CAIO SANTORO
Sempre que tenho tempo, venho ao orfanato. Esse lugar me traz uma calma; a alegria e a pureza das crianças são impagáveis, por isso faço questão de ajudar a mamãe a mantê-lo funcionando sempre.
Cheguei faz tempo e já sabia que a Louise estava aqui; era só questão de tempo até nos esbarrarmos. Só não sabia que a Lila estaria junto. Eu e a Lila tivemos um breve romance; ela agora é casada e achei que tinha superado, mas não. Sempre que pode, ela dá em cima de mim. Só que, dessa vez, ela passou dos limites. Ela tem que aprender a respeitar minha esposa, e cobrarei isso dela mais tarde.
Resolvo levar a mamãe e a Louise para almoçar. A cara da Louise não está das melhores e sei que é por causa do que aconteceu há pouco com a Lila. Graças a Deus, minha mãe percebe e tenta mudar o rumo da conversa.
AMÉLIA: — O que achou, Louise? As crianças não são encantadoras?
Minha mãe pergunta, a fim de amenizar a situação, mas quando olho para a Louise, ela está branca. Só dá tempo de aparar sua cabeça antes de chegar ao chão.
— Louise, me responde!
Pego-a no colo e a levo para o hospital. Já faz mais de duas horas que ela está no soro; os médicos fizeram uns exames e estamos esperando os resultados.
— Doutor, é bom a minha mulher acordar logo, se não, eu juro que vou meter uma bala na cabeça de todos aqui dentro!
DOUTOR: — Senhor Santoro, sua esposa está bem, fique tranquilo.
O médico diz com a voz trêmula e eu estou a ponto de matá-lo com as minhas mãos.
AMÉLIA: — Caio, não adianta ameaçar os médicos, eles fazem o que está ao alcance deles.
Nesse momento, ouço a voz dela e meu coração é invadido por uma calmaria.
LOUISE: — Caio, para de ameaçar o pobre do médico, pelo amor de Deus.
— Você está bem?
Ignoro o que ela disse, e ela me olha com um sorriso e concorda.
AMÉLIA: — Vou chamar o médico.
Minha mãe sai em busca do doutor.
LOUISE: — Não pode ameaçar as pessoas, sabia? Ele estava fazendo o trabalho dele.
— O trabalho dele era te acordar, e ele levou três horas para fazer isso!
Ela fecha a cara e, mesmo pálida, consegue ser a mulher mais linda do mundo.
DOUTOR: — Como está se sentindo, Senhora Santoro?
LOUISE: — Bem, doutor. Acho que só estou desidratada e com fome, não comi nada ainda hoje.
DOUTOR: — Sim, bom, vou passar uns exames para você, mas seu caso foi um clássico de falta de alimentação e hidratação. Beba bastante água e se alimente bem, por favor.
O médico passa os exames e, como ela está de jejum, já realiza todos por ali mesmo. Saímos do hospital e fomos direto para um restaurante almoçar. Quando chegamos, encontramos Helena e Klaus almoçando e nos juntamos a eles.
LOUISE: — Oi, amiga.
HELENA: — Oi, vida! Como você está? Amanhã vamos naquele spa marcar o dia de noiva da Beatrice, fui lá uma vez e achei magnífico.
Todos nos sentamos e ficamos conversando sobre coisas aleatórias, mas o assunto principal foi o casamento da Beatrice com o Enzo.
AMÉLIA: — A gente pode ir hoje lá, Helena, está cedo ainda, é bom que não fica tudo em cima da hora.
LOUISE: — Pode ser, eu vou com vocês.
— Não, você vai para casa repousar e se hidratar, ouviu o que o médico disse?
HELENA: — Médico? Que médico? Foi ao médico por quê? Você está bem?
AMÉLIA: — Caio está exagerando. A Louise desmaiou hoje no orfanato, levamos ela ao médico e ele disse que foi só desidratação. E, para completar, a bonita não tinha comido nada e já passava da hora do almoço.
A cara com que a Helena olha para a Louise me deixa em alerta.
HELENA: — Ah, desidratação e falta de alimentação foram a causa do desmaio? E ele passou algum teste, Lou?
Helena pergunta e eu sinto ironia na sua voz; a cara da Louise está de um vermelho impressionante.
LOUISE: — Sim, Helena, ele passou, mas só sai depois de amanhã. Vou buscar depois do casamento da Beatrice.
HELENA: — Vou com você, amiga, faço questão.
Louise olha para a Helena com uma cara que dá medo, e eu não estou entendendo nada. Na verdade, acho que só eu e Klaus não estamos entendendo nada, porque minha mãe está achando graça da situação.
— O que está acontecendo, que vocês duas estão conversando por código?
AMÉLIA: — Coisa de mulher, Caio, deixa de ser fofoqueiro!
Minha mãe intercede.
HELENA: — É, Senhor Santoro, fica tranquilo, nada de mais. Já que vamos no spa, é melhor irmos logo, então.
AMÉLIA: — Tem razão, vamos, Lou. Te deixo em casa depois, e filho, pode ficar tranquilo que faço ela beber bastante água.
Minha mãe e Helena saem arrastando a Louise, e eu estou achando isso tudo muito estranho.
KLAUS: — Mulheres e seus mistérios... ainda bem que não sou casado.
— Mas vai ter que casar já, já, né? Você agora é o novo conselheiro do Capo da Rússia.
Zombo dele, que me dá o dedo do meio.
KLAUS: — Vai se f***r, Caio.
Kkkkk, fico achando graça da cara dele. Klaus e eu ficamos bebendo mais um pouco e depois fomos resolver algumas coisas que vêm acontecendo.
No dia da posse de Lucca, ele revelou para mim que, quando foram atrás de Marco e Henry, não encontraram o Marco, e o Henry nem sequer sabia que tinha sido descoberto. Conversando com Klaus, ele disse que o Henry não tinha pretensão de se aposentar tão cedo e que isso em nada agradava ao irmão. Com essas informações, decidimos investigar mais a fundo as relações do Marco. Antes não nos preocupava, até porque achávamos que ele estava morto, mas agora descobrimos que quem tinha contato direto com a máfia alemã era o Marco, e que não só eu e os Bianchi éramos alvos dele, mas também a própria família.
Depois que a Helena contou para o Klaus tudo o que passou na mão do Armand, conversamos com chefes das máfias aliadas e todos nos apoiaram; então, Lucca e eu deixamos na mão do Klaus o que fazer com Armand. Klaus, apesar de não ser o cotado para herdar o título dos Petrov, foi criado igual ao irmão, ambos para se tornarem conselheiros.
Lucca foi atrás de Marco e o trouxe para a Itália. De acordo com Armand, ele tem assuntos importantes que nos interessarão, além da localização dos outros. Chegamos à sede da máfia e fomos direto para o galpão. Entramos e Lucca está com a camisa suja de sangue; pela cara do Armand, já sei de quem é o sangue.
— Nem esperou a gente chegar para começar a festa, cunhadinho?
LUCCA: — Desculpa, não pude evitar.
Lucca responde com uma cara nada amigável.
— Então, Armand, o que você tem que pode nos interessar?
ARMAND: — O acordo era sem me encostar.
— Não, o acordo era não te matar. Agora é bom você começar a falar, se não, mudo de ideia e deixo o Klaus e o Lucca te matarem.
ARMAND: — Conheci o Marco no México; meu pai era mexicano e minha mãe francesa. Eu sou um dos filhos do Capo da máfia mexicana, mas nunca fui reconhecido por ser bastardo. Marco me procurou e me fez uma proposta irrecusável. Eles queriam ajuda para tomar o poder da máfia russa, mas precisavam da ajuda de pessoas importantes dentro da máfia. Ele sabia que eu tinha relações com todas. Depois que fiz a ponte entre eles e a máfia alemã, ele tentou me passar a perna e não pagar o combinado. Além disso, o pai dele me devia uma fortuna e estava falindo porque era um viciado de merda em jogos. Então, ele me fez uma proposta: ele me dava a irmã em casamento e eu esquecia a dívida do pai. E, assim que ele matasse o Frederico Bianchi e tomasse o lugar dele, me pagaria com juros. Aceitei de imediato o acordo, e quando vi a garota, encantei-me mais ainda. Selamos o acordo com o noivado, mas o que seu pai não sabia era que seu irmão estava louco para tirar ele de jogada, e ele teria conseguido se você não tivesse descoberto os planos dele antes. No dia que o Mario morreu, ele ficou sabendo e não contou para o pai; fugiu sem ele saber e está na Alemanha. Eu não sei qual é o rolo, mas parece que o Capo Bianchi tem alguma rixa antiga com a Alemanha, e o Marco usou isso a seu favor. Em troca de ajuda, Otto, atual capo da máfia alemã, pediu sua esposa, Don, e ele disse que ela era dele por direito.
ENZO: — Como o Marco descobriu que matamos o Mario?
ARMAND: — Mario tinha uma amante, que inclusive era amante de Marco também.
LUCCA: — Nome, Armand, queremos nome!
ARMAND: — Maressa.
— Filha da p**a! Sabe onde ela está?
ARMAND: — Provavelmente com o Marco, na Alemanha.
Saímos do galpão e fomos para a minha sala. Que história é essa de que a Louise pertence ao Otto por direito?
— Lucca, ligue para o seu pai. Quero ele na Itália antes do nascer do sol.