A rotina começou a ganhar um ritmo que eu quase podia chamar de estável. As manhãs pertenciam à faculdade, os fins de tarde à ONG e, no meio disso tudo, eu tentava manter a cabeça funcionando — o que já era um grande feito.
Na quarta-feira, enquanto esperava meu café na lanchonete da faculdade, Theo apareceu do meu lado, como se nada tivesse acontecido.
— Achei que ia ter que agendar um horário com você agora. — disse ele, com aquele meio sorriso leve.
— Se for pra tomar café, acho que consigo te encaixar. — respondi, sorrindo de volta.
Nos sentamos na parte externa, debaixo da sombra de uma árvore que já começava a perder as folhas. Ele falava sobre um projeto de engenharia ambiental que estava desenvolvendo, e eu ouvia com atenção real. A gente não tocou no que houve entre nós, nem nas conversas m*l resolvidas. Era como se a gente tivesse combinado silenciosamente de não olhar pro passado — pelo menos por enquanto.
— E você, como tá indo na ONG? — ele perguntou, abrindo a tampa do café.
— Bem. Cada dia é diferente. Ontem, entrevistei uma professora de escola pública pra uma campanha nova. Chorei no final da conversa, acredita?
— Acredito. Você sempre sente tudo mais do que deveria. Isso não é r**m. É o que te faz... você.
Eu só sorri. Ele me conhecia bem demais. Mas dessa vez, aquele carinho não me confundia. Era só conforto.
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Na sala de aula, Cassie chegou com um sorriso no rosto e uma mensagem piscando no celular.
— Quem é o felizardo? — perguntei, já sabendo a resposta.
— O Rafael. Da turma de Ciências Políticas. — ela respondeu, quase cantando. — A gente se viu duas vezes, mas parece que eu conheço ele há séculos. Ele é gentil, Ellie. Tipo... de verdade.
— Você merece alguém assim.
— E você? Vai me contar que conversou com o Theo como se nada tivesse acontecido?
— Amadurecer é isso, né? Engolir um beijo m*l posicionado e fingir que a vida é uma comédia romântica m*l escrita.
Ela riu alto.
— Ok, você continua dramática. Mas sábia.
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No almoço, encontrei Kayle perto do diretório acadêmico. Ela usava uma camisa xadrez aberta por cima de uma blusa preta e estava sentada na grama, comendo um pote de salada improvisado.
— Quer companhia? — perguntei.
— Sempre.
Sentei ao lado dela e começamos a falar sobre aulas, professores esquisitos e o trabalho que ela estava fazendo num grupo de teatro experimental da faculdade. Era engraçado como, em tão pouco tempo, a gente tinha saído da rivalidade silenciosa para uma convivência leve.
— Sabe o que eu acho? — ela disse, olhando pro céu. — Que a gente às vezes força umas coisas com as pessoas erradas e ignora conexões naturais com quem tá ali o tempo todo.
— Tipo você e eu?
— Tipo você e eu.
Sorri. Aquilo era bom.
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No fim de semana, voltei pra casa. Minha mãe me esperava com bolo de cenoura e um milhão de perguntas. Meu pai fingia que não queria saber de nada, mas aparecia de cinco em cinco minutos na cozinha só pra "pegar água".
Depois do jantar, sentei no sofá com minha mãe.
— O trabalho tá sendo bom pra você, né?
— Muito. Me sinto parte de algo. E isso faz toda a diferença.
— E o coração?
— Em obras. — respondi. — Mas tô aprendendo a gostar da reforma.
Ela me puxou pra perto e beijou minha testa.
— Só não esquece que coração também precisa de descanso.
No quarto, mais tarde, peguei meu celular. Tinha uma mensagem do Theo, outra da Kayle e uma de Cassie mandando foto com o tal Rafael.
Sorri sozinha. A vida tava longe de ser simples. Mas, por agora, ela tava me ensinando que nem toda intensidade vem do caos.
Às vezes, vem da calma que a gente aprende a aceitar.