Fazia calor naquele fim de tarde. O tipo de calor abafado que grudava na pele e deixava a mente inquieta. Eu saí da sede da ONG com o crachá ainda pendurado na camisa, os cabelos presos de qualquer jeito e a mochila escorregando do ombro.
Estava exausta. Mas estranhamente satisfeita. O dia tinha sido produtivo: rascunhei dois textos para a campanha "Escola Viva", tive uma reunião com Nina e aprendi a usar o sistema interno de agendamento de postagens (que, diga-se de passagem, travava mais que minha autoestima).
Decidi passar na lanchonete da faculdade antes de ir pro dormitório. Pedi um café gelado e esperei sentada numa mesa afastada, mexendo no celular, respondendo o grupo da ONG e sorrindo sozinha por finalmente estar ocupando um espaço que parecia meu.
Até que senti.
Antes de ver, eu senti.
O ar mudando. O peso familiar pairando perto demais.
Levantei os olhos e ali estava ele. Jace.
Parado na fila, com fones no pescoço, mãos nos bolsos e o rosto com aquela expressão neutra que ele usava quando queria fingir que não sentia nada. Mas eu sabia. Ele só não queria mostrar.
Quando ele pegou o pedido e se virou pra sair, me viu. E por um instante, hesitou. Como se estivesse decidindo entre ignorar ou encarar. Ele escolheu encarar.
Eu levantei a mão num aceno discreto. Ele veio até minha mesa.
— Oi. — disse ele, baixo.
— Oi.
Silêncio.
Ele puxou a cadeira e sentou. Não pedi, mas também não neguei.
— Faz tempo, né? — murmurei.
— Uns dias. — respondeu. — Mas parece uma eternidade.
Havia mágoa no tom dele, mesmo que ele tentasse disfarçar com indiferença.
— Tô trabalhando agora. — falei, tentando preencher o espaço entre nós.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Já? Em quê?
— Uma ONG. Instituto Horizonte. Eles trabalham com comunicação social, campanhas educativas, essas coisas. É incrível, Jace. Sério. Você ia curtir...
Ele mordeu o lábio inferior e desviou o olhar.
— Horizonte, né?
— Uhum.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, depois soltou:
— Não gosto de quem fundou.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Por quê?
Ele balançou a cabeça, sem me olhar nos olhos.
— É complicado. Só... não é um lugar que eu gostaria de me envolver.
— Mas você nem conhece os projetos...
— Conheço mais do que você imagina.
Eu franzi a testa.
— Você tá agindo como se tivesse algo pessoal com isso.
— Talvez tenha. — ele respondeu seco.
A forma como ele disse aquilo me arrepiou. Não pela frieza — isso eu já esperava — mas pelo peso escondido atrás da resposta.
— Jace... — comecei, mais suave — Se tem algo que eu precise saber, me conta. Eu tô entrando nisso com o coração aberto. É importante pra mim.
Ele me olhou, finalmente. Mas o olhar dele não tinha mais o calor de antes. Tinha dor. Resquício de raiva. E cansaço.
— Então entra com o coração aberto. Mas não espera que eu vá segurar sua mão no caminho.
Aquilo doeu.
— Eu nunca pedi isso.
— Não em palavras. Mas você sempre esperou que eu voltasse. Que eu explicasse. Que eu... fosse diferente.
Engoli em seco.
— E talvez eu esperasse mesmo.
Ele respirou fundo, se levantando.
— Só... boa sorte com esse estágio.
— Jace, espera... você tá mesmo bem?
— Tô como sempre estive. Só que agora... sem esperança.
E então ele se virou e saiu.
Não gritou. Não bateu na mesa. Não implorou pra eu ficar.
Ele só... desistiu ali.
E foi pior do que qualquer explosão.
Fiquei parada, com o café gelado esquentando na minha mão. E a cabeça borbulhando.
Maddox.
Instituto Horizonte.
Ele conhece mais do que eu imagino.
Mas o que ele estava tentando esconder?
E por que... mesmo com tudo isso, meu coração ainda batia mais forte só de ouvir a voz dele?