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688 Words
A segunda-feira começou com sol fraco e cheiro de café no corredor do alojamento. Levantei antes do despertador, coisa rara, e fiquei uns minutos sentada na cama, só ouvindo o som das pessoas começando o dia. Me vesti com pressa: jeans escuro, blusa branca, jaqueta jeans velha que sempre me salvava. Prendi o cabelo num coque meio solto e saí com o caderno na mão. As aulas passaram rápido, mas a cabeça estava longe. Entre anotações sobre teorias da comunicação e debates sobre discurso de poder, eu me pegava pensando no texto que queria terminar pra ONG. Era sobre memória afetiva e o papel da escola na construção de identidade. Era quase pessoal demais — e talvez por isso estivesse demorando a sair. No intervalo, encontrei Kayle encostada no corrimão do pátio, lendo um roteiro impresso. — Cena nova? — perguntei, sentando ao lado dela. — É. Eu vou interpretar uma professora cansada que surta no meio de uma reunião pedagógica. Acho que vou tirar inspiração da minha mãe. — Já quero assistir. Ela sorriu, sem tirar os olhos do texto. — E você? Como tá? — Cansada. Mas estranhamente feliz. — Isso é novo. — Eu sei. Mas é verdade. Ela fechou o roteiro e se virou pra mim. — Sabe, Ellie... eu nunca te pedi desculpas por como eu te olhava antes. Como se você fosse uma ameaça. — E eu nunca pedi desculpa por te julgar sem tentar te entender. — Acho que agora estamos quites. — Com certeza. Ficamos ali por mais alguns minutos, observando o movimento das pessoas, o som dos passarinhos entre as árvores e o barulho das folhas secas sendo pisadas. ⸻ No almoço, Cassie chegou esbaforida na mesa do refeitório, com os cabelos mais bagunçados que o normal e o sorriso ainda maior. — Ele me pediu em namoro. — O Rafael? — O próprio. Do nada. No corredor. Com um girassol na mão e um bilhete escrito à mão. Ellie, eu tô num filme de sessão da tarde. — Isso é lindo demais. Você disse sim, né? — Claro. Mas fiz ele repetir porque queria ouvir de novo. Rimos, e eu abracei ela com força. — Tô feliz por você, de verdade. — E você? Alguma novidade? — Só estou me acostumando a estar bem. Pela primeira vez em muito tempo. Ela me olhou com um sorriso leve. — Isso já é uma baita novidade. ⸻ À tarde, fui pra sede da ONG. A Nina me recebeu com um sorriso apressado. — Ellie, precisamos de um texto curto até amanhã pra acompanhar um post sobre inclusão nas escolas. Pode ser? — Pode. Posso ficar aqui até o fim do expediente. — Você é um anjo. Fui pra sala de criação e me sentei à mesa ao lado da estante de livros. Peguei meu caderno e comecei a rascunhar frases, ideias soltas, trechos que depois poderia costurar. No meio da escrita, levantei pra pegar um copo d'água e notei uma foto nova na parede do corredor: uma criança segurando um cartaz com a frase "Aprender transforma.". Ao lado, uma assinatura bordada no canto da imagem: Campanha original de D. Maddox. Arrepiei. De novo, o sobrenome. De novo, a presença invisível que parecia rondar sem que eu entendesse por quê. Voltei pra sala, tentando afastar aquilo da cabeça. ⸻ À noite, de volta ao alojamento, recebi uma chamada de vídeo da minha mãe. — Como tá meu orgulho da comunicação? — ela disse, sorrindo do outro lado da tela. — Correndo contra prazos. E tentando não surtar. — Normal. Teu irmão acabou de pintar o cabelo de roxo. ROXO. Disse que agora vai virar artista performático. — Ele é o nosso caos favorito. — E você? Não tá precisando de nada? — Só do teu bolo de milho. Ela riu e prometeu me mandar no próximo fim de semana. Depois que desligamos, fiquei olhando pro teto, ouvindo música no fone e pensando em tudo que tava se encaixando aos poucos. Não era perfeito. Mas era suficiente. E pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia em casa. Mesmo longe dela.
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