35

649 Words
Fazia calor naquele fim de tarde. O tipo de calor abafado que grudava na pele e deixava a mente inquieta. Eu saí da sede da ONG com o crachá ainda pendurado na camisa, os cabelos presos de qualquer jeito e a mochila escorregando do ombro. Estava exausta. Mas estranhamente satisfeita. O dia tinha sido produtivo: rascunhei dois textos para a campanha "Escola Viva", tive uma reunião com Nina e aprendi a usar o sistema interno de agendamento de postagens (que, diga-se de passagem, travava mais que minha autoestima). Decidi passar na lanchonete da faculdade antes de ir pro dormitório. Pedi um café gelado e esperei sentada numa mesa afastada, mexendo no celular, respondendo o grupo da ONG e sorrindo sozinha por finalmente estar ocupando um espaço que parecia meu. Até que senti. Antes de ver, eu senti. O ar mudando. O peso familiar pairando perto demais. Levantei os olhos e ali estava ele. Jace. Parado na fila, com fones no pescoço, mãos nos bolsos e o rosto com aquela expressão neutra que ele usava quando queria fingir que não sentia nada. Mas eu sabia. Ele só não queria mostrar. Quando ele pegou o pedido e se virou pra sair, me viu. E por um instante, hesitou. Como se estivesse decidindo entre ignorar ou encarar. Ele escolheu encarar. Eu levantei a mão num aceno discreto. Ele veio até minha mesa. — Oi. — disse ele, baixo. — Oi. Silêncio. Ele puxou a cadeira e sentou. Não pedi, mas também não neguei. — Faz tempo, né? — murmurei. — Uns dias. — respondeu. — Mas parece uma eternidade. Havia mágoa no tom dele, mesmo que ele tentasse disfarçar com indiferença. — Tô trabalhando agora. — falei, tentando preencher o espaço entre nós. Ele levantou uma sobrancelha. — Já? Em quê? — Uma ONG. Instituto Horizonte. Eles trabalham com comunicação social, campanhas educativas, essas coisas. É incrível, Jace. Sério. Você ia curtir... Ele mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. — Horizonte, né? — Uhum. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, depois soltou: — Não gosto de quem fundou. Aquilo me pegou de surpresa. — Por quê? Ele balançou a cabeça, sem me olhar nos olhos. — É complicado. Só... não é um lugar que eu gostaria de me envolver. — Mas você nem conhece os projetos... — Conheço mais do que você imagina. Eu franzi a testa. — Você tá agindo como se tivesse algo pessoal com isso. — Talvez tenha. — ele respondeu seco. A forma como ele disse aquilo me arrepiou. Não pela frieza — isso eu já esperava — mas pelo peso escondido atrás da resposta. — Jace... — comecei, mais suave — Se tem algo que eu precise saber, me conta. Eu tô entrando nisso com o coração aberto. É importante pra mim. Ele me olhou, finalmente. Mas o olhar dele não tinha mais o calor de antes. Tinha dor. Resquício de raiva. E cansaço. — Então entra com o coração aberto. Mas não espera que eu vá segurar sua mão no caminho. Aquilo doeu. — Eu nunca pedi isso. — Não em palavras. Mas você sempre esperou que eu voltasse. Que eu explicasse. Que eu... fosse diferente. Engoli em seco. — E talvez eu esperasse mesmo. Ele respirou fundo, se levantando. — Só... boa sorte com esse estágio. — Jace, espera... você tá mesmo bem? — Tô como sempre estive. Só que agora... sem esperança. E então ele se virou e saiu. Não gritou. Não bateu na mesa. Não implorou pra eu ficar. Ele só... desistiu ali. E foi pior do que qualquer explosão. Fiquei parada, com o café gelado esquentando na minha mão. E a cabeça borbulhando. Maddox. Instituto Horizonte. Ele conhece mais do que eu imagino. Mas o que ele estava tentando esconder? E por que... mesmo com tudo isso, meu coração ainda batia mais forte só de ouvir a voz dele?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD