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2198 Words
Dulce No dia seguinte, encontrei com o padre na feirinha e ele avisou-me de que a minha penitência já havia sido o suficiente. Daniel deve ter mesmo conversado com ele como disse que iria.  Vê-lo novamente me abalou muito e eu percebi que não seria capaz de esquecê-lo por mais que continuasse a tentar. A minha vontade de estar com ele era maior do que qualquer mentira que ele tenha me contado. Talvez fosse tolice da minha parte, mas era inevitável sentir-me assim. Depois de fechar a venda, eu comecei a voltar para casa no cair da noite. As lamparinas já estavam sendo acesas, algumas pessoas já fechavam suas portas para manterem-se aquecidas e os poucos que ainda estavam na rua, cobriam-se com suas capas de frio.  Passei em frente à casa de Ronald, onde o vi retirando um barril do seu carrinho de mão. Parecia ser um barril de cerveja.  — Boa noite, Ronald! — eu disse aproximando-me.  — Oi, Dulce, Boa noite! — sorriu de lado. — Estava indo para casa?  — Sim.  — Ainda está cedo, por que não fica um pouco aqui? Eu comprei um barril de cerveja. — deu dois tapinhas no barril.  — Por que comprou tanto? — eu ri de leve.  — Quero parar de ficar até tarde na rua. Então, não quer beber um pouco? Eu sei que você começou a apreciar uma doce cevada. — sorriu.  — Hum, que m*l há? — dei de ombros.  — Ótimo! Pode entrar e fique à vontade. — eu assenti e fui em sua frente até a sua casa.  Ele carregou o barril sobre seus ombros e quando já estávamos lá dentro, o colocou no chão e pegou duas canecas. Depois de me entregar uma delas, ele abriu o barril e nos serviu.  — Não a vi mais na livraria. — ele disse. — Está tudo bem?  — Deve saber que eu e Daniel não estamos mais juntos. Eu não estou com muito ânimo para consumir novas histórias.  — Bem, se a sua história de amor não deu certo, você pode mergulhar nas que não existem. Ou... — ele chegou mais perto e me encarou. — Pode tentar escrever uma nova.  — Ron, não comece. — dei um bom gole em minha cerveja. — Não me envolverei com ninguém até ter certeza que Daniel não está mais em meus pensamentos.  — E o que você tem feito para esquecê-lo? — fiquei em silêncio e desviei o olhar. — Está tentando, não está?  — Não...  — Ainda acha que podem estar juntos?  — É uma coisa bem impossível. Ele vai se casar com outra mulher e por mais que ele me queira, não posso aceitar ser uma amante.  — Não pode, mas quer? — arqueou a sobrancelha.  — Mesmo se quisesse, isso seria o cúmulo da depravação!  — Acha que ele aceitaria que você fosse amante?  — Provavelmente não. Da última vez que nos vimos, ele se mostrou disposto a ficar bem longe de mim.  — Ele não a ama. Se a amasse, acabaria com o casamento e ficaria com você sem pensar duas vezes.  — Ronald, eu não sei o que se passa na vida particular do Daniel e casar-se com essa mulher parece ser algo importante por alguma razão. Eu senti todo o amor que ele tem por mim e tenho certeza que isso é real.  — Talvez o seu amor esteja te cegando.  — Não pode tirar conclusões de algo que não viu de perto.  — Merece alguém que passe por cima de tudo para estar com você.  — Que tal se a gente não falasse sobre o Daniel?  — Claro, eu sei que isso te faz m*l. Não vamos tocar nesse assunto. Continuamos a beber e conversar sobre outros assuntos, como coisas sobre o dia a dia e até lembranças de nossas infâncias.  — Eu era apaixonado por você desde a infância. — confessou. — Sempre acreditei que acabaríamos juntos. — suspirou com tristeza.  — Você é um bom homem, vai encontrar uma mulher que possa amá-lo. — ele me olhou de canto e riu. — O que foi?  — Sou um bom homem, mas não bom o suficiente para você.  — Acredite, se eu pudesse escolher por quem iria me apaixonar, certamente escolheria você.  — Mesmo? — sorriu de lado.  — Sim! Nós dois crescemos no mesmo mundo, nos conhecemos a anos e não há nada sobre você que eu já não saiba. Não teria nenhuma surpresa desagradável.  — Por que não tenta?  — Ronald... — fui interrompida.  — Dulce, você nunca tentou me ver com outros olhos, mas e se tentasse? Possa ser que me dando uma chance, eu possa mostrá-la que valho a pena.  — Quem sabe se eu ficar muito bêbada? — dei risada e ele ficou sério. — Não quero que se chateie, mas eu já tentei vê-lo de outra maneira. Você precisa desistir de mim e seguir em frente.  — Acha que eu não tentei fazer isso? Quem apaixona-se por você, jamais te esquece. Parece até que é uma bruxa! — riu e eu coloquei minha mão sobre a sua boca.  — Shiu, não diga isso alto! — sussurrei. — Não pode insinuar isso agora.  — Desculpe. — sussurrou de volta.  Com o passar das horas e as várias canecas de cerveja, eu já me sentia um pouco alterada, com a minha visão turva e a minha fala arrastada. Era divertido sentir-me assim.  — Se continuar no meu pé, vai terminar como um solteirão! — brinquei dando risada.  — Te procurarei em outras vidas! — brincou também.  — Não, outras vidas é coisa de bruxa. — tornei a cobrir sua boca. — Você é um descuidado! — dei um tapinha em seu braço.  — Eu acho essa caça uma besteira! Agora não se pode mais fazer uma simples brincadeira! — Ronald estava tão alterado quanto eu. — Ei, sabe o que a gente devia fazer? Se beijar!  — Ronald! — o repreendi dando risada.  — Só um beijo e eu não toco mais no assunto.  — Ah, é? — aproximei-me. — Essa é uma péssima ideia. — balancei a cabeça negativamente.  — Viva o agora. — aproximou-se também.  Com seu rosto a poucos centímetros do meu, eu podia sentir sua respiração tocar os meus lábios. Talvez essa fosse uma coisa da qual eu fosse me arrepender quando acordasse sã no dia seguinte, mas já que Ronald não parava de me encher a paciência, seria interessante lhe dar um pouco do que ele sempre quis ter.  Toquei meus lábios nos dele, num beijo lento e suave. Ele apoiou sua mão em minha nuca e tentou aprofundar aquele beijo, mas eu afastei-me poucos segundos depois.  — Qual o problema? — perguntou.  — O problema é que essa é mesmo uma péssima ideia. — terminei de beber a minha última caneca e quando fiquei de pé para ir embora, tudo ao meu redor girou e eu cambaleei um pouco.  — Não posso deixar você ir sozinha. — ele ficou de pé, mas acabou caindo sentado na cadeira.  — Está pior do que eu! Te vejo amanhã, tenha uma boa noite. — coloquei a minha capa e caminhei até a porta, trocando os meus pés vez ou outra. — Antes que eu esqueça. — virei-me de frente para ele novamente. — Nunca mais me beije de novo!  — Não prometo nada. — riu.  Eu saí de sua casa e me deparei com a escuridão da noite. Não fazia ideia de que horas eram, mas estava ainda mais frio do que quando eu entrei na casa de Ronald.  Caminhando pelas ruas, eu não tinha certeza se andava na direção certa e se estava conseguindo caminhar em linha reta. Minha cabeça pesava e tudo o que eu queria era fechar os meus olhos e acordar apenas na manhã seguinte. Christopher  Edgar me convenceu de ir até uma taverna na aldeia junto com ele e alguns dos outros guardas. Não havia parado de trabalhar desde que decidi começar e o meu corpo pedia por uma boa bebida.  Chegando até a taverna, ordenei que o lugar fosse fechado para mim e meus homens, sem deixar que ninguém mais entrasse.  A noite se passou regada de risadas e boas conversas. E apesar da minha mente distrair-se vez ou outra, eu sempre acabava parando para pensar em Dulce e no que ela estaria fazendo naquele momento. Bem, dada a hora tardia, ela provavelmente estava dormindo.  — Um brinde ao nosso futuro rei e meu melhor amigo! — Edgar ergueu sua caneca.  — Viva! — todos brindaram em comemoração.  — Aquela garçonete não para de olhar para você. — Edgar disse ao meu ouvido.  — Talvez porque eu seja o futuro rei. — dei de ombros.  — Por que não aproveita? Ainda não casou-se de qualquer forma. — ele disse com insinuações.  — Eu acho que você já bebeu demais. — dei dois tapinhas em suas costas. — Vou tomar um ar, aqui dentro está muito quente.  Levantei e comecei a caminhar em direção à porta. Quando saí, avistei alguém caminhando em minha direção. Era uma moça e estava cambaleando como se estivesse bêbada.  Olhei para os lados e não avistei mais ninguém na rua além dela. Quem em sã consciência deixaria uma mulher sozinha naquele horário?  Esperei que ela chegasse mais perto e quando o seu rosto chegou ao meu campo de visão, eu reconheci a Dulce.  — Dulce? — franzi a testa.  — Daniel! — ela sorriu, abriu os braços e jogou-se em de mim. É, ela estava bem alterada.  — O que aconteceu? Por que bebeu tanto? — perguntei a segurando pela cintura.  — Eu... não lembro. — riu. — Eu estava com o Ronald e a gente resolveu beber.  — Ronald? — arqueei a sobrancelha.  — É. — suspirou. — E você? Veio me ver? — ela tentou me beijar, mas eu afastei o meu rosto. — Por que está tão distante? — franziu a testa.  — Dulce, eu já disse que não podemos ter nada. Eu vou me casar!  — Eu não me importo! — tentou me beijar novamente e outra vez eu recuei.  — Não vou me aproveitar de você.  — Você já fez isso antes, pode fazer agora. — ela disse despreocupada.  — Não diga isso, por favor. — falei com tristeza. — Eu não quero que pense assim e não quero que me peça para tratá-la como minha amante. Eu jamais a colocaria nesse nível.  — Mas eu estou pedindo! — aproximamos nossas testas, ficando com os rostos bem próximos.  — Não sabe o quanto eu queria te beijar agora... — fechei meus olhos e respirei fundo, sentindo o seu doce perfume invadir as minhas narinas. — Mas eu não posso.  — Está bem! — ela deu um passo para trás. — Talvez eu devesse voltar para a casa do Ronald e beija-lo de novo.  — Você beijou o Ronald? — essa informação me deixou desconfortável. — Você beija a sua noiva? — riu. — Não pode ficar chateado. — fiquei em silêncio. — É, eu deveria voltar para lá. — ela ia andar, mas tropeçou e antes que caísse, eu a segurei.  — Você deveria ir para a sua casa.  — A minha mãe vai ficar uma fera se me ver nesse estado.  — Onde fica a casa da Angelique? — Bem perto. — apontou para a esquerda.  A coloquei no colo e vi ela fechar os olhos, aconchegando-se em meu peito.  — Christopher? — ouvi Edgar me chamar.  — Shiu! — eu disse acenando minha cabeça em direção à Dulce.  — Ah... Daniel! — ele corrigiu. — O que está acontecendo? — Ela está bêbada, vou levá-la até a casa da Angelique. Se eu demorar, não precisa me procurar.  — Não quer a companhia de nenhuma guarda?  — Não é necessário. Terminem de beber e voltem para o castelo. — ele assentiu e tornou a entrar no local.  Com muita dificuldade, Dulce conseguiu explicar-me onde Angelique morava e depois de algumas batidas em sua porta, a mesma atendeu com um semblante confuso e sonolento.  — Ah, meu Deus! O que aconteceu com ela? — perguntou assustada quando notou Dulce desacordada em meus braços.  — A encontrei sozinha na rua, completamente bêbada. Acho que a mãe dela vai ficar furiosa se a ver assim. Ela pode dormir aqui?  — Claro, entre.  Entrei e coloquei Dulce sobre a cama. Angelique buscou um balde e deixou ao lado, caso Dulce acordasse durante a noite com ânsia de vômito.  — Melhor eu ir agora. — quando ia afastar-me, senti Dulce segurar minha mão.  — Fica aqui? — perguntou.  — Eu tenho que voltar para casa. — eu disse.  — Por favor. — choramingou.  — Fique até ela adormecer de vez. — Angelique sugeriu. — Eu vou dormir, tranque a porta quando sair. — ela deitou do outro lado da cama.  Sentei no chão segurando a mão de Dulce e olhando bem o seu rosto. Ela sorriu serenamente e fechou os olhos devagar, deixando que o sono, ou talvez o efeito do álcool, a pusessem num relaxamento profundo.  Me distraí a observando e acabei adormecendo enquanto segurava a sua mão.
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