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607 Words
Os corredores do bloco E estavam mais cheios do que o normal. Tinha barulho de risadas, passos apressados, cartazes colados nas paredes sobre festivais, debates e grupos de teatro. Eu tentava equilibrar o copo de café na mão enquanto lia o e-mail da professora no celular, desviando de alunos distraídos, quando esbarrei em alguém. — Ai, desculpa! — falei automático. — Relaxa... Ellie? Levantei o olhar. Kayle. Ela estava com uma camisa branca social amarrada na cintura, jeans escuro e o cabelo preso em um coque bagunçado. Estava bonita, como sempre, mas diferente... mais tranquila. — Oi. — respondi. Ela me olhou por um segundo, como se tentasse avaliar meu humor antes de falar. — Você tem um minuto? — Claro. Nos afastamos do fluxo de alunos e fomos até um banco no corredor lateral. Ela sentou de pernas cruzadas e me olhou, mas sem arrogância — só curiosidade. — Eu fiquei sabendo de umas coisas... — começou, devagar. — Jace brigou com o Theo. Você sabe disso? — Imagino. Ele foi atrás dele no domingo. — Ele voltou diferente. — ela disse. — Não falou comigo, mas... o olhar dele tava cheio de coisa não dita, sabe? Fiquei em silêncio. Era exatamente isso que ele deixou comigo também: silêncio e mil coisas não ditas. — Você... tá com o Theo? — ela perguntou, delicadamente. Não tinha deboche, nem segunda intenção. Era só uma pergunta de alguém que sabia como o mundo real funcionava. — Não sei. Não oficialmente. A gente se beijou. A gente se provoca. Mas... eu não tô com ninguém. — E com o Jace? Suspirei. — É confuso. Com o Theo, tudo é mais fácil. Ele é claro, direto, divertido. Me dá segurança. Mas com o Jace... — pausei, tentando encontrar a palavra certa — tudo é mais intenso. É como se eu me perdesse e me encontrasse ao mesmo tempo. Ele me tira do chão, mas também me faz querer entender tudo que existe dentro de mim. Kayle assentiu devagar. — Eu entendo. Eu já estive nos dois papéis. E vou te dizer uma coisa, Ellie: não tem problema estar apaixonada pelos dois. O que importa é entender o que você quer, e quem te aproxima mais de quem você realmente é. Porque no fim, o que você escolher vai magoar alguém. Só... escolhe por você. — Eu não queria magoar nenhum dos dois. — Vai acontecer. — ela respondeu, sem crueldade. — Mas isso não faz de você uma vilã. Só uma garota tentando amar da melhor forma que consegue. Fiquei em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras. — Posso te perguntar uma coisa meio pessoal? — Pode. Ela hesitou, mas riu de leve. — Você transou com os dois? Arregalei os olhos, rindo nervosa. — Não! Com o Theo a gente só teve... uns momentos bem quentes. Tipo, muito quentes mesmo. Mas não aconteceu. Com o Jace... aconteceu. — Ah. — Kayle mordeu o lábio, mas assentiu. — Isso explica um pouco da intensidade, né? —Totalmente. — sussurrei, quase sem querer sorrir. Por alguns segundos, ficamos só ali, observando o movimento do corredor. E foi estranho, mas confortável. — Sabe... — Kayle disse, se levantando. — Se você precisar conversar de novo, ou só quiser fugir das suas próprias escolhas por uns minutos... me chama. A gente tem mais em comum do que parece. — Obrigada, Kayle. Ela sorriu. Um sorriso real. — Até mais, ruiva. Fiquei ali por mais alguns instantes, sentindo a cabeça girar, mas pela primeira vez... sem culpa. Talvez o que eu precisasse naquele momento não fosse uma resposta definitiva. Talvez eu só precisasse respirar.
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