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1941 Words
Dulce Meu mundo parou num segundo que pareceu uma hora. Foi como se tudo à minha volta tivesse sido congelado, inclusive o meu corpo, deixando apenas a minha mente barulhenta gritando dentro da minha cabeça. Eu me sentia apavorada com as palavras que Maitê havia proferido e pedia aos céus que aquilo não tivesse passado de um m*l entendido.  O barulho das pessoas ao meu redor ficou longe, como apenas um ruído. Eu m*l conseguia entender o que Daniel dizia para a Maitê. Talvez algo sobre como deveria ser ele a me explicar a verdade.  Daniel segurou minha mão e me guiou para dentro da igreja, longe daquela multidão e de todo o barulho que faziam.  Sentamos em um dos bancos, ele segurou a minha mão e olhou-me atentamente.  — Eu não sei por onde começar. — ele me olhava como se estivesse envergonhado. — Tudo o que a Maitê disse é verdade. — admitiu. — Meu pai fez um pacto com outra família e eu tenho que me casar com outra mulher. — minha respiração ficou descompassada e eu podia sentir minha garganta se fechando. — Dulce, você está bem? — ele tentou tocar a minha face, mas eu me afastei.  — Por que me pediu em casamento? — perguntei sem olhar para o seu rosto.  — Desculpe-me se entendeu m*l, mas eu não a pedi em casamento. — disse sem jeito.  — Então, você estava só me usando? — senti as primeiras lágrimas inundarem meus olhos.  — Não! Eu amo você, jamais a trataria como uma diversão ou algo do tipo. Eu sonho com você todas as noites, é o amor da minha vida. — me encarou. — Eu queria mesmo me casar com você, eu detesto a ideia de ter que me casar com alguém que não amo.  — Então, não se case. — minha voz começou a ficar embargada. — Não faça isso comigo.  — Eu sinto muito... — mirou o chão. — Eu queria poder fazer alguma coisa, mas não posso quebrar esse pacto.  — Meu Deus... — comecei a soluçar, sentido a dor rasgar meu coração como se estivesse abrindo um buraco fundo e frio. — Quando me conheceu, você já sabia que se casaria com outra? — o seu silêncio e o nervosismo aparente responderam essa pergunta. — Por que fez isso comigo? Por que aproximou-se de mim?  — Foi mais forte do que eu. Quando eu te vi pela primeira vez, não pensei em mais nada. Eu só queria conhecê-la, saber o seu nome, ouvir a sua voz. — suspirou. — Eu só pensei em mim. — Daniel parecia triste e as lágrimas já tomavam conta de seus olhos. — Eu entendo que deve estar com muita raiva de mim e que não irá querer me ver mais. Eu prometo ficar longe de você.  — Eu não estou com raiva, eu estou triste e querendo entender o porquê de tudo isso estar se passando assim. Por que Deus o colocaria em minha vida se você não seria meu? — olhei diretamente para o altar. — Eu não sou mais virgem... — dei-me conta daquilo e me senti extremamente culpada. — Tem noção do que fez comigo, com o meu corpo?  — Eu sei e estou arrependido. — pousou sua mão sobre o meu ombro. — Dulce, o que você precisar de mim, eu vou te dar. Quero ampara-la por todo m*l que lhe causei.  — Você não pode restaurar a minha virgindade.  — Eu sei. Só Deus sabe o quanto estou me sentindo destruído. Eu machuquei você e agora quero morrer por isso.  — O que as pessoas vão dizer? Quem vai querer se casar comigo agora? Eu sou suja! — cobri meu rosto com as mãos.  — Ninguém tem que saber sobre isso, Dulce. E espere que o homem que for se casar com você te ame de verdade a ponto de não dar a mínima para o seu passado.  — Daniel, isso não é um conto de fadas! — fiquei de pé e o encarei. — Você me mostrou que histórias de amor não são reais. Nenhum homem vai se achar no dever de me respeitar porque você tirou toda a pureza que eu tinha! — ele abaixou a cabeça. — Eu não te odeio e não quero odia-lo. Não é do meu feitio guardar esse tipo de sentimento por qualquer pessoa, por mais que tenha me machucado tanto.  — Ainda vai querer me ver? — eu neguei com a cabeça. — Tudo bem. Eu vou deixá-la em paz, mas ainda vou querer ter certeza de que você está bem. Edgar me manterá informado.  — Daniel, eu posso te dar um conselho? — ele assentiu. — Por mais dura que seja, a verdade ainda é a melhor opção. Quando você começa a mentir sobre algo, não consegue parar e acaba piorando tudo.  — Vou me lembrar disso.  — Deixe-me sozinha. — ele ficou de pé.  — Eu te amo, Dulce. Amo você como nunca pensei ser capaz de amar alguém. — solucei mais uma vez e desviei o olhar. — Obrigado por tudo e adeus. Quando ele deu as costas e saiu da igreja, eu corri até o altar e me ajoelhei no chão, chorando como se o meu coração fosse sair pela minha garganta a qualquer instante.  Olhando para a imagem de Jesus em minha frente, eu me senti culpada, impura, indigna de qualquer piedade. Como eu poderia ser tão burra? E por que ele aproveitou-se da minha ingenuidade dessa forma?  Passei anos da minha vida acreditando que existia uma pessoa certa para cada um, que eu encontraria o amor da minha vida e que viveria uma bela história com ele. Eu encontrei o Daniel e achei que ele pudesse ser o meu amor, achei que ele jamais seria capaz de me magoar e aqui estou eu, ajoelhada em frente ao altar da igreja, implorando a Deus que me perdoasse por meus pecados.  Aos soluços, eu fiz uma oração em pensamento. Orei por tanto tempo que nem notei que a votação lá fora já havia se encerrado.  — Minha filha, está tudo bem? — ouvi a voz do padre atrás de mim e tentei enxugar meu rosto o máximo que pude.  — Eu estava apenas orando, padre. — falei sem olhar para trás.  — Quer desabafar?  — O povo decidiu se quer a caça às bruxas? — tentei mudar de assunto.  — Sim. Em menos de três dias determinaremos todos os atos que apontam para a bruxaria e daremos início à caça. — eu assenti. — O que aconteceu, minha filha? — aproximou-se e colocou a mão sobre o meu ombro. — Pode confessar se quiser. Sabe que não direi nada a ninguém.  — Não é nada... — suspirei. — Eu apenas me apaixonei por alguém que não pode ficar comigo.  — Vocês tiveram alguma coisa? — olhou-me com desconfiança.  — Sim... — eu não conseguiria mentir para um padre. — Eu me sinto tão mal... ele me fez acreditar que se casaria comigo! Eu achei que podia confiar nele! — tornei a chorar.  — Querida, existe muita maldade no mundo e nem sempre você vai conhecer pessoas sinceras. O d***o usa a mentira para parecer confiável e atrair seguidores para no final, causar sofrimento. — ele pousou sua mão sobre minha cabeça. — Precisa pagar penitência para livrar-se do peso de seus pecados.  — O que eu deveria fazer?  — Tornar-se impura é um pecado terrível. Eu diria que você precisa caminhar de joelhos da porta da igreja até o altar todos os domingos após a missa.  — Por quanto tempo?  — Um ano. — eu assenti devagar. — Seu coração está arrependido, precisa apenas pagar esta penitência para que Deus a perdoe. Ou se preferir, pode pagar mil moedas de ouro para a igreja.  — Eu não tenho esse dinheiro.  — Então, só lhe resta o sacrifício físico para limpar o seu espírito. Voltei para casa e encontrei a minha mãe preparando o jantar. Eu tinha que contar para ela tudo o que aconteceu, mas parecia que a coragem não vinha. Como eu olharia para ela e diria que tudo o que Daniel me proporcionou foi uma grande mentira? Como eu diria que não sou mais a menina pura que ela pensa?  — Mamãe? — a chamei.  — Oi, meu amor! Você sumiu, o que aconteceu?  — Eu estava dentro da igreja rezando.  — Ah, entendi! O povo votou a favor da caça às bruxas.  — O padre me contou. — desviei o olhar sem jeito.  — Algum problema? — franziu a testa.  — Sim.  — O que aconteceu? — olhou-me com preocupação.  — O Daniel. — suspirei, tentando conter o meu choro que queria voltar. — Nós não estamos mais juntos.  — O que? — arregalou os olhos. — Por que?  — Ele mentiu para mim, mamãe. — uma lágrima solitária desceu por meu rosto. — Está prometido à outra. Ele não vai casar comigo.  — Meu Deus, que coisa horrível! — ela veio até mim e me abraçou. — Ele não parecia ser o tipo de pessoa que faz algo assim.  — Tem mais. — afastei-me dela, olhei fixamente para o seu rosto e tomei fôlego. — Ele... ele... nós... — era difícil dizer algo assim. — Bem...  — Pode contar o que quiser, querida. — parecia até que ela já sabia.  — Daniel me desvirginou. — minha mãe ficou em silêncio, com a expressão mais séria que eu já vi. — Não vai dizer nada?  — Não pode contar isso a ninguém.  — Eu contei ao padre. Me senti suja e precisava confessar. — O que ele disse?  — Tenho que pagar uma penitência todos os domingos após a missa.  — Tudo bem, sem problemas, mas não conte a mais ninguém, nem mesmo aos seus amigos! — eu assenti. — Não acredito que aquele canalha fez isso com você! Não quero vê-lo nunca mais! — tornou a me abraçar. — Saiba que eu estou ao seu lado e sempre estarei.  — Obrigada, mamãe.  Minha mãe amparou-me a noite inteira, enquanto eu chorei em seu colo. Toda vez que lembrava do rosto de Daniel e em todas as coisas que ele me fez acreditar, eu sentia vontade de chorar até meus olhos secarem.  Nas semanas que se seguiram, eu cumpri a minha penitência. Em todas as vezes, os meus joelhos sangravam e ficar de pé depois de caminhar de joelhos pela igreja, era uma tarefa dolorosa. Eu fazia uma oração e limpava o sangue dos meus joelhos com água benta todas as vezes.  Ninguém além de minha mãe sabia o porquê de eu precisar pagar aquela penitência. Não queria correr o risco de ficar m*l falada pela aldeia. Por mais que Deus pudesse me perdoar, as pessoas certamente não fariam o mesmo.  O casamento real já tinha uma data marcada e a cerimônia de coroação aconteceria no mesmo dia. Estranhamente, o casamento seria fechado apenas para o povo da nobreza. Boatos diziam que o príncipe não queria a presença dos mais pobres, o que já criava uma imagem péssima para ele.  Angelique e Christian estavam me ajudando a tentar esquecer o Daniel, uma tarefa que parecia impossível. A dor que a minha penitência causava me dava um alívio momentâneo, algo que só durava enquanto o sangue dos meus joelhos corria por minhas pernas.  Percebendo que a dor corporal aliviava a dor sentimental, eu passei a me autoflagelar às escondidas, em locais que não poderiam ser vistos por outras pessoas. Toda vez que as lembranças sobre Daniel me açoitavam, eu dava um jeito de fazer tudo sumir.
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