Daniela engolia seco o nervoso sentada ao lado dele, a caminho da sua casa. A sorte que sempre mantinha a casa limpa e organizada.
Vicente entra na pequena casa, e ela logo pede licença para tomar um banho rápido e se trocar. Ele podia sentir o constrangimento dela, mas estava se esforçando para não dizer nada inadequado... mas tipo??? Ele já comeu ela... bem, meio comeu, porque não finalizaram nada aquele dia. Sacode a cabeça, confuso com tudo.
Observou a casa, e tudo era muito simples, ele viu uma sacola de mercado e espiou dentro, miojo, miojo e miojo... Franziu o cenho. Ela devia gostar muito de miojo.
Daniela, veste uma calça jeans preta, uma camisa rosa que ganhara de amigo secreto no final do ano anterior, solta os cabelos e passa um gloss. Era o que dava. Vicente vê a mulher quase sem maquiagem o encarar, e estava linda, parecia que a cada vez que a via, ela ficava mais linda. Os cabelos úmidos e soltos, o faziam quase revirar os olhos. Engoliu o desejo e sorriu.
- Está perfeita. - Ela ri e baixa a cabeça.
- Estou pronta.
No caminho para a churrascaria conversaram sobre histórias de pacientes, e ele contou sobre algumas lutas em que se machucou. Mas mesmo com a conversa ele só pensava em tirar aquela roupa dela, e em como ela se vestira de forma modesta e nada prostituta... Estacionou o carro e pegou o braço dela para enganchar nele. Caminharam lado a lado, e ele podia perceber os olhares de outros homens, o fazendo sentir ciúme, e quase querer surrar aqueles babacas.
Daniela riu muito com as histórias dele, m*l lembrou-se das dores da sua vida. Comeu tanto que no fim, m*l conseguia se levantar. Vicente, observava a mulher a sua frente e ela parecia uma menina, ria das piadas idiotas dele, se surpreendia com as histórias de luta, e se apavorava com alguns vídeos que ele mostrava. Mas o que o encantava mais, era a simpatia com todos, ela aceitar tudo que lhe ofereciam, e não se preocupar com nada além da comida e da companhia dele. Ela não pegou o celular nem uma só vez, como a maioria das mulheres faziam. Nem tirou foto dos pratos ou das taças. Ela era diferente, ele só não conseguia assimilar tudo ainda.
Naquela noite, quando a deixou em casa teve vontade de beijá-la. Mas aguentou firme, não queria acelerar as coisas, de algo que ele nem sabia o que era.
Daniela dormiu satisfeita e feliz naquela noite. Seu irmão estava melhor, saiu com um cara legal, e comeu como não comia há meses.
Hoje tinha boate. Daniela chegou, colocou aquela roupa ridícula que ela odiava, e começou a servir os clientes. Uma gracinha aqui outra ali, estava quase terminando o expediente. Então o chefe veio em sua direção.
- Daninha... - Daniela engoliu o nojo do homem.
- Sim?
- Quero lhe apresentar uma pessoa, venha. - Ele segurou-a pelo braço e ela o seguiu meio arrastada. Daniela viu um homem alto, musculoso a encarar com olhos brilhantes e seu estômago revirou. - Este é meu amigo, George, ele não é daqui, é de Islândia.
- Islândia... - Repetiu sem entender o que acontecia.
- Isso, Islândia, e ele gostou de você.
- Ah, obrigada. - Daniela diz forçando um sorriso.
- Pode agradecê-lo num quarto lá de cima... - Daniela arregala os olhos.
- O quê? Não!
- Ah para de graça, outro dia vi que subiu com um cara aí, não custa fazer uma favor pro amigo do chefe. - Daniela não acreditava no que ouvia.
- Mas quando entrei foi-me dito que não era obrigada a me prostituir.
- E não é. - O chefe ri. - É uma escolha, mas se não subir com ele, está fora. - Daniela abre a boca e sente suas pernas fraquejarem. Olha para o homem da Islândia que tinha um sorriso sádico no rosto, e sabe que nunca conseguiria fazer aquilo. Encara novamente o chefe e tira o avental.
- Tô fora então! - Diz e dá as costas aos homens. Seu coração aos pulos, suas pernas trêmulas, sua mente trabalhando a milhão. Pega sua bolsa no armário, e passa no caixa para receber o seu dia, mas o chefe não deixa ela receber. E com medo ela chama um táxi e gasta ainda mais, além de não receber, para ir para casa.
Naquela noite, Daniela só deita de barriga para cima, e pensa. A vida dela estava sendo uma luta, dia a dia para sobreviver. Vira-se de lado, sem saber se sentia triste ou aliviada por não trabalhar mais naquele lugar asqueroso.
Os dias seguiam e Rafael estava bem, Daniela estava animada e quando viu dona Semedo chegando com o Vicente seu dia ficou mais alegre.
- Minha paciente favorita! - Recebe a senhora que sorri maliciosa para o neto.
- Minha doutora favorita. - Daniela joga a cabeça para trás em uma gargalhada e Vicente sente o seu coração dar uma leve parada, então volta a bater com força. Era a primeira vez que a via gargalhar, e foi como uma porrada no meio do peito.
Ele deixa a avó tomando algumas medicações na veia, e vai procurar a "doutora" favorita da avó. Após uma breve caminhada, pergunta no balcão e é informado que ela saiu para o intervalo. Ele precisava pegar o telefone dela! Sai dali e vai ao restaurante no andar de baixo, mas nada. Então na volta vê a outra enfermeira que a vó gosta. Como era mesmo o nome dela?
- Com licença...
- Oi... - Vivente quase revira os olhos com o oi exagerado e o sorriso da mulher.
- Onde posso encontrar Daniela? - A mulher engole o sorriso e ergue as sobrancelhas.
- A Dani está no intervalo.
- Sim, mas gostaria apenas de conversar com ela... ela está no hospital? - Vicente se esforçava para ser educado, mas sua vontade, era sacudir aquela chata.
- Ela está na sala de descanso, o senhor não pode ir lá. - Vicente coça a nuca.
- Pode me passar o número dela?
- Infelizmente, não posso fazer isso, mas... - Vicente ergueu as sobrancelhas se corroendo, pois tinha o número da mulher, mas não podia mandar mensagem, pois ela não havia lhe dado o número. - Posso lhe dar o meu... - Vicente não aguentou dessa vez, revirou os olhos e virou as costas, indo para o quarto da avó.
Daniela terminou o dia como há tempos não terminava. Tranquila, passou no quarto do irmão, conversaram e foi pra casa. Comeu o seu miojo, e dormiu bem.
Vicente só faltava arrancar os cabelos da cabeça. De tanta ansiedade por falar com ela, mas amanhã iria lá no hospital, apenas para pedir o número dela, e poder se comunicar como gente normal.