos que fazia e a expressão concentrada, tudo me puxava a ela — ... Assume o papel masculino, onde é o homem quem fala. Entendeu? — O básico. — Certo. Só lembrando que quem "fala" no poema é chamado de "eu lírico". Depois nós colocamos isso no papel, agora vamos dar uma olhada no poema que ficou com a gente — eu assenti com a cabeça. Luciana me remetia a imagem de uma professora, ela falava como uma. Sabe aquelas professoras gostosas que você passa a adolescência inteira pensando em f***r? Então, é a isso que estou me referindo. Eu já me via fodendo a nerd sobre uma carteira escolar. Percorri seu corpo sem pudor, mas quando cheguei ao seu rosto notei que tinha algo errado, a garota estava paralisada. — Hey, nerd, tudo bem? — perguntei preocupado. — Acho que sim, é só que... Deixa pra lá, o poema está na página 81 — apontou para meu livro, mas eu nem me mexi, tinha uma ideia melhor. — Leia pra mim. — T-tem certeza? — gaguejou. — Qual o problema? A nerd não sabe ler? — ela bufou, notei um tempo atrás que "nerd" não é um apelido que ela gosta, por isso uso sempre. — É de Arnaut Daniel. "Se eu não a tenho, ela me tem" — leu o título e eu entendi o porquê do nervosismo, fiquei ainda mais animado. — Vai! — incentivei. — Se eu não a tenho, ela me tem. O tempo todo preso, Amor. E t**o e sábio, alegre e triste, eu sofro e não dou o troco. É indefeso quem ama - sua voz deu uma vacilada e eu quase fiquei com pena. Quase - Amor comanda. À escravidão mais branda e assim me rendo, sofrendo, à dura lida, que me é deferida. Respirou fundo e começou a segunda estrofe. — Se calo, é porque mais me convém calar, em mim, o meu calor — me olhou rapidamente e vi que seus olhos estavam marejados — A língua hesita, o corpo existe e, doendo, acha pouco, sofre mais não reclama — olhou para o alto, acho que para conter as lágrimas — A sombra vã da memória me demanda e eu me surpreendo mexendo nesta ferida sempre revolvida. Ao terminar de ler a poesia, Luciana se levantou parecendo atordoada. — E-eu preciso ir ao banheiro, vai escrevendo o que você a-achou — falou com pressa e se trancou no banheiro do quarto. Eu abri um largo sorriso. É indefeso quem ama, sim? Isso é bom. Esperei por alguns minutos, mas nada de Luciana voltar, então resolvi fazer o que ela pediu. Terminei o pequeno texto satisfeito com a minha interpretação do mesmo e o coloquei no criado mudo de Luciana. Será que o que a nerd sente por mim é tão intenso quanto diz no poema? Acho que não, ninguém é capaz de sentir tanto assim! Ouvi um barulho e notei que a garota saía do banheiro. Ela parecia... Fria, diferente do que achei que ela estaria. — E então, escreveu? — perguntou com a voz totalmente controlada deixando seu óculos sobre a escrivaninha. — Sim. — Tudo bem, só falta eu escrever sobre o trovadorismo e acabamos — olhou para as suas mãos como se fosse a coisa mais interessante do mundo e continuou — você já pode ir embora. Ela estava me expulsando? — Está me expulsando? — me levantei ficando a sua frente — Isso não é nada educado — a repreendi com sarcasmo. — Eu não me importo — disse tão baixo que eu quase não ouvi. Ela ainda não me olhava. — Acho que terei que lhe ensinar bons modos, nerd — puxei seus braços para capturar sua atenção e ela acabou se chocando contra mim. Nos olhamos intensamente. Luciana Point Of View — C-como? — praguejei mentalmente por ter gaguejado, mas é que era difícil ser fria olhando em seus olhos. Bem, aquele poema realmente mexeu comigo, ele me definia, infelizmente. Eu fui ao banheiro espairecer, não n**o que chorei um pouco também e antes de sair de lá percebi que esse negócio de lição em dupla já tinha dado pra mim. Poderia terminar sozinha, iria agir friamente e mandar Collins embora. Só que aqui estou eu, presa nos verdes olhos intensos. — Parece assustada, tem medo de mim? — L-lógico que não! — Pedro aproximou seu rosto do meu, estávamos a centímetros e eu sentia sua respiração quente sobre o meu rosto. Acho que eu vou desmaiar. — Tem certeza? — perguntou com aquela voz rouca e roçou seus lábios nos meus. Nenhum garoto havia chegado tão perto assim de mim. Minha respiração estava pesada e minhas mãos suadas. Eu queria tanto beijá-lo agora. — E-eu — fechei os olhos rapidamente para criar forças e depois os abri encontrando as esmeraldas que sempre me fitavam com desprezo — SAI DAQUI! — gritei com raiva. Me debati tentando me livrar do aperto de Pedro nos meus pulsos e quando consegui o empurrei pelos ombros, ele caiu para trás sendo amparado pela cama, não deixando de agarrar um de meus braços me fazendo cair por cima dele. Ai meu Deus! LEVANTA JÁ DAÍ! Gritava meu subconsciente, mas eu estava paralisada demais para obedecer. Olhei para baixo e lá estava ele, mordi o lábio inferior pelo nervosismo e ele focou o olhar em minha boca. Eu fiz o mesmo desviando o olhar para seus lábios. Sua mão direita pousou em minha nuca e ele puxou algumas mechas do meu cabelo. O que está acontecendo? O que houve depois foi muito rápido, quando percebi nossos lábios já estavam colados, ele estava um pouco inclinado para conseguir alcançar minha boca e me segurava com força para eu não me soltar. No começo foi só um selinho demorado, mas depois de um tempo ele me puxou mais para cima, uma mão em minha costa e a outra em minha b***a, nos deixando em uma posição mais confortável. Rapidamente começou a mexer sua boca contra a minha. Eu estava perdida, então só imitava os movimentos dele. Pedro pressionou a língua entre meus lábios e eu os abri dando passagem. Senti meu corpo queimar quando ele começou a explorar a minha boca, era uma sensação totalmente nova, não vou mentir, era estranho, mas não era nem de longe r**m. Eu estou perdendo o BV com Pedro Collins. O cara que destruiu a sua vida. Não estraga! Eu não sabia direito o que estava acontecendo, mas estava muito bom, Collins sugou minha língua e eu arfei, ele levou a mão que estava na minha costa para a minha b***a junto com a outra e apertou-a com força. É normal isso acontecer logo no primeiro beijo? Lógico que não, ele está se aproveitando de você! Ignora, ignora... Acorda, Luciana! Você está sendo a outra! Eu... Eu estou sendo a outra. Terminei o beijo com uma tímida mordida em seu lábio inferior, porque eu não resisti, e quase pulei de cima dele. Estava confusa e transtornada. — Sério — pausei estranhando a rouquidão elevada da minha voz — eu termino o que falta da lição — disse me dirigindo até a porta e a abrindo, ele parecia incrédulo. — Sério? — levantou uma sobrancelha — Tudo bem — recolheu seu material e caminhou até a porta, mas antes de sair chegou bem perto de mim e me queimou com as belas esmeraldas — I'm sorry, nerd, por tudo — falou debochado e saiu batendo a porta com uma força desnecessária. — Mas eu não sou nerd! — sussurrei para mim mesma e logo depois soltei todo o ar que prendia. Caminhei em direção a cama e me joguei na mesma agarrando um de meus travesseiros, estava cheirando a Pedro. Pedro Collins, a minha perdição, a minha destruição e por que não, a maior confusão da minha vida, confusão e decepção. Eu não acredito que beijei o cara que me despreza há dez anos. E o pior, eu gostei. Esse maldito podia ao menos ter m*l hálito, mas não, a vida está sempre querendo me f***r, existe beijo melhor que o dele? Meu Deus, eu não posso me apaixonar de novo, já o amo, não quero me iludir, não quero acordar amanhã com alguma esperança, não posso! Mas e se... Nem pense, ele só te usou, brincou com você, não ache que ele vai querer algo sério, ele nem vai contar pra alguém, porque ele é um i*****l que só liga para status! As primeiras lágrimas e soluços começaram a escapar ao constatar que meu subconsciente estava certo, eu estava certa. Vi algo em meu criado mudo, era um papel, o peguei e reconheci a letra puxada de Pedro. O poema "Se eu não a tenho, ela me tem" faz referência ao amor não correspondido, nele é possível ver a frustração do eu lírico por nutrir sentimentos por alguém que provavelmente nunca o amará. A poesia também mostra que o grau de submissão da pessoa apaixonada é tão grande, que chega ao ponto dela sofrer calada e não dar o troco. "Quem ama é indefeso". "Provavelmente nunca o amará". Isso dói tanto, será que ele se colocou no meu lugar quando escreveu isso? Será que ele vê como me machuca ficando com a Victória na minha frente? Será que ele tem compaixão? Será que ele sente? Eu só queria ser esquecida um pouco por ele, quem sabe assim poderia esquecê-lo também. O que mais queria era que Victória me desse uma folga. Victória... Um sorriso involuntário se formou em meu rosto. Se ela soubesse o que o namorado dela faz quando não está perto... Victória Lins, a menina mais popular da escola. Chifruda. Foi passada para trás pela nerd estranha! Esse é o espírito da coisa! Lembre-se disso quando estiver apanhando.
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