CAPITULO 19

1075 Words
LOUISE BIANCHI "Enfim, Senhora Santoro". Ele olha no fundo dos meus olhos e, por um milésimo de segundo, chego a acreditar que ele vai beijar meus lábios com a mesma intensidade daquela noite. Em vez disso, ele apenas sela minha testa com um toque frio e distante. A decepção me atinge em cheio no peito, mas antes que eu possa esboçar qualquer reação, a celebração oficial começa e o caos se instala. É uma maratona exaustiva: sessão interminável de fotos, sorrisos completamente forçados e cumprimentos de dezenas de pessoas da máfia que nunca vi na vida — alguns me olhando com pena disfarçada, outros encarando com puro desdém. Quando finalmente consigo me livrar da bajulação e das conversas fúteis, corro para a biblioteca em busca de um segundo de paz. Helena me segue logo atrás, fechando a porta. HELENA: Olá, senhora Santoro! Como é a sensação de estar devidamente casada? — Ai, amiga, eu estou exausta... Minha boca já está doendo de tanto sorrir falsamente para essa gente toda! HELENA: Olha, é melhor você se benzer bem quando sair daqui. O tanto de mulher invejosa que tem nesse salão hoje não cabe nem em um livro! — Nem me fale! E o pior é que elas nem fazem questão de disfarçar. Me olham com uma cara de b***a tão transparente que me dá até vontade de rir na cara delas. Helena rri, dá uma piscadela e sai da biblioteca para tentar azarar alguns rapazes da festa. Fico sozinha por alguns instantes, de cabeça baixa, tentando absorver o dia, até que o som seco de passos de salto alto ecoa pelo piso de madeira do recinto. Ergo o rosto e vejo uma mulher ruiva deslumbrante se aproximar com passos lentos e firmes. MARESA: Então você é a famosa Louise Bianchi... De fato, você é muito linda. Tenho que reconhecer que a família do Caio soube escolher muito bem quem carregaria o herdeiro dos Santoro. — E quem é você? — pergunto, cruzando os braços e mantendo a postura firme. MARESA: Eu sou a mulher que o Caio realmente ama. Sei muito bem que você é a prometida dele desde criança por causa do acordo da máfia, mas sou eu quem ocupa o coração e a cama dele. Seja a esposa no papel, mas nem tente competir comigo pelo afeto dele. Isso não vai acabar nada bem para você, garotinha. Abro a boca por um segundo, completamente atordoada com a audácia daquela mulher. Respiro fundo, engulo em seco e encontro minha voz mais fria: — Maresa, escuta aqui: eu não tenho a menor intenção de disputar ou ter absolutamente nada com o seu homem. Pode ficar bem tranquila, o posto de amante é todo seu e eu faço questão de te doar. Eu não tive escolha nenhuma de estar neste casamento. Agora, se você me der licença, eu quero ficar sozinha. MARESA: Ótimo saber disso — ela solta um sorriso cínico e vira as costas. — E espero do fundo do coração que essa nossa conversa fique estritamente entre nós duas. — Pode deixar — respondo, destilando veneno. — O seu homem nunca vai saber por mim que você veio aqui tentar ameaçar a primeira-dama da máfia. Ela sai da biblioteca ostentando um sorriso sarcástico. Assim que a porta se fecha, sinto um vazio terrível tomar conta do meu peito. Segundos depois, meu irmão Lucca entra no cômodo sem fazer barulho e me dá um susto. — Que merda, Lucca! Ficou maluco? O que a Maresa queria com você agora pouco lá fora? — Ela veio me apresentar o inferno onde eu vou ter que viver a partir de hoje... Mas escuta bem o que vou te dizer, Lucca: se o Caio pensa que eu serei aquela esposa submissa e i****a, ele está muito enganado. Eu vou mostrar para ele o que é viver um casamento de fachada de verdade! Lucca hesita por alguns instantes, olhando para mim com pena, mas a verdade dolorosa acaba escapando de sua boca: Maresa é a amante fixa de Caio há tempos. E pior: ontem mesmo, na boate, enquanto eu estava em casa, eles não apenas conversaram... eles foram juntos para as salas privadas do andar de cima. O meu mundo desaba por completo no chão. O ar falta nos meus pulmões. Corro para o banheiro da biblioteca, tranco a porta e choro baixinho até perder o fôlego. O silêncio daquele cômodo frio é o meu único refúgio. Quando finalmente me recomponho, lavo o rosto com água gelada e volto para o salão da festa, forçando um sorriso radiante diante de todos os convidados. Não demora muito e Caio se aproxima, me puxando pela mão para a dança dos noivos. CAIO: Como você se sente sendo, oficialmente, a senhora Santoro a partir de agora? — E era para eu me sentir como, Caio? Feliz? — respondo baixo, encarando seus olhos e destilando uma amargura pura. Ele percebe o tom da minha voz, fecha a cara e não tenta mais puxar assunto. A partir dali, o resto da festa vira um borrão. Danço com meu pai, com meu sogro e até com o Enzo. Quase no final da noite, Helena me puxa para um último abraço apertado perto dos carros. HELENA: Eu te amo demais, Lou. Não esquece disso nunca, tá? — ela sussurra no meu ouvido. Naquela dança de despedida, escondo como posso as lágrimas que insistem em querer transbordar dos meus olhos. Ao chegar no apartamento do Caio — já que a nossa casa definitiva ainda não está totalmente pronta —, a realidade pesa de forma massacrante sobre mim. Ele tenta me carregar no colo assim que saímos do carro, mantendo a tradição, mas desço imediatamente assim que as portas do elevador se abrem na cobertura. — Onde fica o quarto de hóspedes? CAIO: O quê? Eu... não sabia que dormiríamos em quartos separados hoje, mas sem problemas. A sua mala já está no meu quarto principal. Vou preparar algo leve na cozinha para você comer antes de dormir. — Não precisa. Ignoro completamente o convite dele. Subo as escadas pisando firme, entro no primeiro quarto que vejo no corredor — uma suíte confortável, embora bem menos luxuosa que a dele — e me jogo de bruços na cama de casal. O choro preso na garganta volta com uma força avassaladora, rasgando meu peito, e é assim, completamente desfeita em tristeza e traída, que o sono finalmente me vence.
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