CAPITULO 12

1870 Words
CAIO SANTORO Acordo cedo, sentindo o peso da rotina da semana que se encerra, e decido ir direto para a mansão dos meus pais. Todos os domingos sem exceção, mantendo uma tradição inegociável da nossa família, reunimo-nos lá para o almoço dominical. Assim que atravesso o hall de entrada e deixo meu paletó com o segurança, sigo o aroma reconfortante de café fresco até encontrar minha mãe. — Bom dia, mamãe. Que bom vê-la tão disposta hoje — cumprimento, depositando um beijo carinhoso em sua bochecha. — Bom dia, meu amor. Dormiu bem esta noite? Sente-se aqui para tomar café com calma; as meninas ainda estão dormindo e vão demorar um bom tempo para descer — responde Amélia, ajeitando a xícara na minha frente com aquele cuidado maternal que nunca muda, por mais velho que eu fique. Sento-me à mesa espaçosa para tomar café com ela, que, como de costume, engata em um monólogo sem fim sobre os preparativos do meu futuro casamento e os detalhes da festa. A minha família sempre foi extremamente unida, moldada por laços de sangue e dever. Meus pais, assim como aconteceu comigo agora, casaram-se por arranjo comercial para firmar as bases da máfia; no entanto, meu pai faz questão de me contar, sempre que tem oportunidade, que se apaixonou perdidamente pela minha mãe no exato segundo em que a viu pela primeira vez. — Caio, querido... você por acaso está me ouvindo ou a sua mente continua voando longe em outro lugar? — pergunta minha mãe, tirando-me dos devaneios. Pisco algumas vezes, sacudindo a cabeça para me focar no momento presente. — Sim, mamãe, estou ouvindo sim. Mas agora vou dar uma passada rápida na academia da casa para me exercitar um pouco. Se o papai acordar, por favor, peça para me avisar imediatamente — peço, levantando-me da mesa. Saio da sala de jantar e sigo direto para o espaço de treinos no subsolo. Passam-se cerca de vinte minutos enquanto estou focado na esteira, regulando a velocidade e a respiração, até que a porta pesada se abre e alguém entra no recinto. Eu não preciso nem me dar ao trabalho de virar o pescoço para saber exatamente quem é; o cheiro dela — uma mistura inconfundível de jasmim fresco com a suavidade da pele limpa — já havia anunciado sua presença. Ela para estancada na soleira da porta e fica me observando de longe por um longo tempo. Sinto o peso magnético daquele olhar queimando nas minhas costas e, com a audição apurada, percebo o exato momento em que a respiração dela sofre uma alteração sutil, tornando-se mais pesada e compassada. Ela está nitidamente excitada com a visão. Decido cortar o silêncio e chamar a atenção dela antes que o clima fique denso demais e o ar comece a faltar na sala. — Sabe, Louise... estou começando a ficar seriamente sem graça com esse seu hábito persistente de me secar desse jeito — provoco, sem perder a compostura. Viro-me lentamente para encará-la de frente, e noto que ela está com as bochechas intensamente coradas. Não consigo decifrar com precisão se aquele rubor é fruto da pura excitação ou da vergonha flagrante de ter sido pega no flagra; mas, pelo tanto que o seu rosto está vermelho, aposto convicto que são as duas coisas ao mesmo tempo. — Você consegue ser o homem mais convencido e arrogante da face da terra, senhor Santoro — retruca ela, cruzando os braços com altivez. — Quem te garante com tanta certeza absoluta que eu estava te olhando? — Eu não preciso de garantias quando tenho plena consciência dos meus atributos — respondo com um sorriso cínico nos lábios. — E, convenhamos, não tem absolutamente nada mais bonito ou interessante que eu nesta sala para te deixar completamente paralisada desse jeito. — Você é inacreditavelmente presunçoso. Ela resmunga alguma outra frase em voz baixa que não consigo captar direito, mas, pelo bico nos lábios e pela expressão fechada, no mínimo deve estar me xingando de todas as formas possíveis em pensamento. Decido ignorar a provocação e continuar a conversa para ver até onde vai a sua marra. — Diga-me uma coisa, Louise... você sempre teve esse hábito de praticar esportes e frequentar academias com tanta disciplina? — Sim, é o meu passatempo favorito para espairecer a cabeça e fugir da realidade — responde ela, erguendo o queixo. — Inclusive, eu acabei obrigando a Helena a se matricular na minha academia para me fazer companhia nas séries, mas agora que vou ter que me mudar para a Itália, terei de malhar sozinha por lá. Mas e você? Sempre foi esse viciado em puxar ferro? — Gosto de me manter em forma e com os reflexos sempre afiados para qualquer eventualidade — explico, secando o suor da testa com uma toalha. — E costuma praticar algum esporte de combate ou luta corporal? — Luta livre e artes marciais mistas, principalmente — respondo, estreitando os olhos. — É, imaginei. Obviamente que pratica — solta ela, revirando os olhos. Abro um sorriso de lado inevitável diante da resposta seca dela. No fundo, por mais que tentemos fingir o contrário, até que não está sendo tão r**m assim ter essa mulher desaforada por perto. Nossa troca de farpas é subitamente interrompida quando minha mãe aparece na entrada da academia, chamando-nos em alto e bom som para o almoço dominical que já está servido. Desligo imediatamente a esteira, pulo para o chão e dou alguns passos em direção à porta. No entanto, no exato momento em que Louise tenta dar um passo para o lado, o pé dela escorrega desastrosamente em cima de um halter pesado deixado solto no chão. Ela perde o equilíbrio e só não sofre uma queda feia no piso duro porque, com meus reflexos rápidos de lutador, dou um bote preciso e a seguro firmemente pela cintura a tempo. — Meu Deus dos céus, muito obrigada, que susto! — exclama ela, respirando fundo e apoiando as mãos trêmulas no meu peito. — Eu juro para você que não sou tão desastrada assim no dia a dia, mas eu simplesmente não vi esse peso maldito jogado aqui no meio do caminho. E, a propósito, qual foi o i*****l que deixou esse peso enorme no chão e... Caio, por acaso você está me ouvindo ou entrou em colapso? A verdade é que, naquele instante, o mundo ao redor pareceu silenciar completamente. Fiquei com ela presa firmemente em meus braços por muito mais tempo do que o estritamente necessário ou prudente. O cheiro natural dela, misturado ao perfume floral adocicado e ao leve suor do esforço físico, prendeu-me instantaneamente em um transe profundo e inevitável. Seus olhos verdes, incrivelmente expressivos e arregalados, escancaravam sem filtros todos os sentimentos que passavam pela sua mente naquele segundo. Diante de mim estava uma mulher simplesmente perfeita, dona de uma força e de uma beleza desconcertantes. Só consegui sair daquele torpor hipnótico quando ela começou a sacudir meus ombros, chamando minha atenção impacientemente. — CAIOOOOOOO! Acorda para a vida, homem! — Vamos andando logo, senão o almoço vai esfriar e a minha mãe vai vir aqui nos buscar — desconverso, ajudando-a a se endireitar. — Quer saber? Depois dessa, sou eu quem tem todo o direito de dizer que foi você quem ficou babando em mim, seu cínico — alfineta ela, ajeitando o vestido com elegância. Ela passa por mim rebolando de forma proposital e provocante, lançando-me um sorriso extremamente sarcástico no canto dos lábios antes de disparar pelo corredor. No exato momento em que ela some de vista, um pensamento fugaz cruza a minha cabeça: Eu realmente deveria ter deixado ela cair de b***a no chão... Caminhamos até a sala de jantar principal, onde todos os membros da família já se encontravam acomodados ao redor da mesa farta. Louise sentou-se educadamente bem ao meu lado, ficando diretamente de frente para a minha irmã Beatrice, que não perdeu tempo e já engatou uma conversa animada com ela sobre livros e moda. Enquanto isso, eu e meu pai aproveitamos o momento para tratar de alguns assuntos espinhosos de trabalho e logística da organização. A tarde correu de forma relativamente tranquila, até que meu celular vibrou insistentemente no bolso do paletó, exigindo minha atenção imediata. Era um aviso urgente: precisei me retirar para resolver um problema grave com um dos nossos carregamentos internacionais de contrabando; alguém dentro da rede está tentando nos sabotar de dentro para fora, e aquela já era a segunda rota de carga que apresentava falhas misteriosas e desvios na entrega exata. Depois de passar horas ao telefone dando ordens duras e contornando a crise, decidi que o melhor seria voltar direto para a minha residência particular para espairecer a cabeça. Como o dia estava terrivelmente quente e abafado, decidi que daria uma passada rápida em uma das minhas boates favoritas na cidade para verificar o movimento e beber alguma coisa forte. Subi para o meu quarto, tomei um banho gelado e revigorante, e vesti uma camisa polo preta de grife, uma calça jeans escura perfeitamente ajustada e tênis de sola baixa. Para arrematar o visual noturno, coloco a minha grossa corrente de ouro no pescoço, ajusto meu relógio de pulso favorito e sigo direto para a vasta garagem subterrânea. Quando o relógio no painel do carro marca exatamente onze horas da noite, estaciono e entro na boate, que já se encontra absolutamente lotada, pulsando com luzes estroboscópicas e música alta. Subo rapidamente as escadas privativas em direção ao meu escritório particular e me acomodo na minha sala reservada, pedindo apenas uma garrafa de uísque escocês para beber em silêncio por algumas horas. O silêncio do meu refúgio, contudo, é interrompido quando a porta se abre e Giulia entra com passos firmes, segurando uma prancheta de controle. — Boa noite, Caio. Pelo horário e pela cara fechada, veio aqui hoje apenas para se divertir um pouco ou só para fiscalizar o movimento da casa? Quer que eu mande a equipe organizar a nossa sala VIP de sempre? — pergunta ela, com a i********e de quem me conhece desde a infância. — Boa noite, Giulia. Sim, por favor, mande preparar a sala VIP número três para mim. E me diga: como está o fluxo de caixa e o movimento da casa nesta noite de fim de semana? Giulia é uma peça-chave na minha operação e trabalha comigo desde o primeiro dia em que assumi os negócios; nós crescemos praticamente juntos nos corredores da máfia. Ela é filha direta do antigo chefe da guarda pessoal do meu pai. Infelizmente, quando ela tinha apenas dezesseis anos, o pai dela acabou morrendo em combate em uma emboscada na Sicília, e meu pai, em sinal de honra e respeito, assumiu a responsabilidade de criá-la e protegê-la como parte da família. Anos mais tarde, a tragédia bateu à porta dela novamente quando o seu marido também acabou sendo assassinado em um confronto territorial. Como Giulia recusou categoricamente a ideia de se casar novamente ou aceitar um casamento arranjado por conveniência, ela escolheu trilhar seu próprio caminho e hoje atua com extrema competência como a minha gerente geral de confiança, controlando com pulso firme absolutamente todas as minhas boates e casas noturnas na região.
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