O campus estava menos barulhento naquela tarde. As folhas das árvores balançavam devagar, o céu meio nublado fazia tudo parecer mais introspectivo. Era o cenário perfeito para a conversa que eu sabia que precisava ter.
Encontrei o Theo perto da biblioteca, sentado nos degraus com o notebook no colo. Quando me viu, ele fechou o computador imediatamente.
— Ei. — ele sorriu. Aquele sorriso fácil que me confundia.
— Oi.
Sentei ao lado dele, mas com uma certa distância.
— Sobre o que aconteceu... — comecei. — Eu só queria dizer que sinto muito se te deixei confuso.
— Você não deixou. — ele disse. — Eu entendi. Na verdade, eu meio que já sabia.
Suspirei.
— Eu tô... muito confusa, Theo. E não seria justo continuar me aproximando de você com tudo isso na cabeça.
Ele assentiu devagar.
— Mas você gosta dele.
— Eu gosto de você também. E é isso que me deixa ainda mais perdida.
Theo ficou em silêncio por alguns segundos, depois deu um leve sorriso — não de felicidade, mas de aceitação.
— Tá tudo bem, Ellie. Você não precisa escolher agora. Mas obrigada por não me iludir.
— Você é incrível, Theo. Só queria que as coisas fossem mais simples.
— Elas nunca são. Mas às vezes, a gente só precisa dar tempo.
Nos despedimos com um abraço demorado. E dessa vez, sem tensão — só carinho.
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Mais tarde, no pátio, sentei com a Cassie enquanto a gente tomava um smoothie meio aguado da lanchonete da facul.
— Eu tô pensando em procurar um trabalho. — comentei do nada.
— Como assim? Trabalho mesmo?
— É. Eu não quero mais depender tanto dos meus pais. Eles já fazem tanto por mim... e, sei lá, acho que tá na hora de começar a andar com minhas próprias pernas.
— Isso é super válido. E tem a ver com o teu curso, né? Comunicação é cheio de oportunidade. Agência júnior, monitoria, redes sociais da própria faculdade...
— Pois é. Vou me cadastrar naquele sistema da universidade, ver se aparece algo.
— Vamos fazer isso agora! — ela puxou o notebook da mochila. — A gente cria seu perfil juntas.
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Duas horas depois, meu e-mail já tinha recebido cinco notificações de vagas:
• Redatora para o blog da universidade
• Estagiária em marketing de conteúdo para uma ONG local
• Monitoria para a disciplina de Teoria da Comunicação I
• Social media para o diretório acadêmico
• Assistente de eventos culturais do campus
Meus olhos brilharam.
— Caramba... isso aconteceu rápido.
— Tá vendo? — Cassie sorriu. — A Ellie trabalhadora nasceu!
Cliquei na vaga da ONG. Era uma proposta simples, mas com um propósito bonito. Comunicação autêntica, causas sociais, trabalho com impacto.
Talvez fosse por aí o meu caminho.
Ainda não sabia o que fazer com os meus sentimentos.
Mas, pelo menos, eu começava a descobrir o que fazer com o meu futuro.