Entrevista
Por Antony
Porra de sessões de terapia...
Eu realmente imaginava que fazer terapia seria simples: eu sentaria em uma poltrona confortável, despejaria todos os meus traumas, problemas e pensamentos perturbados enquanto a psicóloga apenas ouviria em silêncio, balançando a cabeça como se entendesse tudo.
Mas não.
Ela pergunta. Pergunta demais.
E eu odeio perguntas.
Agora estou sentado na minha sala, com uma caneta girando entre os dedos e uma folha cheia de questões idiotas enviadas por e-mail pela minha psicóloga — uma senhora de cinquenta e sete anos que claramente sente prazer em invadir a mente alheia.
Segundo ela, eu precisava responder aquilo e levar as respostas na próxima sessão.
Ridículo.
“O que te levou a fazer terapia?”
Essa é fácil, doutora.
Pesadelos recorrentes com a morte dos meus pais. Sangue, gritos, lembranças que voltam toda madrugada como um filme maldito.
“Quais são as pessoas mais importantes da sua vida?”
Pergunta clichê pra c*****o.
Mariana. Lorenzo. Yan.
Minha irmã, meu irmão e meu melhor amigo — que agora também namora minha irmã.
Somos nós por nós desde sempre.
“Você pensa em casar e ter filhos?”
Solto uma risada nasal enquanto encaro a pergunta.
Doutora, eu tenho trinta e um anos, dinheiro suficiente para fazer o que eu quiser, a hora que eu quiser, com a mulher que eu quiser. Por que diabos eu me prenderia a casamento?
Namorar já parece um saco.
Casar então? Nem fodendo.
Filhos... talvez um dia. Mas sem esposa. Se eu realmente quiser uma criança no futuro, pago uma barriga de aluguel e resolvo isso.
Continuo respondendo aquela tortura psicológica quando o telefone interno toca, interrompendo meus pensamentos.
Atendo imediatamente.
— Pois não?
— Senhor Antony, aqui é da recepção. Tem uma moça chamada Laura dizendo que veio para a entrevista.
Merda.
A entrevista.
Eu havia esquecido completamente.
Arrumo os papéis espalhados pela mesa, puxo o currículo dela e m*l tenho tempo de organizá-lo antes de uma batida soar na porta.
— Pode entrar.
A porta se abre devagar.
— Com licença...
A voz rouca e suave atravessa a sala feito uma provocação.
Sexy pra c*****o.
Levanto os olhos.
E por alguns segundos simplesmente esqueço como respirar.
Porra...
A mulher mais linda que eu já vi.
Rosto delicado, boca carnuda desenhada perfeitamente, olhos enormes em um tom indefinido entre castanho e verde, cílios longos, nariz arrebitado e cabelos ondulados caindo pelos ombros de forma quase selvagem.
Ela me encara assustada.
Acho que fiquei olhando tempo demais, porque ela desvia os olhos rapidamente e abaixa a cabeça, tímida.
Limpo a garganta e me levanto.
— Antony.
Estendo a mão.
Ela hesita por um instante antes de aceitar o cumprimento. Seus dedos estão levemente trêmulos dentro dos meus.
Seguro sua mão com firmeza, tentando ignorar a estranha descarga elétrica que sobe pelo meu braço quando ela volta a me olhar.
Olhos grandes.
Inseguros.
Bonitos demais.
Puxo a cadeira diante da mesa.
— Sente-se, Laura. Vamos conversar sobre a vaga.
Abro seu currículo e arqueio uma sobrancelha.
Formada em contabilidade.
Quase rio.
A garota claramente tinha capacidade para empregos muito melhores do que trabalhar no meu bar, talvez no meu escritório seria o ideal.
— Você é formada. Por que está procurando vaga aqui?
Ela junta as mãos sobre o colo.
— Eu procurei trabalho na minha área, mas ainda não consegui nada. Sou nova na cidade e preciso trabalhar.
A sinceridade dela me pega desprevenido.
— Tem experiência como barista?
Antes que ela responda, minha porta abre.
Yan entra rapidamente.
— Fala aí.
Laura sequer levanta os olhos para ele.
Yan me lança um olhar curioso antes de sair novamente.
— Então? — volto minha atenção para ela.
— Trabalhei como barista durante a faculdade. Era como eu pagava meus estudos.
A voz dela continua baixa, mas firme.
— Você parece tímida. Aqui é lotado, cheio de gente bêbada da alta sociedade, por vezes esnobes. Tem certeza que consegue lidar com isso?
Ela ergue os olhos diretamente para mim outra vez.
E dessa vez sustenta meu olhar.
— Eu consigo.
Simples. Direta.
Interessante.
Fecho o currículo.
— Pode começar hoje?
Ela pisca surpresa.
— Sério?
— Isso é um sim?
Um sorriso pequeno surge em seus lábios.
Porra...
Ela sorrindo deveria ser ilegal.
— Claro. Obrigada pela oportunidade.
Levanto da cadeira.
— Vou te apresentar o pessoal.
Dou a volta na mesa e ela se levanta junto comigo, ficando um pouco na minha frente .
Erro.
Grande erro.
Porque agora consigo observar o corpo dela de verdade.
Cintura fina. Quadril desenhado. s***s volumosos escondidos sob uma camisa branca simples que não esconde p***a nenhuma. E quando ela vira de costas...
Cristo.
Que b***a.
E seu cabelo, bate no final das costas, caindo como ondas brilhantes em um tom castanho médio com alguns fios marrons .
Automaticamente minha mente cria imagens impróprias demais para alguém que acabou de contratar a garota há cinco minutos.
Nunca me envolvi com funcionárias.
Nunca misturei trabalho com sexo.
Mas Laura definitivamente parece o tipo de problema que um homem aceita ter.
Levo-a até o bar e peço para um dos funcionários ajudá-la durante os primeiros dias.
Subo novamente para minha sala.
Do andar superior observo o movimento aumentando enquanto a música toma conta do ambiente.
Meus olhos encontram Laura atrás do balcão.
Ela segura a coqueteleira enquanto atende um grupo de homens sentados próximos dela.
Os caras estão praticamente babando.
E honestamente?
Eu entendo.
Quando ela sai detrás do balcão, percebo as pernas longas expostas pela saia curta do uniforme.
Franzo a testa imediatamente.
Quem c*****o entregou aquela saia pra ela?
Pego o celular para resolver aquilo, mas sou interrompido por uma ligação de um fornecedor.
Alguns minutos depois, uma batida brusca na porta chama minha atenção.
— Entra.
Meu segurança aparece primeiro.
Laura vem logo atrás dele.
Os olhos dela estão marejados.
Meu corpo endurece na hora.
— O que aconteceu?
O segurança cruza os braços.
— Ela deu um tapa na cara de um cliente e jogou bebida nele.
Olho para Laura, surpreso.
— Por quê?
Ela me encara indignada.
— Porque ele passou a mão na minha b***a.
Sinto a raiva subir imediatamente.
Filho da p**a.
Mas ainda assim preciso controlar a situação.
— Laura... você deveria ter chamado um dos seguranças.
Ela pisca, incrédula.
— Como é?
A voz dela sobe.
— Vocês colocam uma saia ridícula em mim, um cara tenta me assediar e a única coisa que você tem coragem de dizer é que eu não deveria ter reagido?
Merda.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Ah, foi sim! — ela rebate furiosa. — Você é igualzinho a eles.
Ela aponta para mim, tremendo de raiva.
— Aliás, devia entregar esse uniforme pra sua mãe usar. Ou pra sua irmã. Quem sabe assim você entende!
Antes que eu consiga responder, ela gira nos calcanhares e sai da sala batendo a porta.
O silêncio pesa no ambiente.
Passo a mão pelo rosto lentamente.
Então olho para o segurança.
— Quero o nome do cara que encostou nela.
Minha voz sai fria.
Perigosa.
Porque ninguém encosta em uma mulher dentro do meu estabelecimento.
E aquele filho da p**a vai aprender isso da pior forma.