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777 Words
Comecei o estágio na ONG no dia seguinte à entrevista. Foi tudo muito rápido, mas eu preferia assim — sem tempo pra pensar demais, me sabotar ou desistir. Saí da aula às 14h e caminhei até a sede do Instituto Horizonte com a minha pasta, caderno de anotações e uma mistura de ansiedade e vontade de provar que eu merecia estar ali. Fui recebida por Guilherme, um dos estagiários mais antigos. Ele tinha uns vinte e poucos anos, barba rala e óculos redondos. Usava uma camiseta com estampa de frase militante e um tênis que já devia ter rodado o mundo. — Você é a nova estagiária da comunicação, né? Ellie? — Isso! — sorri. — Legal. Vem, vou te mostrar como as coisas funcionam por aqui. Mas já adianto uma coisa: aqui, tudo muda o tempo todo. Então se você curte rotina fixa... talvez tenha caído no lugar errado. — Gosto de caos criativo. — respondi, e ele riu. Ele me mostrou as salas — cada uma com nomes de árvores — e os espaços de criação. Tinham quadros brancos por toda parte, fotos de eventos, rascunhos de campanha presos com ímãs, e até colagens feitas por crianças em alguma oficina passada. — A gente se divide em núcleos por projeto. Você vai entrar primeiro no núcleo da campanha "Escola Viva", que fala sobre valorização do professor e educação inclusiva. Já temos briefing, só precisamos começar a montar o conteúdo. — Perfeito. Posso ver os materiais hoje ainda? — Hoje é mais pra ambientação. Mas amanhã já te jogo no fogo. Rimos. E apesar do tom descontraído, eu sentia o peso do que aquele lugar representava. Não era só um estágio. Era um passo no mundo real. Um lugar onde a comunicação realmente mudava vidas. Quando ele saiu pra uma reunião, fiquei sozinha na sala de criação. Abri uma gaveta procurando canetas e encontrei uma pasta com documentos antigos da ONG. Uma folha se soltou e caiu no chão. Peguei o papel. Era uma ata antiga de planejamento, com assinaturas no final. Uma delas me prendeu o olhar: Daniel M. Maddox Senti o estômago revirar. Era o mesmo sobrenome que tinha visto na placa do dia anterior. Maddox. Aquilo não podia ser coincidência. Mas antes que minha mente criasse teorias, Guilherme voltou e me chamou pra conhecer o espaço da horta urbana que eles mantinham com escolas do bairro. Guardei o papel na gaveta de novo e deixei aquilo para depois. ⸻ Na manhã seguinte, levantei mais cedo do que precisava. Coloquei uma roupa simples — jeans, camiseta branca, jaqueta jeans amarrada na cintura — e prendi o cabelo num r**o de cavalo alto. Estava exausta, mas animada. Meu segundo dia de ONG seria pra valer, mas antes... café. Fui até o refeitório da faculdade. O lugar estava cheio, como sempre no começo da manhã. Peguei uma bandeja com suco de laranja, um pão com ovo e uma maçã que parecia ter vindo de uma luta. Sentei perto da janela, abrindo meu caderno pra revisar o planejamento do projeto da ONG. Só queria um pouco de paz antes de mergulhar na rotina corrida. Mas aí, vi ele. Jace. Do outro lado do refeitório, com dois amigos da engenharia. Estavam rindo de algo, provavelmente i****a, e Jace parecia... bem. Bem demais. Usava uma camiseta preta colada no corpo, cabelo bagunçado de propósito, expressão descontraída. Só que os olhos... quando cruzaram com os meus por uma fração de segundo... endureceram. Foi rápido. Um olhar. Um corte no ar. Ele desviou primeiro. Engoli em seco e voltei pro meu caderno como se nada tivesse acontecido. Mas por dentro, tudo parecia ter sido chacoalhado de novo. Cassie apareceu alguns minutos depois e largou a bandeja na minha frente. — Tá parecendo que viu um fantasma. Ou um ex m*l resolvido. — Um quase tudo isso. — murmurei. — Ele tava aqui, né? Assenti. — Ele nem veio falar contigo? — Nem parece que um dia existiu alguma coisa entre a gente. Cassie mordeu o pão, pensativa. — Talvez ele só esteja tentando não sentir. E você... tá conseguindo? Fechei o caderno devagar. — Tô tentando. E por enquanto, esse estágio é tudo que eu consigo controlar. Cassie sorriu e levantou a maçã, como um brinde. — Então que venha o caos bem pago. Rimos. Mas lá dentro, a parte de mim que tinha ficado pendurada nele... ainda doía. E por mais que eu tivesse dado um passo novo, parecia que o universo ainda me colocava no mesmo campo gravitacional dele. E se aquela assinatura não fosse apenas uma coincidência? E se tudo estivesse mais conectado do que eu queria admitir?
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