CAPITULO 25

2323 Words
Aqui está a versão expandida e aprofundada do capítulo, com foco no aumento dos diálogos, detalhamento dos sentimentos e pensamentos do Caio, além da ambientação rica da dinâmica da máfia e da relação com a Louise. CAPÍTULO — CAIO SANTORO Acordo cedo, despertado por um silêncio quase incômodo no quarto. Instintivamente, estico o braço para o lado de trás da cama, mas minha mão encontra apenas o lençol gélido. Louise já não está mais ali. Permaneço alguns instantes encarando o teto, surpreso com o peso do meu próprio sono; não me lembro de ter dormido tão profundamente em anos. Havia uma paz estranha que só a presença dela conseguia proporcionar, mesmo que meu juízo tentasse me alertar do contrário. Decido sair para correr. Preciso dissolver a adrenalina que ainda queima sob a minha pele, residual da noite anterior e da urgência constante que acompanha o meu título. As ruas da propriedade ainda estão sob a névoa matutina quando começo a acelerar o passo. Hoje é um dia de grande importância para a família: o aniversário de casamento dos meus pais. Como manda a tradição, eles darão uma festa grandiosa, do tipo que paralisa toda a alta sociedade e reúne os nomes mais influentes e perigosos da Itália. Enquanto me me alongo no jardim ao retornar, o celular no meu bolso começa a vibrar. Olho o visor antes de atender. É o Enzo. — Fala, cara — atendo, com a respiração ainda um pouco afegã. — Por que me ligar tão cedo? Sabe que o dia hoje vai ser longo. — Conseguiu o que eu te pedi, Don? — a voz de Enzo surge firme e direta do outro lado da linha, sem rodeios. — Estou trabalhando nisso. E quanto ao nosso alvo? ENZO: — Sim, chefe. Como sempre. Amanhã o Lucca chega na Itália e vamos conseguir resolver esse problema de uma vez por todas. Não foi difícil localizá-lo; na verdade, achei fácil até demais para o meu gosto. Ele cometeu descuidos idiotas. Estreito os olhos, absorvendo a informação com o rigor analítico que o meu cargo exige. — Facilidade demais no nosso meio costuma ser armadilha, Enzo. Mantenha os olhos bem abertos. De qualquer forma, é ótimo saber disso. Amanhã resolvemos os últimos detalhes pessoalmente. Quero essa situação inteiramente liquidada. Esse traidor vem tirando o meu sono há semanas e a Omertà não tolera esse tipo de escória. ENZO: — Considere feito, Caio. A segurança dele já está comprometida. Apenas me dê o sinal amanhã. — Perfeito. Nos falamos mais tarde na festa. Desligo a ligação. Volto para dentro de casa, onde o silêncio do lugar sem a Louise parece encarar-me de volta. Tomo um banho gelado para alinhar as ideias e sigo direto para a mansão dos meus pais a fim de acompanhar os preparativos do almoço familiar. Assim que cruzo a porta de entrada, o aroma inconfundível da culinária da minha mãe preenche o saguão principal. Vejo-a instruindo os funcionários sobre a decoração. — Bom dia, mama — digo, aproximando-me com passos calmos. Dou um beijo carinhoso em sua testa, sentindo o acolhimento que só ela consegue transmitir no meio do caos que é o nosso mundo. AMÉLIA: — Bom dia, meu bem. Você parece cansado. Dormiu bem? E cadê a Louise? Pensei que viriam juntos. — Ela tinha compromissos com os estudos, mama. Nos encontramos mais tarde. Onde está o papai? AMÉLIA: — Está na biblioteca, como de costume. Tentando alinhar a lista de convidados com os assuntos do Conselho. Vá lá ver seu pai antes que ele surte com os preparativos. Sigo pelo corredor de madeira nobre até a biblioteca. A porta pesada de carvalho está entreaberta. Encontro meu pai servindo-se de um uísque, encarando os papéis sobre a mesa. Passo a tarde inteira conversando com ele. Ele me aconselha sobre os meandros da máfia, os limites da lealdade e a firmeza necessária para governar os homens sem perder a soberania. Meu coroa é implacável, o estrategista mais perspicaz que já vi atuar. Se um dia eu conseguir ser metade do Don que ele foi para a família Santoro, terei zerado a vida. Entre um assunto e outro sobre territórios e carregamentos, ele faz uma pausa pesada, servindo-me um copo e encarando-me nos olhos. ALFREDO: — Há um assunto pessoal que não pode mais ser empurrado com a barriga, Caio. Você, como Don, é o chefe da família. Está encarregado de comunicar à sua irmã com quem ela vai se casar. Respiro fundo, sentindo o peso do dever sobre meus ombros. Essa era a conversa que eu mais temia. — Eu sei, papai. Pensei nisso todas as noites desta semana. Eu amo a Beatrice mais do que tudo e por isso escolhi alguém capaz de protegê-la e mantê-la próxima à família. Mas confesso que estou com receio da reação dela. A Beatrice e o Enzo não se bicam por nada neste mundo; ele é um completo libertino e ela é orgulhosa demais para aceitar isso com facilidade. Mas sei que não dá mais para adiar. Ela fará vinte anos. Pela regra da máfia, já esperei tempo demais para selar essa aliança. ALFREDO: — Entendo perfeitamente o quanto você a ama, meu filho. O papel de irmão quer protegê-la de tudo, mas o papel de Don exige sacrifícios maiores. Um Don coloca a máfia em primeiro lugar, sempre. Não há outra saída. O conselho está nos cobrando essa posição firme para manter a estabilidade entre as famílias. A Beatrice vai entender com o tempo; ela nasceu nesta estrutura e conhece as obrigações que carrega no sangue. Você cumpriu as suas deveres com a família, agora é a vez dela fazer o mesmo. — Ela vai odiar no começo — comento, girando o copo entre os dedos. — Mas o Enzo é leal até a morte. Ele vai dar a vida por ela se for preciso, mesmo que os dois passem o tempo todo se esfaqueando com as palavras. ALFREDO: — É o que importa no final das contas. Lealdade e proteção. Faça o que precisa ser feito hoje à noite ou logo após as comemorações. Passo o restante do dia imerso nessas responsabilidades sufocantes, checando esquemas de segurança e conversando com os capitães. Chego em casa no final da tarde para me arrumar. O silêncio no quarto me indica que ainda não há sinal da Louise. Coloco a camisa social, ajusto os botoes do pulso e, quando estou ajustando a gravata do meu terno em frente ao espelho, ouço o som discreto de seus passos no andar de baixo e a porta se fechando. Desço os degraus vagarosamente para esperá-la na sala principal. Ela entra desatenta, ajeitando a bolsa no ombro. — Está linda, Lou — murmuro de onde estou, com a voz baixa e firme. LOUISE: — Como você sabe, se nem me viu direito ainda? — ela questiona sem hesitar, levantando os olhos com aquela petulância natural que me atrai e me irrita na mesma medida. Viro-me inteiramente para ela, encarando sua figura. O terno perfeito, a postura elegante, o cabelo impecável. — Porque é fisicamente impossível você não estar — respondo, dando passos lentos em sua direção. Aproximo-me até que a distância entre nós seja mínima. Inalo o aroma doce e provocante do seu perfume, que impregna meus sentidos. Inclino-me ligeiramente e meus lábios roçam a pele macia do seu pescoço. Sinto-a arrepiar-se inteira no mesmo segundo, a respiração dela vacilando. Sorrio contra sua pele; adoro o efeito avassalador que causo nela, por mais que ela tente disfarçar. — Vá se trocar. Não podemos nos atrasar para o meu pai — digo, afastando-me com um olhar sugestivo. Mais tarde, chegamos ao salão da festa. O ambiente está deslumbrante, iluminado por lustres gigantescos e povoado por homens de negócios, membros do submundo e suas famílias. Deixo Louise aos cuidados da minha mãe enquanto cumpro meus deveres inevitáveis de Don com alguns membros do conselho e associados da máfia. Passo a maior parte da noite longe dela, conversando sobre negócios, rotas e acordos. Mas meus olhos nunca a perdem de vista totalmente. Observo-a de longe a noite toda. Ela parece se divertir genuinamente: dança com meu pai, ri abertamente com a Beatrice e conversa animadamente com a Helena. Há uma leveza nela que contrasta com a obscuridade de tudo ao redor. Quando a noite começa a chegar ao fim e os convidados mais distantes iniciam as despedidas, sinto uma urgência física e mental de tê-la perto. Aproximo-me por trás enquanto ela observa a pista de dança. — Será que a última dança pode ser comigo? — pergunto próximo ao seu ouvido. Ela toma um susto leve, virando-se rápido, mas quando percebe que sou eu, abre um sorriso sincero que me desconcerta por completo. Ela está simplesmente perfeita. LOUISE: — Achei que não iria me convidar. Pensei que passaria a noite inteira apenas fechando negócios sombrios no canto do salão. — Negócios podem esperar quando se trata de você — respondo, estendendo a mão. Puxo-a suavemente para a pista. Enlaço sua cintura, trazendo seu corpo para junto do meu enquanto a música lenta preenche o ambiente. Sinto sua respiração compassada, mas percebo a tensão sutil em cada músculo seu à medida que a proximidade aumenta. — Você está incrivelmente linda hoje, Louise — digo, olhando-a bem no fundo dos olhos. LOUISE: — Quer dizer que nos outros dias eu estou feia, Santoro? — ela provoca, arqueando uma sobrancelha. — Isso é absolutamente impossível — respondo, sem desfazer o contato visual. — Você sempre está linda. Mas hoje... hoje há algo diferente. Como está indo a faculdade? Tem conseguido dar conta de tudo? Ela engata no assunto e começa a falar sobre as aulas, as matérias e os trabalhos, tentando manter uma conversa trivial. Porém, m*l consigo concentrar-me nas palavras. Estou completamente inebriado pelo seu cheiro familiar, hipnotizado pelos tons dos seus olhos e fascinado pela curva provocante da sua boca a cada palavra que pronuncia. LOUISE: — O que foi? — ela interrompe a fala, franzindo a testa ao notar o meu silêncio compenetrado. — Por que está me olhando assim? — Não sei por que... mas sempre que estou perto de você assim, tenho uma vontade absurda e incontrolável de te beijar. A reação é imediata. Ela fica tão vermelha que eu nem sabia que aquele tom de timidez e desejo existia na sua pele. LOUISE: — Você não deveria ficar dizendo essas coisas em público, Caio. Há dezenas de olhos nos observando agora. — Verdade — concordo com um sorriso de canto. — Então, em vez de dizer... vou fazer. Não dou espaço para contestação. Puxo-a um pouco mais e beijo-a com uma urgência represada que há muito tempo não sentia por nada ou ninguém. Louise solta um suspiro baixo contra minha boca e retribui na mesma moeda, rendendo-se ao momento, explorando cada canto da minha boca com um ardente desejo. Eu não dou a mínima para quem está nos observando no salão — membros do conselho, aliados ou inimigos. Naquele segundo, o mundo lá fora não existe. Mantenho minhas mãos firmes na sua cintura quando nos afastamos devagar, ambos com a respiração alterada. — Vamos para casa. Agora — ordeno suavemente. Ela me olha com as pálpebras levemente pesadas e vejo o desejo puro estampado em seus olhos. A viagem de volta para a nossa casa é um borrão de velocidade e adrenalina. Dirijo de forma agressiva; não conto quantas infrações de trânsito cometi no percurso, apenas sei que quero chegar logo ao nosso destino. Entramos em casa praticamente tropeçando nos próprios passos, envolvidos em beijos desesperados desde o hall de entrada. Mas quando estamos na altura do quarto, uma ponta repentina de responsabilidade, uma fração involuntária de segundo de sanidade tenta me alertar sobre as consequências do que estamos fazendo. Paro por um segundo, segurando seu rosto entre as mãos. — Você tem certeza disso, Louise? Tem certeza de que é o que quer? LOUISE: — Não quebra o clima, Caio — ela murmura, puxando a minha lapela e colando seus lábios nos meus novamente. Não penso em mais nada. Todas as barreiras caem. O resto da noite é um incêndio sem controle que queima entre nós, consumindo cada centímetro de pele e qualquer vestígio de razão. Acordo pela manhã com um sobressalto involuntário. Olho para o criado-mudo e vejo que o relógio digital marca sete horas em ponto. Olho para o lado e o lugar dela está vago. De novo. Custei a dormir na madrugada; simplesmente não consigo parar de pensar na frieza calculada com que Louise agiu após o ato. Assim que o calor do momento passou, ela se recolheu, ergueu suas muralhas e agiu como se nada tivesse acontecido entre nós. Eu não conhecia esse lado dela. Pela primeira vez na minha vida inteira, sinto aquela sensação amarga no peito: a nítida impressão de que fui usado. Sentado na borda da cama, passo as mãos pelo rosto, sentindo o maxilar trincado. Mas ela não perde por esperar. Se é esse o jogo de esquiva e provocação que ela quer jogar comigo, tudo bem. Ela vai aprender muito rápido que o jogo mudou e que eu não costumo perder nenhuma partida. Levanto-me, visto uma roupa casual e desço as escadas em direção à cozinha. Encontro a governanta organizando a mesa. — Bom dia, Marina — cumprimento, mantendo a voz neutra. — A Louise já acordou? MARINA: — Bom dia, senhor Caio. Sim, a dona Louise já tomou o café da manhã bem cedo e saiu para a faculdade há cerca de vinte minutos. — Entendi. Obrigado, Marina. Fico alguns segundos encarando o café fumegante na mesa antes de tomar minha decisão ali mesmo. Se ela acha que pode simplesmente desaparecer da minha cama e agir como se não tivéssemos queimado juntos na noite passada, está muito enganada. Hoje, quem vai buscá-la pessoalmente na faculdade sou eu. E ela terá muito o que explicar.
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