A segunda-feira começou com sol fraco e cheiro de café no corredor do alojamento. Levantei antes do despertador, coisa rara, e fiquei uns minutos sentada na cama, só ouvindo o som das pessoas começando o dia.
Me vesti com pressa: jeans escuro, blusa branca, jaqueta jeans velha que sempre me salvava. Prendi o cabelo num coque meio solto e saí com o caderno na mão.
As aulas passaram rápido, mas a cabeça estava longe. Entre anotações sobre teorias da comunicação e debates sobre discurso de poder, eu me pegava pensando no texto que queria terminar pra ONG. Era sobre memória afetiva e o papel da escola na construção de identidade. Era quase pessoal demais — e talvez por isso estivesse demorando a sair.
No intervalo, encontrei Kayle encostada no corrimão do pátio, lendo um roteiro impresso.
— Cena nova? — perguntei, sentando ao lado dela.
— É. Eu vou interpretar uma professora cansada que surta no meio de uma reunião pedagógica. Acho que vou tirar inspiração da minha mãe.
— Já quero assistir.
Ela sorriu, sem tirar os olhos do texto.
— E você? Como tá?
— Cansada. Mas estranhamente feliz.
— Isso é novo.
— Eu sei. Mas é verdade.
Ela fechou o roteiro e se virou pra mim.
— Sabe, Ellie... eu nunca te pedi desculpas por como eu te olhava antes. Como se você fosse uma ameaça.
— E eu nunca pedi desculpa por te julgar sem tentar te entender.
— Acho que agora estamos quites.
— Com certeza.
Ficamos ali por mais alguns minutos, observando o movimento das pessoas, o som dos passarinhos entre as árvores e o barulho das folhas secas sendo pisadas.
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No almoço, Cassie chegou esbaforida na mesa do refeitório, com os cabelos mais bagunçados que o normal e o sorriso ainda maior.
— Ele me pediu em namoro.
— O Rafael?
— O próprio. Do nada. No corredor. Com um girassol na mão e um bilhete escrito à mão. Ellie, eu tô num filme de sessão da tarde.
— Isso é lindo demais. Você disse sim, né?
— Claro. Mas fiz ele repetir porque queria ouvir de novo.
Rimos, e eu abracei ela com força.
— Tô feliz por você, de verdade.
— E você? Alguma novidade?
— Só estou me acostumando a estar bem. Pela primeira vez em muito tempo.
Ela me olhou com um sorriso leve.
— Isso já é uma baita novidade.
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À tarde, fui pra sede da ONG. A Nina me recebeu com um sorriso apressado.
— Ellie, precisamos de um texto curto até amanhã pra acompanhar um post sobre inclusão nas escolas. Pode ser?
— Pode. Posso ficar aqui até o fim do expediente.
— Você é um anjo.
Fui pra sala de criação e me sentei à mesa ao lado da estante de livros. Peguei meu caderno e comecei a rascunhar frases, ideias soltas, trechos que depois poderia costurar.
No meio da escrita, levantei pra pegar um copo d'água e notei uma foto nova na parede do corredor: uma criança segurando um cartaz com a frase "Aprender transforma.". Ao lado, uma assinatura bordada no canto da imagem: Campanha original de D. Maddox.
Arrepiei.
De novo, o sobrenome.
De novo, a presença invisível que parecia rondar sem que eu entendesse por quê.
Voltei pra sala, tentando afastar aquilo da cabeça.
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À noite, de volta ao alojamento, recebi uma chamada de vídeo da minha mãe.
— Como tá meu orgulho da comunicação? — ela disse, sorrindo do outro lado da tela.
— Correndo contra prazos. E tentando não surtar.
— Normal. Teu irmão acabou de pintar o cabelo de roxo. ROXO. Disse que agora vai virar artista performático.
— Ele é o nosso caos favorito.
— E você? Não tá precisando de nada?
— Só do teu bolo de milho.
Ela riu e prometeu me mandar no próximo fim de semana.
Depois que desligamos, fiquei olhando pro teto, ouvindo música no fone e pensando em tudo que tava se encaixando aos poucos.
Não era perfeito.
Mas era suficiente.
E pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia em casa. Mesmo longe dela.