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2319 Words
Christopher  Finalmente marcamos a data do casamento e após tudo estar decidido, eu me recolhi em meus aposentos por dias, sem aceitar nenhuma visita, recebendo minhas refeições em seus devidos horários e deixando todo o trabalho real nas mãos de minha irmã.  A ideia de ter que ver a luz do sol, tomar decisões sobre o reino ou mesmo ouvir a voz de qualquer outra pessoa, não me agradava. Eu só queria ficar em minha cama e esquecer que o mundo exterior continuava a existir.  Para conter toda a minha dor, eu passei a me queimar com a cera quente que pingava das velas do meu quarto. Aquela dor parecia ser uma espécie de alívio para a minha alma. Mas mesmo assim, eu ainda não havia conseguido parar de chorar.  Eu chorava tanto que comecei a ter graves dores de cabeça que eram tratadas por chás de ervas preparados por Maitê. Ela, Anahi e Edgar eram os únicos que eu deixava entrar em meus aposentos.  — A sua noiva está louca querendo saber o que está acontecendo com você. — Maitê disse após me trazer mais um pouco de chá.  — Ela é a última pessoa que eu quero ver agora.  — Christopher, você precisa seguir em frente. Eu sei que deve estar doendo, mas ficar preso aqui sem ver ninguém não vai ajudá-lo a superar.  — E quem disse que eu quero superar? Eu não mereço superação, mereço sofrimento! — afirmei. — Eu odeio quem eu sou e tudo o que eu fiz.  — E por que não tenta ser alguém melhor?  — Eu estou longe da Dulce, não estou? Ficar longe dela é ser alguém melhor. — ouvimos o badalar do sino da igreja, anunciando o fim de mais uma missa de domingo.  — Vai acontecer de novo... — Maitê disse com o olhar distante e melancólico.  — O que vai acontecer de novo? — perguntei.  — Eu não deveria estar te contando isso, mas acho que precisa saber. O Edgar preferiu não dizer isso a você para que não vá atrás dela, mas sinceramente, talvez se você fizer algo, isso acabe.  — Do que está falando? — franzi a testa.  — Ao final de todas as missas de domingo, a Dulce paga uma penitência na igreja. Ela ajoelha-se no chão na entrada e de joelhos, caminha até o altar. Você precisa ver o quanto eles estão machucados por conta disso, é de dar dó!  — Por que ela está pagando essa penitência?  — Ela não contou a ninguém, mas eu sei que provavelmente ela contou ao padre que não era mais virgem e ele a mandou fazer isso para "pagar por seus pecados". — revirou os olhos. — Odeio esses métodos cruéis!  — Ela não pode continuar se machucando! — fiquei de pé. — Eu vou até lá e vou fazê-la parar!  — Tudo bem, mas tome cuidado, não diga nada que a faça ficar pior. Lembre-se que vocês não estão mais juntos e que precisa afastar-se dela!  — Eu sei, Maitê, não se preocupe.  Saí do meu quarto sendo acompanhado por Maitê e corri até os estábulos antes que Faustus ou qualquer outro conselheiro me visse. Se eles vissem que eu saí dos meus aposentos, achariam que eu estava disposto a trabalhar.  Montei em meu cavalo e fui o mais depressa que pude até a igreja. Eu estava preocupado com a integridade física da Dulce e pensar que ela estava machucando-se daquela forma só porque dormiu comigo me doía. Eu precisava impedir essa barbaridade.  Entrei na igreja pela lateral e de frente ao altar, eu a vi rastejando-se de joelhos, com seu rosto numa expressão quase prazerosa. Por que diabos ela sentiria prazer naquilo? Era uma tortura!  Corri até ela e antes que colocasse o primeiro joelho nos degraus do altar, eu sentei ao seu lado e a segurei para que sentasse também. Dulce olhou para mim confusa e sua primeira reação foi tentar se afastar.  — O que está fazendo? — ela perguntou.  — O que você está fazendo? Olha os seus joelhos! — eles sangravam por cima de antigas feridas que certamente haviam sido feitas da mesma maneira.  — Estou apenas pagando uma penitência, algo normal para uma cristã!  — Penitência? Sabe quais as penitências os nobres e a família real pagam? Orações e nada além disso! Obrigá-la a machucar o próprio corpo dessa forma é desumano e eu tenho total certeza que Jesus está detestando vê-la fazendo isso consigo mesma!  — Não pode dizer o que Jesus sente!  — Não pode machucar-se em nome de um Deus que a ama. O amor de Deus não deveria machucar ninguém.  — Talvez você não consiga entender, mas sinto-me muito melhor fazendo isso! Por mais que doloroso que seja, fazer o meu corpo sofrer dessa forma me faz sentir bem.  — Dulce... — suspirei pesadamente ao ver os cortes em seus tornozelos e pés. — O que anda fazendo? Está machucando-se de propósito?  — Não pode me entender.  — Acredite, eu entendo. — ergui minhas mangas, mostrando as queimaduras feitas pela cera da vela. — No breve momento em que sinto a minha pele arder, o peso de não tê-la mais comigo desaparece.  — Não... — Dulce relaxou sua expressão e me olhou com tristeza. — Não faça isso. Detesto saber que está se machucando.  — Então, consegue entender como é horrível para mim ver que está se auto torturando dessa forma.  — Não faça mais isso. — ela segurou minha mão e olhou para as minhas queimaduras.  — Vamos fazer um trato. Eu nunca mais irei fazer isso se me prometer que também irá parar de se machucar. Não falo apenas dos cortes, mas da penitência. É c***l demais.  — O padre disse que era necessário para que Deus me perdoasse.  — Ele disse isso? — ela assentiu. — Eu vou ter uma conversa séria com o padre e da próxima vez que vier à missa, ele vai avisa-la que não precisa pagar penitência nenhuma.  — E se eu continuar impura?  — Dulce, nada a fará impura. Você é um ser angelical, é única em cada detalhe. Nada nesse mundo seria capaz de tirar a essência que traz consigo. — ela deu um sorriso de canto, bem tímido. — Promete que vai parar com isso?  — Sim. — assentiu.  — Vamos embora. — a ajudei a ficar de pé e nós saímos da igreja.  Em meu cavalo, eu a levei até sua casa e nós entramos. Sua mãe não estava, então eu me ofereci para cuidar das feridas em seus joelhos.  Sentado no chão, com um pouco de água morna, eu usava um pano para limpar o sangue, aproveitando para cuidar também dos cortes em seus pés. — Você já marcou a data do seu casamento? — ela perguntou após ficarmos um bom tempo em silêncio.  — Sim... — respondi um pouco sem jeito.  — Você sente que pode chegar a amá-la? — eu levantei o olhar e a encarei.  — Nós dois somos muito diferentes, não nos encaixamos, sabe? Eu não me imagino amando alguém como ela.  — Por que está se permitindo isso? — Dulce aproximou-se do meu rosto. — Se o seu pai o amava, não iria querer que fosse infeliz. — acariciou meu rosto. — Não se case, por favor.  — Achei que você estava com raiva de mim e não iria querer mais me ver.  — Eu fiquei com muita raiva no início, mas já passou. Eu amo você e daria tudo para estarmos juntos agora. — o jeito doce que ela me olhava tornava tudo muito tentador. — Por favor, Daniel... — e quando ela me chamou pelo meu nome falso, eu tentei afastar a ideia de ficar com ela.  — Eu não posso. — ela ficou séria e afastou-se. — Sim, o meu pai me amava, mas zelava por seus acordos também. Isso vai muito além de mim e da minha família, Dulce.  — Então, você só vai desistir? — sua voz começou a ficar embargada.  — Pelo seu bem, é melhor que eu fique longe.  — Por quanto tempo vai conseguir ficar longe? Olha para o que precisamos fazer para suportar a dor de não ter um ao outro! Daniel, eu amo você. — Dulce segurou meu rosto entre suas mãos e começou a aproximar-se.  Eu queria muito tomá-la em meus braços agora, mas eu não podia. Precisava priorizar a minha razão acima das minhas emoções. E antes que nossos lábios pudessem se encontrar, eu fiquei de pé, afastando-me dela.  — Precisamos aceitar as coisas como elas são. Não posso te dar o que você sempre quis.  — Eu não me importo! Eu estou exausta de tanto tentar aceitar! Eu não quero aceitar! — e então, ela começou a chorar.  — Eu só vim porque soube que você não estava bem. — mirei o chão. — Acho que já posso ir.  — Daniel... — antes que ela pudesse continuar, a porta da frente foi aberta e sua mãe entrou.  — O que ele está fazendo aqui? — perguntou olhando-me com fúria.  — Eu já estava de saída, dona Blanca. — respondi.  — Perguntei para a minha filha! — falou com grosseria.  — Ele só estava cuidando dos meus machucados. — Dulce respondeu.  — Ela não precisa de você para isso, minha filha tem a mim!  — Eu sei, eu sinto muito por ter vindo. Prometo que não voltarei.  — Obrigada, Daniel. — Dulce sorriu para mim e eu assenti em resposta.  Saí de sua casa, montei em meu cavalo e voltei ao castelo. Assim que passei pelos portões, avistei alguns guardas trazendo três mulheres acorrentadas. Um dos guardas era o Edgar.  — Edgar! — o chamei e ele correu até mim. — O que está acontecendo?  — A caça às bruxas, alteza. Alguns aldeões acusaram essas mulheres para a igreja e a igreja pediu que a realeza tomasse uma atitude antes que pudessem marcar um julgamento.  — O que a Anahi fez?  — Mandou acorrentar as mulheres e levá-las aos calabouços. Os julgamentos só podem ocorrer depois que houver um rei, então vão esperar que se case e seja coroado.  — Eu acho que está na hora de tirar a minha irmã da liderança.  — Se sente bem? — franziu a testa.  — Sim, um pouco melhor.  — Onde esteve?  — Com a Dulce. — ele me olhou com reprovação. — Não se preocupe, eu não fui até ela para implorar por seu amor. A Maitê me pediu para ajudá-la.  — É, eu a vi pagando uma penitência na igreja. Que Deus me perdoe, mas eu jamais machucaria o meu corpo para ser perdoado por algo.  — Ela não vai mais fazer isso. Preciso que mande alguém até a igreja para dizer ao padre que finalize essa penitência.  — Pode deixar.  — Agora eu preciso arrancar a minha irmãzinha do trono. — suspirei.  Fui até a sala do trono, onde minha irmã estava explicando aos guardas e demais serviçais como tratar as suspeitas por bruxaria.  — Uma refeição por dia e não precisam caprichar. Nada de limpeza na cela delas e água apenas três vezes ao dia. — ela dizia com ar de superioridade.  — Sinto informar, querida irmã, mas eu tomarei as rédeas dessa situação e de todas as outras a partir de agora. — eu disse ficando de frente para ela.  — Se sente melhor? — Anahi ficou de pé e sorriu para mim.  — Sim, estou pronto para iniciar as minhas atividades. Devo dizer que não concordo com os seus métodos. — virei-me de frente para todos os que escutavam. — Vocês têm sorte da minha irmã não ser a primeira na linha de sucessão ao trono.  — Ei, eu seria uma excelente rainha! — deu um tapa em meu braço.  — Ainda precisa aprender muitas coisas. Não pode tratar suspeitos como criminosos. Essas mulheres são inocentes até que se prove o contrário em um julgamento realizado pela igreja. Primeiro, retirem essas correntes. Elas não são animais e essas coisas machucam! — os guardas começaram a abrir as correntes e soltá-las. — Segundo, elas ficarão sim nos calabouços, mas terão três refeições por dia e comerão o mesmo que os serviçais comem. Poderão beber água sempre que acharem necessário, então eu espero que os guardas atendam à essa necessidade sem pestanejar! Também não autorizo castigos físicos ou violência verbal, entendidos?  — Sim, alteza! — responderam em uníssono.  — Alteza? — uma das suspeitas levantou o braço.  — Sim?  — O que irá acontecer conosco caso sejamos julgadas como culpadas? — perguntou um pouco receosa.  — O que acontece numa caça às bruxas tradicional. Teremos um evento aberto ao público e toda e qualquer pessoa que for acusada de bruxaria, será queimada numa fogueira. — ela respirou fundo, parecendo estar com medo. — Não precisam ficar com medo caso sejam inocentes. Mas se forem mesmo bruxas, eu não poderei fazer nada por vocês. Será uma decisão totalmente tomada pela igreja. — ela assentiu devagar. — Podem levá-las. — todos saíram da sala do trono, deixando apenas eu e a minha irmã.  — Será um rei nada amedrontador. — ela disse com desdém.  — Por que eu iria querer que os meus súditos tivessem medo de mim?  — Para passar uma imagem forte e poderosa.  — Eu prefiro usar o poder que eu tenho para ser um bom rei.  — Se eu fosse a rainha, tudo seria bem diferente.  — Ainda bem que você não é. Eu serei o rei e Seráfia será um lugar ótimo para todos viverem bem.  — Entediante. — revirou os olhos.  Meu reinado não era para ser algo divertido e francamente, eu não via diversão em ser um tirano. Eu amava o meu povo e queria que eles me amassem também, tanto quanto amavam o meu falecido pai. Eu daria continuidade ao seu reinado, sendo tão acolhedor quanto ele foi.
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