LOUISE BIANCHI
Ainda me sinto m*l com aquele "balde de água fria" que ele me jogou na noite passada. Subo as escadas pisando firme, engolindo a frustração, e entro no quarto que ele indicou. O apartamento dele é gigante, com uma decoração extremamente moderna, fria e impecável — a cara do dono.
Tomo um banho demorado na suíte, deixando a água quente cair sobre as minhas costas enquanto tento processar tudo o que rolou lá embaixo. Eu teria me entregado se ele não tivesse nos parado? O que diabos está acontecendo com você, Louise? Mordo o lábio inferior, encarando o teto. Estou perdendo o foco completamente, e não posso cair na besteira de me iludir por um homem desses.
Minha consciência me alerta, e ela tem toda a razão do mundo. Não posso deixar isso acontecer novamente. O Caio já deixou bem claro, com todas as letras, que não quer amor, não quer envolvimento e muito menos uma vida de casado normal. Temos um contrato, temos um trato e vamos segui-lo à risca. Pego no sono com esse pensamento martelando na minha cabeça.
Acordo pela manhã com uma dor de cabeça insuportável, parecendo que há uma furadeira dentro do meu crânio. Ressaca de vodka é definitivamente um castigo divino. Levanto-me da cama com dificuldade e vou até o banheiro lavar o rosto. Quando me olho no espelho, solto um suspiro desgostoso: misericórdia, minha cara está destruída, parece que um caminhão passou por cima de mim várias vezes e deu ré.
Ajeito-me como posso, coloco minha roupa da noite anterior e decido pedir um Uber pelo celular. A casa está em um silêncio absoluto e não estou nem um pouco disposta a acordar o Caio para pedir carona. Encontro meus saltos jogados perto da porta de entrada, chamo o elevador e, já no hall do prédio, peço o carro. Saio pela portaria e vejo alguns seguranças dele do lado de fora; eles me observam em silêncio, apenas assentindo de leve. Entro no Uber e sigo em direção à casa dos pais do Caio.
Quando chego, encontro Dona Amélia acomodada no jardim, tomando seu café da manhã com toda a elegância do mundo.
AMÉLIA: Bom dia, Louise! Que bom que chegou, querida. Venha tomar café comigo, temos um dia cheio! Precisamos ir ver a casa onde será realizada a cerimônia de casamento.
— Bom dia, Amélia... Ai, se você não se importaria, poderia ver isso para mim? Confio plenamente no seu bom gosto, tenho certeza de que qualquer lugar que escolher será perfeito.
AMÉLIA: Mas querida, tem certeza de que não quer ao menos saber onde vai ser? É o seu casamento!
— Tenho sim, absoluta certeza. A senhora sabe o que faz.
AMÉLIA: Tudo bem, meu bem. Vá descansar um pouco, você parece abatida.
— Muito obrigada, Dona Amélia.
AMÉLIA: Amélia, sem o "dona", por favor! Já te disse, somos família agora.
Concordo com a cabeça, dando um sorriso fraco, e subo direto para o quarto em que estou hospedada. Não se passam dez minutos e a porta é escancarada. Beatrice entra igual a um furacão descontrolado.
BEATRICE: Louiseeeee! Meu Deus, você está viva!
— Por Deus, Beatrice, não grita! Já tem uma banda de rock inteira tocando na minha cabeça, não piora a minha situação, por favor!
BEATRICE: Ai, desculpa! Mas me conta agora o que aconteceu ontem! Que surto de ciúmes foi aquele que meu irmão deu no meio da boate? Ele parecia um bicho!
— Eu sinceramente não entendo o seu irmão, Beatrice. O Caio é completamente louco e imprevisível. O melhor a se fazer é manter distância dele pelo bem da minha própria saúde mental.
BEATRICE: Credo, Lou! O que rolou entre vocês depois que saíram de lá para você estar tão brava assim? Ele te tratou m*l?
— Não aconteceu nada, Bea. Nada mesmo. É só cansaço e a ressaca. Bebi demais ontem e não posso deixar isso acontecer de novo.
BEATRICE: Hum... sei. Não convenceu muito, mas já entendi o recado. Vou te deixar sozinha para você descansar, depois conversamos mais com calma.
Ela pisca para mim, sai e fecha a porta. Eu dou graças a Deus pelo sossego. Estou imersa em um silêncio maravilhoso quando a paz é bruscamente quebrada pelo toque do meu celular na mesa de cabeceira. Atendo sem nem olhar a tela.
— Oi, minha razão.
HELENA: Oi, meu amor! Que saudade de ouvir sua voz! Como estão as coisas por aí na Itália? Tem visto muito o senhor "gostosão"?
— Ai, Lena... para falar a verdade, eu preferia nem ver. Ele é louco! Ontem deu o maior show na boate onde fui com a Beatrice e, depois de me levar para a casa dele e me beijar horrores, veio com uns papos tortos de que "era melhor não continuar". Me poupe! Homem confuso é um pavor!
Helena fica em silêncio absoluto do outro lado da linha por alguns segundos. Começo a achar estranho.
— Lena? Você está aí? Alô? Ficou muda?
Preciso tirar o celular do ouvido às pressas por conta do grito estridente que essa garota dá do outro lado da linha.
HELENA: Meu Deus do céu! Você está muito safada, Dona Louise! Aonde estava escondida essa parte de você que eu simplesmente não conhecia? Me conta tudo!
— Nossa, que bela amiga você é, Helena! Em vez de me apoiar e me dar um conselho, fica aí rindo da minha cara como se eu fosse uma palhaça!
HELENA: Desculpa, Lou! Me desculpa, juro! É que eu só estou chocada e impressionada com esse enredo todo!
Ficamos conversando e fofocando pelo resto da manhã, o que ajuda a distrair minha cabeça. Por volta do meio-dia, ouço batidas suaves na porta.
AMÉLIA: Louise? Querida?
— Oi, Amélia! Pode entrar, está aberta.
AMÉLIA: Pensei em vir te chamar pessoalmente. Venha almoçar com a gente lá embaixo, você nem tomou café da manhã hoje. Daqui a pouco vai perder as medidas do corpo e o seu vestido de noiva vai precisar de mil ajustes de última hora!
— Eu já desço, prometo. Vou só trocar de roupa rapidinho.
AMÉLIA: Está ótimo, meu bem. Mas não demora, tá? O Caio e o Enzo acabaram de chegar para almoçar conosco, mas disseram que terão que sair para resolver assuntos de trabalho logo depois.
— Ok, vou me apressar.
Ela sorri e sai. Eu vou direto para o banheiro. No mesmo segundo, sinto meu coração acelerar e minhas mãos começam a suar frio. Estou completamente nervosa e não entendo o porquê de o nome dele me afetar assim. Louise, controla-se, pelo amor de Deus.
Visto um short jeans simples, uma regata branca básica e calço uma rasteirinha no pé. Não pretendo me arrumar, me maquiar e nem fazer nada demais hoje. Prendo o cabelo em um coque desajeitado e desço as escadas. Conforme me aproximo da sala de jantar, ouço a voz da Beatrice rindo e o tom grave do Caio conversando com o pai.
— Boa tarde a todos.
Dou um boa tarde geral, sem olhar diretamente para ninguém, e me sento rapidamente ao lado de Enzo. Dona Amélia me olha com uma grande interrogação no rosto, provavelmente estranhando o fato de eu ter evitado sentar no lugar vago bem ao lado do Caio, mas a minha prioridade agora é manter distância dele.
O almoço transcorre até que bem. Mantenho-me calada a maior parte do tempo, apenas respondendo ao que me perguntam, mas percebo perfeitamente que minha sogra e o próprio Caio notaram o meu afastamento proposital.
Assim que todos terminam de comer, peço licença da mesa e vou direto para a biblioteca da casa, que é o meu refúgio. Procuro um livro qualquer nas prateleiras altas e me deito no sofá de couro do fundo. Estou concentrada na leitura há alguns minutos quando uma presença forte me faz arrepiar. Sinto que tem alguém me observando da porta.
— Está há muito tempo aí parado? — pergunto, sem tirar os olhos da página do livro.
CAIO: Por que você não me esperou no apartamento hoje cedo? Eu disse claramente que te traria para cá.
— Eu acordei cedo e simplesmente não vi a menor necessidade de te acordar só para isso. Pedi um Uber pelo celular e cheguei aqui perfeitamente bem.
CAIO: Louise, você não pode brincar com a sua própria vida desse jeito irresponsável! Você sabe muito bem que tem um alvo gigante nas costas só por ser filha de quem é, e agora por ser a minha futura esposa, então...
— Eu não sou sua esposa — corto-o imediatamente, fechando o livro com um estalo e encarando-o. — Pelo menos ainda não.
Ele me olha de canto, erguendo uma sobrancelha perfeitamente desenhada. Odeio admitir, mas ele está ridiculamente lindo com essa camisa social.
CAIO: Agindo dessa forma imatura, você só prejudica a si mesma. Colocar a sua segurança e a sua vida em risco não é um bom jogo de provocação contra mim, Louise.
— Eu não estou tentando provocar ninguém, Caio. E também não faço a menor ideia do que te levou a achar uma bobagem dessas, mas a verdade é que não me interessa o que você pensa. Vamos continuar com o plano inicial, é muito melhor para nós dois.
CAIO: Do que você está falando?
— Aquele beijo de ontem à noite não devia ter acontecido. Foi um erro, um momento de fraqueza por causa da bebida. Vamos fingir que não existiu, esquecer isso de uma vez e seguir estritamente com o combinado do nosso contrato. Agora, se você puder me dar licença, eu gostaria de voltar para o meu livro. Qualquer barulho tira a minha concentração.
Ele fica em silêncio, me encarando com um olhar indecifrável, denso, como se estivesse me analisando camada por camada. Não sei dizer se ele está irritado ou surpreso com a minha postura. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele se vira e se retira da biblioteca, pisando firme.
Assim que a porta se fecha, solto todo o ar dos meus pulmões que eu nem sabia que estava prendendo. Meu peito sobe e desce descontrolado. O Caio está mexendo demais comigo, e isso definitivamente não pode acontecer. Eu preciso retomar o controle da minha vida e desta situação. Urgente!