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647 Words
Cap 17 -- 20Anos Narrando O celular não parava de vibrar no console do blindado. Eram notificações do w******p, alertas de status, fotos enviadas no privado. Eu abria uma por uma. Vi a Victória rindo, vi a saia curta, vi a pistola — a minha escola — brilhando na cintura dela como se fosse um adereço de luxo. Muita gente olharia para aquelas fotos e veria uma adolescente perdida ou uma "menina de bandido". Eu não. Eu olhava para aquelas fotos e via um general de guerra que eu mesmo moldei. Eu não criei a Victória para ser uma dona de casa que reza o terço; eu criei ela para aguentar o tranco quando o mundo desabasse. Se ela está lá se acabando no baile, é porque ela sabe que amanhã ela pode estar com o dedo no gatilho defendendo o que é nosso. Aí veio a foto. O vapor cinza saindo da boca, o olhar semicerrado, o desafio estampado em cada pixel daquela imagem. Ela estava fumando um baseado e fez questão de me mandar. Ela queria uma reação. Queria que eu gritasse, que eu mandasse ela para casa, que eu desse o esporro que um pai "normal" daria. Respirei fundo, o cheiro de maresia e óleo de arma preenchendo meus pulmões. Soltei o ar devagar e dei um sorriso de canto, jogando o celular de lado. — Quer me testar, ruivinha? — murmurei para o nada. Na moral? Fumar maconha é o menor dos meus problemas. No mundo em que a gente vive, onde o sangue corre na sarjeta e a traição dorme do teu lado, um baseado não é nada. Eu prefiro ela fumando um na minha frente, com a verdade no olho, do que mentindo para mim pelas costas. O que me incomoda não é a fumaça; é o que aquela fumaça tenta esconder. Mas eu não ia dar o gosto da briga para ela. Não agora. Bloqueei a tela do celular e olhei para o Caveira, que estava no banco do motorista me observando pelo retrovisor, esperando meu comando. Eu precisava tirar o foco do Baile do Egito. Precisava tirar a imagem da Victória — e daquele beijo com o Luan que ainda queimava na minha retina — da minha cabeça. — Esquece o morro por agora, Caveira — ordenei, minha voz voltando a ser o aço de sempre. — Vamos focar no que interessa. Os caras da carga já deram o sinal? — Estão encostando no cais, chefe. Em vinte minutos a mercadoria tá em terra. — Ótimo. Vamos agilizar essa p***a. Quero conferir fuzil por fuzil, lote por lote. Não quero erro, não quero conversa fiada. Eu tinha um compromisso ali na Região dos Lagos que valia milhões e a segurança de toda a Nova Holanda para os próximos meses. Eu precisava fechar esse contrato, carregar os blindados e sumir dessa estrada. Minha vontade era de estar lá, de arrancar o Luan de perto dela pelo pescoço, mas o 20 Anos não chegou onde chegou agindo pela emoção. — Vamos terminar isso logo — falei, destravando o meu fuzil e checando a câmara. — Eu quero estar cruzando a Ponte Rio-Niterói antes do sol nascer. A Victória acha que o baile é o evento principal da noite. Ela não sabe que o verdadeiro show começa quando eu pisar de volta naquele morro. Deixei ela brincar com o fogo, deixei ela se sentir a rainha. Mas o rei está voltando para casa, e eu vou colocar cada peça no seu devido lugar. — Acelera essa merda, Caveira. O tempo tá correndo e eu tenho uma conta para cobrar em casa. Virei o rosto para a janela, vendo o reflexo das luzes da cidade passar rápido. A diversão dela estava com os minutos contados, e o meu foco agora era um só: terminar o serviço e retomar o controle do meu império.
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