Capítulo 3

2116 Words
Marcela Narrando Depois de deixar a cozinha toda organizada, fui pro meu quarto me arrumar pro trabalho. Tudo no lugar, tudo calculado, como se organização fosse capaz de segurar o caos da vida. Tomei um banho rápido, daqueles que m*l dá tempo de pensar, deixei a água levar o cansaço e as preocupações por alguns minutos. Quando saí, me vesti sem muita escolha. Peguei o salto e coloquei dentro da bolsa. Sem condições de descer esse morro de salto alto, eu não era louca. Olhei no espelho antes de sair e vi uma versão de mim mesma que eu m*l reconhecia: olheiras fundas, rosto cansado, mas um olhar firme que insistia em não desistir. Fui até a sala, me abaixei pra dar um beijo na testa da minha mãe. Ela dormia leve, respirando devagar. Fiquei alguns segundos ali, observando, tentando guardar aquele momento dentro de mim. Vai ficar tudo bem, pensei, mesmo sem ter certeza de nada. Desci o morro quase correndo. O relógio parecia me provocar, os minutos passando rápido demais. O som do morro era o de sempre: funk alto em alguma casa, moto subindo em alta velocidade, criança gritando, gente chamando gente. Passei pela barreira ouvindo as piadinhas dos vapores. — “Bom dia, princesa.” — “Tá linda, hein.” Como sempre, não dei moral. Cabeça erguida, passo firme, olho reto pra frente. Aprendi cedo que aqui, se você responde, vira convite. E eu não sou de dar esse tipo de liberdade. Quando virei a esquina, avistei meu ônibus vindo lá embaixo. Meu coração acelerou. Eu ainda estava longe do ponto e sabia que, se perdesse aquele ônibus, ia chegar atrasada no trabalho. E eu não podia me atrasar. Saí correndo. Bolsa batendo no quadril, cabelo escapando do coque, fôlego quase acabando. Corri como todo bom brasileiro CLT corre quando vê o ônibus chegando antes da gente. Ainda bem que o motorista me viu e resolveu esperar. Entrei ofegante, sorrindo sem graça. — Obrigada, moço — falei, tentando recuperar o ar. Ele assentiu com a cabeça, acostumado com cenas assim. Paguei a passagem, passei a catraca e fui direto pra um dos bancos. Encostei a cabeça no vidro, sentindo o ônibus arrancar, levando comigo mais um pedaço da minha rotina. Agora era só esperar chegar no meu ponto. O caminho até o shopping sempre me dava tempo pra pensar e isso, às vezes, era um problema. Minha cabeça insistia em voltar pra tudo que eu estava tentando empurrar pra longe. Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos. No trabalho eu precisava ser outra pessoa. Sorriso no rosto, educação na ponta da língua, paciência infinita. O cliente não quer saber da sua vida. Desci no ponto, calcei o salto ainda na calçada e segui em direção ao shopping. Porta automática abrindo, ar gelado batendo no rosto, cheiro de roupa nova misturado com perfume caro. Um mundo completamente diferente do morro que eu tinha acabado de deixar pra trás. Coloquei meu sorriso no rosto, respirei fundo e entrei na loja. Ali dentro, eu era só a Marcela. Eu não tava nem na metade do meu expediente e já me sentia esgotada. Cansada, estressada e com a paciência pendurada por um fio finíssimo. Juro que, se eu não precisasse tanto desse emprego, já tinha mandado essa cobra direto pra casa do c*****o. Sem educação, sem sorriso, sem aviso. Sinceramente, até hoje eu não entendo o que o seu Carlos tinha na cabeça quando colocou a Melissa como gerente. Ela não faz nada. Absolutamente nada. Fica sentada atrás do balcão mexendo no celular, rindo sozinha, enquanto a gente se vira nos trinta pra atender cliente, arrumar loja, bater meta e ainda ouvir reclamação. Hoje parecia que ela tinha acordado com vontade de testar a minha paciência que, diga-se de passagem, não é muita. Mandou eu organizar a vitrine. Fiz. Cinco minutos depois, voltou dizendo que não estava bom. Mudei tudo. Aí ela resolveu que queria de outro jeito. E no meio disso tudo, cliente chamando, gente reclamando de preço, criança derrubando cabide. Como se não bastasse, me mandou conferir o estoque. Sem necessidade nenhuma, porque eu já tinha conferido mais cedo. Mas fui. Conferi tudo de novo, anotando peça por peça, enquanto ela continuava sentada, rolando o feed como se o mundo não estivesse pegando fogo ali fora. Quando finalmente deu o horário do meu lanche, eu só avisei que estava saindo. Não pedi, avisei. Saí sem nem olhar pra trás, antes que abrisse a boca e falasse o que não devia. Fui pra copa, coloquei a torta de frango que trouxe de casa no micro-ondas e fiz um café. Sentei sozinha, mastigando devagar, sentindo o corpo pedir pausa. Aquele pedaço de torta simples parecia um luxo. Quando terminei, escovei os dentes e me joguei no puff da copa, esperando dar o horário de voltar. Peguei o celular e liguei pra minha mãe. — A senhora almoçou? — perguntei assim que ela atendeu. — Já sim, filha. A dona Arlete veio aqui, bem ba hora que eu tava almoçando pode confirmar com ela. — respondeu, com a voz cansada, mas tranquila. Suspirei aliviada. Perguntei como ela estava, se tinha sentido enjoo, se estava com dor. Conversamos mais alguns minutos até eu desligar, com o coração um pouco mais leve. Depois disso, fiquei mexendo no celular sem pensar muito. Abri, sem querer, a página de fofoca do morro. E foi aí que eu vi. Um vídeo. Duas mulheres brigando, puxando cabelo, gritando no meio da rua. Os comentários diziam: “Brigando para ver quem vai visitar o Pesadelo no presídio.” Revirei os olhos na hora. Vergonha alheia define. Mulher se prestando a esse papel ridículo, brigando por causa de homem. E pior: por homem que nem é delas. Um homem preso. Um homem que nem sabe o nome delas direito. Fechei o vídeo com raiva, sentindo aquele frio estranho subir de novo pela espinha só de ler o nome dele. Pesadelo. Era como se o universo fizesse questão de esfregar esse nome na minha cara o tempo todo. Guardei o celular, respirei fundo e me levantei quando deu meu horário. Ajustei o uniforme, forcei um sorriso no espelho da copa e voltei pra loja. Porque, gostando ou não, a vida não para. E eu ainda não sabia… mas aquele nome que aparecia em vídeo de fofoca já tava muito mais perto da minha realidade do que eu imaginava. Eu estava cansada. Cansada de verdade. Contando cada minuto pra esse dia acabar logo. Quando olhei no relógio e vi que faltava só uma hora, soltei um suspiro tão alto que quase virou um desabafo. Uma hora eu aguentava. Sempre aguentei. A loja estava vazia, silêncio raro naquele lugar. Aproveitei pra começar a finalizar o caixa, já fui calculando as vendas no cartão para facilitar depois. Minha cabeça tava longe, mas minhas mãos seguiam no automático. Era assim que eu funcionava ultimamente: por fora, tudo normal; por dentro, um caos organizado à base de força. Foi quando a porta da loja abriu e eu vi o seu Carlos entrando. Estranhei na hora. Ele nunca aparecia no final do dia. Nunca. Meu estômago revirou sem aviso, como se meu corpo tivesse entendido antes da minha cabeça. Ele passou direto, foi pro escritório. A Melissa, aquela cobra levantou no mesmo segundo e foi atrás dele, quase rebolando. Não demorou muito pra ela voltar. Tava sorrindo. Aquele sorriso que me dava vontade de quebrar a cara dela. — Marcela — ela disse, doce demais pra ser verdade — o seu Carlos tá te chamando. Meu coração afundou. Mesmo assim, me levantei. Caminhei até o escritório com as pernas firmes, mas por dentro tudo tremia. Bati de leve na porta. — Oi, seu Carlos… o senhor quer falar comigo? — Sim, Marcela. Senta aí — ele disse, apontando para a cadeira. Obedeci. Ele respirou fundo e cruzou as mãos em cima da mesa. — Bom… desde que você foi contratada, sempre foi uma boa funcionária. Chegava no horário, batia meta, fazia hora extra quando precisava… Quando ele parou e soltou aquele “mas”, eu já sabia. Esse “mas” tem peso. Sempre tem. — Mas nos últimos meses você tem faltado muito, chegado atrasada, não tem batido meta… — ele continuou, sem me olhar nos olhos. — E infelizmente, não tem como continuar com você. Foi como levar um tapa sem aviso. Engoli o choro. Engoli a raiva. Engoli o desespero. Tudo ficou preso na garganta, queimando. Pensei na minha mãe. Nas contas. Pensei em abrir a boca, explicar, implorar. Mas eu não ia me humilhar, seu Carlos sabia muito bem o motivo de tudo isso já que trouxe os exames, laudo e declarações ele sabia do câncer da minha mãe. — Aqui estão os papéis da sua demissão — ele disse, empurrando a folha pela mesa. — A Raquel vai entrar em contato para agendar o dia da rescisão, tá? Assenti. Só isso. Peguei os papéis da mão dele e me levantei. Não agradeci. Não discuti. Não me humilhei. Saí da sala com a cabeça erguida, mesmo sentindo tudo desmoronar por dentro. Fui direto pra copa. Abri meu armário, peguei minhas coisas devagar, como se cada movimento fosse pesado demais. Quando fechei a porta, ouvi a risada da Melissa ecoando do lado de fora. Saí da loja sem olhar pra trás. O ar do shopping parecia mais frio, mais distante. Caminhei até a saída com os olhos ardendo, mas sem deixar uma lágrima cair. Só quando cheguei do lado de fora, com os papéis amassados na mão, foi que a realidade me atingiu de verdade. Eu tinha perdido o emprego. E, junto com ele, a pouca segurança que ainda restava. O caminho até em casa foi feito no automático. Minha cabeça tava longe. Só conseguia pensar que precisava, urgentemente, de outro emprego. Ao mesmo tempo, o desespero vinha forte, apertando o peito, porque emprego novo não aceita falta. E eu não podia prometer presença absoluta quando tinha uma mãe doente que a qualquer momento podia ir parar no hospital. Essa conta não fechava. Pensei no FGTS, nas férias vencidas, no seguro-desemprego. Era um alívio temporário, eu sabia. Um respiro curto. Não dava pra me acomodar, não dava pra fingir que tava tudo bem. Amanhã mesmo eu ia atrás de emprego. Loja, mercado, farmácia, o que aparecesse. Eu não tinha luxo de escolher. Quando desci do ônibus e comecei a subir o morro, enxuguei as lágrimas com as costas da mão. Respirei fundo, tentando recompor o rosto. Mas não adiantava. Nem se eu quisesse disfarçar eu conseguiria. Olhos vermelhos, nariz ardendo, garganta fechada. Até cego via que eu tinha chorado. Passei por algumas pessoas conhecidas, cumprimentei rápido, evitei conversa. Não queria explicar nada. Não olhar de pena. Já bastava o peso dentro de mim. No meio do caminho, ouvi o barulho conhecido de uma moto encostando do meu lado. Nem precisei olhar pra saber quem era. — Sobe — Lara falou, já desligando a moto. Obedeci sem discutir. Subi na garupa e segurei firme. Ela arrancou devagar, subindo o restante do morro. — Que foi, Marcela? — perguntou, olhando de lado. — Tá chorando por quê? Pensei em inventar uma desculpa. Pensei em dizer que era cansaço. Mas não tinha forças pra mentir. — Fui demitida — respondi simples, seca. Ela freou a moto de leve, só pra olhar pra mim direito. — Como assim? Demitida? — Me mandaram embora hoje — completei. — Simples assim. Ela xingou baixo, falou o nome da gerente seguido de uns palavrões que me arrancaram um meio sorriso sem querer. — Aquela cobra… certeza que tem dedo dela. Dei de ombros. Limpando o rosto de novo. — Amanhã corro atrás de outro emprego. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, depois voltou a subir o morro. Eu sabia que ela estava pensando. A Lara sempre pensa antes de falar quando o assunto envolve me ajuda. — Você sabe que não tá sozinha, né? — ela disse, mais calma. — Se precisar… — Eu sei — interrompi. — Mas eu dou um jeito. Ela suspirou, mas não insistiu. Respeitou. Isso era uma das coisas que eu mais admirava nela. Chegamos perto da minha casa, ela parou a moto e desci. — Qualquer coisa, me chama — ela disse. — Qualquer coisa mesmo. Assenti com a cabeça. Entrei em casa tentando parecer normal. Minha mãe estava sentada no sofá, assistindo televisão. Quando me viu, percebeu na hora. — Filha… — ela começou. — Depois a gente conversa, mãe — falei, forçando um sorriso. — Tá tudo bem. Mentira. Nada tava bem. Mas eu não podia desmoronar. Não agora. Não com ela precisando de mim.
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