O céu tingido de tons laranja e rosa parecia refletir bem o estado da minha cabeça: bonito, confuso e prestes a escurecer. O campus ia se acalmando, mas minha mente não. O barulho da fonte perto da biblioteca misturava-se com os passos apressados dos estudantes voltando pros alojamentos. E eu ali, sozinha no banco, com um café já frio na mão.
Respirei fundo antes de voltar pro dormitório. Me joguei na cama com o notebook no colo e os fones pendurados no pescoço. Entre uma notificação e outra, abri o e-mail e comecei a digitar para a pessoa que sempre sabia me ouvir: minha mãe.
Oi, mãe!
Apareceu uma vaga de estágio hoje num site da faculdade. É pra trabalhar numa ONG de comunicação voltada pra projetos sociais e educação. Achei muito a minha cara, sabe? Vou tentar. Não quero mais ficar dependendo de vocês pra tudo. Acho que tá na hora de andar com minhas próprias pernas.
Aliás, o pai me mandou áudio falando que o Luca "aprontou de novo". Ele fez o quê dessa vez? Bateu o carro? Fugiu de casa? Comprou um porquinho de estimação? Me conta.
Te amo. Beijos.
Enviei e sorri, já ouvindo a risada mental da minha mãe. Ela ia amar saber que eu estava tentando me virar sozinha — e com certeza ia me mandar um textão, mais tarde, me chamando de "minha guerreira da comunicação".
⸻
O despertador me deu um t**a emocional às 6h50. Sentei na cama de olhos ainda grudados e encarei o espelho do quarto coletivo: cabelo rebelde, olheiras levemente dramáticas, expressão de "ainda sou estudante, não adulta".
No café da manhã do refeitório, Cassie se juntou a mim com um pão com queijo e uma vitamina de cor suspeita.
— Tá me devendo fofoca. — ela disse, já mastigando. — O que rolou com o Theo? E o Jace sumiu, né?
— Depois te conto. Tô processando tudo. Mas... tô pensando em procurar um trabalho.
— Uau. E esse surto repentino de responsabilidade?
— Não é surto. Só... acho que tá na hora. Quero fazer algo que tenha a ver com meu curso, com o que eu quero de verdade. E não quero mais depender dos meus pais.
— Orgulho. — ela disse com a boca cheia. — Vai fazer o quê?
— Já me cadastrei no sistema da universidade ontem. Hoje vou ver se recebi alguma notificação.
⸻
A aula de "Comunicação e Sociedade" começou às 8h10 em ponto, e o professor estava especialmente empolgado.
— Pessoal, hoje vamos discutir os mecanismos pelos quais o discurso se torna um instrumento de poder. Foucault, Barthes, Chomsky... tudo no mesmo caldeirão filosófico.
Cassie revirou os olhos.
— Parece até feitiçaria.
— Talvez seja. — murmurei, anotando rápido.
Fui chamada pra responder sobre o conceito de "discurso hegemônico" e, por sorte, minha leitura da noite anterior salvou minha dignidade. O professor até sorriu satisfeito.
— Excelente, Ellie. Muito bem articulado.
Talvez eu não soubesse lidar com a minha vida amorosa, mas pelo menos sabia articular Foucault às 8 da manhã.
⸻
Após a aula, voltamos pro dormitório. Cassie foi direto pro t****k, enquanto eu abri meu notebook e entrei na plataforma de estágios da universidade. Havia cinco novas oportunidades:
• Redatora para o blog acadêmico da faculdade
• Estágio de conteúdo em uma startup de educação digital
• Monitoria de Teoria da Comunicação I
• Gestão de redes sociais do centro acadêmico
• Assistente de comunicação em uma ONG chamada Instituto Horizonte
Cliquei nessa última. O nome tinha algo de poético. A descrição também:
"Procuramos estudante de Comunicação Social para auxiliar em projetos de inclusão digital, eventos culturais e campanhas educativas voltadas para escolas públicas e comunidades carentes."
Suspirei. Aquilo me chamou.
Preenchi o formulário, anexei meu currículo e uma pequena carta de apresentação. Ao enviar, um aviso apareceu:
"Sua candidatura foi registrada. Em breve entraremos em contato."
⸻
O e-mail chegou mais rápido do que eu esperava. No fim da tarde, recebi uma mensagem da coordenadora da ONG, Nina Rocha, me convidando para uma conversa informal no dia seguinte às 15h.
Meu coração deu um pulo.
Abri o armário e comecei a montar o look mentalmente: confortável, profissional, com um toque de "sou criativa e posso salvar o mundo com minhas palavras".
Mais tarde, sozinha no quarto, montei minha pastinha com cópia do currículo, uns rascunhos de projetos que eu tinha feito e anotações com ideias de campanhas.
Antes de dormir, vi a resposta da minha mãe:
Filha, que orgulho de você! Claro que tem que correr atrás dos teus sonhos. A gente vai estar sempre aqui, mas fico feliz em ver tua coragem. Sobre o Luca... ele levou o carro do pai escondido pra ir num show sertanejo e atolou numa estrada de barro! Quase matou o pai do coração. E ainda postou nos stories. Adolescente faz a gente ter que meditar cinco vezes por dia. Boa sorte amanhã! Te amo.
Ri baixinho, deitada sob a luz fraca do abajur. Me sentia... mais leve. Como se estivesse no caminho certo.
⸻
O dia seguinte chegou com céu limpo e uma brisa gostosa. Me arrumei com calma: calça jeans escura, camisa branca larguinha, tênis bege, coque alto e colar do sol.
Cheguei à sede do Instituto Horizonte às 14h55. Um sobrado simpático, com paredes claras e janelas grandes. Na entrada, uma pequena placa de madeira:
"Comunicação que transforma."
Fui recebida pela Nina, que me conduziu por um pequeno corredor com quadros e fotos nas paredes.
— Aqui a gente respira propósito, Ellie. — ela disse, sorrindo. — Nosso trabalho é coletivo, criativo e sempre ligado ao impacto social. Gostei muito do que você escreveu na carta.
— Obrigada. Fiquei animada com tudo que li de vocês.
Ela me levou até uma sala de reuniões pequena, com uma estante cheia de livros e folders de projetos antigos. Enquanto ela pegava uns documentos, meu olhar caiu numa placa de homenagem na parede.
Era de madeira escura, com letras douradas:
"Projeto Raízes – Fundado com apoio de D. M. Maddox. 2006."
Franzi a testa. Maddox.