Jantar

1799 Words
Daniela segura o choro debaixo do chuveiro, enquanto abraça o próprio corpo. Não acreditava que tinha sido capaz de se vender, o choro brota em sua garganta e não consegue conter os soluços. Termina o banho rapidamente travando os dentes por ter de voltar lá e terminar o que começou. Se enrola numa toalha e sai do banheiro trêmula. Os seus olhos percorrem o pequeno recinto e ela desaba, ao perceber-se sozinha ali. - Obrigada meu Deus, obrigada por me salvar ... - Daniela se ajoelha e entrelaça as mãos. Se levanta, seca as lágrimas e veste-se. Terminaria o seu trabalho, precisava de muito dinheiro ainda. Suspirou e engoliu seco, pensando no homem e em como ele aparecera do nada. Fora horrível, mas ele pode ter ajudado a salvar a vida de seu irmão. Vicente se atira em sua cama e passa as mãos no rosto. Pega o celular e procura o pix de Daniela. Adiciona o número de telefone no w******p e logo uma foto dela, sorrindo de cabelos soltos aparece. Por um breve momento ele sorri, mas então volta a ficar sério, atira o celular na cama e vai tomar um banho. Vicente batia uma pensando nela, na boca, no corpo... agora estava pior que antes, porque a vira nua, e porque... - Meu Deus! Ela era virgem! Virgem? - Saiu do banho e pegou o celular. Não poderia mandar uma mensagem pelo w******p para ela. - 20 mil... - Pensou e resolveu mandar outro pix, mas esse com uma mensagem. "De onde veio esse tem mais, mande mensagem por aqui, para terminarmos o que começamos." Deitou e aguardou, mas nada veio. Bufou e se virou de lado. Já estava tarde, o jeito era dormir para esquecer, mas quem disse que ele conseguiria... ? Sua mente vagava pelos olhos dela, pelas reações confusas, e isso estava o levando a loucura. Agora uma dúvida surgia. A procuraria novamente na boate? Ou a chamaria para sair com ele mesmo! - Droga! - Vicente pensava que não devia tê-la seguido. Daniela se deitou em sua cama naquela noite olhando o saldo da conta bancária. O homem mascarado tinha enviado mais 20 mil. Era muito dinheiro, era quase tudo do que ela precisava para o tratamento de seu irmão. Fechou os olhos e agradeceu a Deus pelo dinheiro que apareceu, mesmo que tivesse sido de uma forma tão drástica. Ela nunca poderia agradecer a Deus o suficiente por aquilo. Dormiu em paz, apesar de suas dificuldades e da fome que a corroía. Naquela noite, não tinha nada para comer em casa, era madrugada, e na boate, não podia pegar nada para comer. Daniela entra no hospital na manhã seguinte, sentindo-se exausta, mas feliz pela nova chance. Procura Alexandre o médico do seu irmão, e amigo. Pois desde o começo ele a ajudava como podia e cuidava de seu irmão, como se fosse ele o irmão. - Alexandre! - O chama com um sorriso no rosto. Mas ele está sério. - Consegui quase todo dinheiro. - Diz entusiasmada, e o semblante sério muda. - Quanto? - 40 mil! - Vê o rosto dele se iluminar e então ele sorri amplamente. - Fiz uma vaquinha com uns amigos... - Daniela abre a boca incrédula. - Consegui 11 mil, estava chateado, por ser pouco, mas então vai dar! - Alexandre a puxa para um abraço. Daniela sentia que a vida era boa, que sempre havia chance de vencer, era só lutar pela vida! Dois dias depois, Vicente entrava com a sua avó no mesmo quarto de sempre, para mais uma sessão de hemodiálise, mais algumas medicações, e depois a levaria de volta para casa. Seu coração apertado no peito, pois nem por um segundo nos últimos dois conseguiu deixar de pensar nela. Enquanto ajudava a sua vó a deitar na cama, ouviu a voz dela e seu corpo reagiu imediatamente, o fazendo praguejar em silêncio. - Bom dia, senhora Semedo, senhor... - Ela para e ele sabe que ela vai dizer seu nome, e de repente não sabe mais se queria que ela o fizesse. - Vicente. - Ele vira-se para ela, e como num passe de mágica ele esquece que ela é um prostituta... talvez ela só ... Ah... não tem desculpa. - Bom dia. - Responde sorrindo simplesmente. - Bom dia, minha linda. - Sua vó cumprimenta a técnica em enfermagem com um amplo sorriso. - Estava com saudades já. - Ah eu também. - Daniela gostava muito da senhora e apreciava a simpatia do neto. Enquanto fazia o seu trabalho, sentia os olhos dele sobre si, e até ficava desconcertada, mas o que diria? Em certo momento ergue os olhos e os seus encontram os dele. Aqueles olhos... - Daniela! - Daniela vira-se para ver a enfermeira chefe. - Assim que terminar aí, sala 12. - Ok. - Daniela se apressa, pois sabia que era um caso crítico o da sala 12. Uma jovem garota, infecção generalizada, ela estava na emergência quando ela chegou, e a garota sempre pedia por ela. - Depois você volta? - Vicente deixa escapar, e vê os olhos surpresos da mulher, afinal, ele mesmo estava surpreso com as suas palavras. Devia estar perdendo o juízo! Daniela sorri e assente. - Sim, dentro de menos de duas horas, retorno, para liberar vocês. - Hummmmm... - Vicente revira os olhos ao ouvir a vó debochando dele. - Depois você volta? - Cala boca, véia! - Vicente diz rindo e ouve a risada alta da vó. - Pois saiba que faço bom gosto... - Por favor vó! - Vicente tinha suas dúvidas se ela gostaria ainda da mulher se soubesse que ela vendeu o seu corpo a ele, por 20 mil. Daniela não sabia quanto tempo havia ficado naquele quarto, não sabia quanto gritou e tentou reanimar a garota. Nesse momento se encontrava do lado de fora do hospital, olhando o céu. O dia estava bonito, tinha sol, mas por dentro dela chovia. Uma menina tão jovem, não devia ter 18 anos, por que a vida era assim? Suspirou, e virou-se depressa ao ouvir uma voz atrás de si. - Acho que você não voltou... - Vicente, teve de chamar uma enfermeira, e soube que a paciente dela tinha morrido. Ligou para seu pai buscar a avó, e foi procurar a mulher que o deixava louco, maluco, alucinado. - Oh... - Daniela leva a mão a boca. - Me desculpe, é que... - Tudo bem, estou brincando. - Já liberaram sua avó? - Sim, ela já foi para casa, apenas vim ver como você está. - Daniela sorriu, por um momento esqueceu-se de tudo. Era legal alguém se importar com ela. Claro que Elô e Alexandre se importavam, mas eles também eram ocupados e tinha os seus próprios problemas. E em momentos assim, ela estava sempre sozinha. - Estou bem. - Não parece. - Vicente queria conhecê-la mais, dúvidas rondavam a sua cabeça. E ele começava a repensar sobre ela novamente. - Bem, acabo de perder uma paciente, era tão jovem. - Daniela fica pensativa e Vicente passa o braço por seus ombros. - Sinto muito. - Daniela sentiu um arrepio percorrer seu corpo. O toque dele a fez estremecer, então logo saiu do meio abraço. - Obrigada. - Daniela suspira. - Bom, tenho que voltar, obrigada pela conversa... - Mas que conversa? - Vicente sorri gentil. - m*l conversamos. Que tal um jantar? - Daniela franze o cenho. - Um jantar? - Para podermos conversar de verdade, nos conhecer... - Vicente ergue as sobrancelhas e aguarda a resposta da mulher desconfiada a sua frente. Era até estranho, pensar que a vira nua, e ela nem sabia. Ele fora o seu amante secreto. Talvez ela nunca mais visse o mascarado, e eles podiam fingir que aquilo nunca aconteceu. Daniela pensou no jantar. Não tinha dinheiro para um lugar que ele deveria frequentar. Pagara o hospital e os mil reais que sobraram, pagou o seu aluguel atrasado, e comprou alguma comida. - Eu agradeço, Vicente, mas... - Daniela sorria gentil e falava de modo a não ofendê-lo. Vicente segurava o sorriso no rosto, mas ao constatar que ela recusaria, a interrompeu. - Por minha conta, a melhor churrascaria da cidade. Não vai recusar, vai? - Tentou a sorte, então ela baixou os olhos, e riu. Bingo! - Ta bom. - Hoje? - Certo. - Que horas você sai? - Ele sabia, mas não diria, ou pareceria um stalker. O que de fato ele tinha virado. - 22 horas, mas preferia passar em casa antes. - Sem problemas, te pego aqui, e te espero na sua casa. - Daniela pensou em recusar, mas ele estava sendo muito agradável com ela, então assentiu. - Está bem, até... - Abana para ele e sai apressada. Daniela visita o irmão e ele mostra o movimento leve do pé. Ela se emociona com o irmão, que não fazia ideia do valor do tratamento. - E o seu romance como está? - Pergunta a ele, interessada. - Mais ou menos... - Daniela percebe o sorriso dele fraquejar. - O que houve? O que ela fez? - Daniela já pensava em ir caçar a mulher pelo hospital, quando ouviu o irmão falar sério, e seu peito apertou. - Ela não fez nada, eu fiz. - O que? - Questionou confusa. - Como vou me relacionar com alguém sendo um inválido. - Mas você está melhorando. - Pequenas melhoras. Ela merece muito mais que um miserável e inválido. - Para já com isso, Rafael! - Daniela fica brava. Afinal estava fazendo até o que não devia para ajudá-lo e ele se tratando daquela forma. - Pois trate de se endireitar e se ela gosta de você não importa como você está, e vai melhorar, oras! - Vê o irmão sorrir. - Estava com saudades, gatinha. - O irmão estende a mão para ela. - Está trabalhando muito, não está? - Nada de mais. - Daniela responde e abraça o irmão. - Amanhã não venho, mas depois de amanhã, estarei aqui. - Tá bom, se cuida. - Daniela sai do quarto do irmão e engole o nó em sua garganta. Desde aquele fatídico dia, sua mente voltava lá, para a torturar. Esperava nunca mais precisar fazer aquilo... Vicente se prepara com roupas casuais, pois não acreditava que ela tivesse roupas sociais, para uma churrascaria como a que a levaria. E não queria constrangê-la. Afinal, para trabalhar numa boate, só faltava ela ir com roupas extravagantes, franze o cenho enquanto se arruma. Daniela sai 22:20 de dentro do hospital e vê o belo homem com o carro prateado estacionado na frente do hospital. Ele escorado na porta do carro, e com um sorriso estonteante a esperando. O seu sorriso se abre por vontade própria e sente um frio na barriga.
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