Cap 16

883 Words
Cap 16 — Victória Narrando O som estava tão alto que eu não conseguia ouvir meus próprios pensamentos, e era exatamente isso o que eu queria. O Baile do Egito estava no ápice. Eu estava no centro do camarote, cercada pelas minhas amigas, e a sensação de liberdade era inebriante. Eu me sentia poderosa. A cada batida do grave, eu sentia o peso da pistola na minha cintura, um contraste perfeito com a leveza da saia preta que acompanhava cada movimento do meu corpo. Eu estava me acabando. Bebi whisky com energético como se não houvesse amanhã. O suor brilhava na minha pele, o perfume se misturava ao cheiro da noite e eu não parava de sorrir. — Amiga, olha esse ângulo! — a Juju gritou, posicionando o celular. Eu fiz pose, joguei o cabelo ruivo para o lado, segurei o copo de acrílico com a logo da Nova Holanda e fiz um "V" com os dedos. Postei no Status do w******p, uma atrás da outra. Em uma delas, eu aparecia de costas, descendo até o chão, com a legenda: "A Herdeira tá na pista. Atura ou surta! 🔥👑" Eu sabia que ele estava vendo. Eu via o "Visualizado" do meu pai aparecer quase instantaneamente em cada foto. Ele estava lá na Região dos Lagos, provavelmente cercado de fuzis e homens de cara fechada, mas os olhos dele estavam em mim, através daquela tela. Era um jogo perigoso. Eu queria mostrar para ele que eu cresci, que eu não era mais a menina que ele precisava trancar em casa, mas no fundo, eu também queria provocar. Luan não saía do meu pé. Ele ficava ali, com o fuzil a tiracolo, tentando manter a cara de mau, mas eu via o jeito que ele me secava quando eu tirava as fotos. Ele sabia que cada postagem era um teste para os nervos do meu pai. — Tu tá querendo que o homem tenha um infarto lá em Cabo Frio, é? — Luan sussurrou no meu ouvido enquanto eu guardava o celular no cós da saia. — Ele tá vendo tudo, Victória. Tu não tem noção do que te espera quando ele pisar aqui. — Deixa ele ver, Luan — respondi, virando mais um pouco do copo, sentindo o mundo girar de um jeito gostoso. — Eu não escondo nada do meu pai. Luan soltou um riso anasalado, um som carregado de malícia e perigo. Ele deu um passo para o lado, saindo do enquadramento da foto, mas sem tirar os olhos de mim. — É mesmo? Tem certeza que ele sabe de tudo? — Ele sussurrou, e eu sabia que ele estava falando do beijo no carro. Eu não respondi. O celular vibrou na minha mão, quase queimando a palma. O nome "Pai" brilhou na tela. Abri a conversa com o coração batendo no ritmo do funk. Pai: Vai devagar na bebida, hein? Eu tô de olho em cada passo seu, Victória. Não esquece quem te ensinou a andar. Um frio na espinha percorreu meu corpo, mas o desafio falou mais alto. O 20 Anos queria controle? Pois eu ia mostrar que o controle dele tinha limites. Sorri para a tela, sentindo a adrenalina subir. A Rayane passou por mim com um baseado já aceso, o cheiro doce e característico subindo e se misturando ao meu perfume caro. Eu não costumava fazer isso, mas hoje o clima era de guerra e paz. Peguei da mão dela, sentindo o calor do papel entre meus dedos. — Me empresta aqui rapidinho, Ray — pedi, sem tirar o olho do celular. Dei uma tragada lenta, sentindo a fumaça preencher meus pulmões, e soltei devagar, vendo o vapor cinza subir em direção aos holofotes do camarote. Levantei o celular, posicionei a câmera bem de cima, mostrando o decote do cropped, a fumaça saindo da minha boca e os olhos semicerrados de propósito. Click. Enviei direto no privado dele. Sem legenda. Sem explicação. Só a imagem da herdeira dele desafiando a última fronteira da obediência. O Luan, que estava do lado, viu a foto na tela antes de eu enviar e soltou um "c****e" baixinho, arregalando os olhos. — Tu tá querendo morrer, ruiva? — Ele perguntou, meio rindo, meio em choque. — Tu acabou de assinar o meu óbito junto com o teu. O homem vai descer esse morro voando! — Ele queria ver o que eu estava fazendo, não queria? — Guardei o celular na cintura, sentindo a coronha da pistola gelada contra a minha pele quente. — Pois agora ele viu. Eu sabia que o 20 Anos devia estar socando o volante do carro ou quebrando algum copo lá em Cabo Frio. Mas ali, sob as luzes da Nova Holanda, eu me sentia invencível. Eu era a criação dele, o reflexo dele no espelho, e se ele era o fogo, eu era o incêndio que ele mesmo começou. A música mudou para um batidão ainda mais pesado. Eu devolvi o baseado para a Rayane e voltei para o centro do VIP. Se era para o mundo acabar amanhã, que terminasse comigo no topo. Mas enquanto eu dançava, uma parte de mim sabia: o silêncio do meu pai depois daquela foto era o aviso de que a tempestade que estava vindo não ia deixar pedra sobre pedra.
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