A primeira coisa que percebi quando Ellie entrou na festa foi o cabelo solto caindo sobre os ombros, e a forma como ela andava, com a leveza de quem não tentava chamar atenção — mas chamava. Cada passo dela parecia desacelerar o ambiente, como se o resto do mundo perdesse o volume.
Ela ria com Cassie, copo na mão, e os olhos varrendo o lugar com atenção. Ellie era o tipo de pessoa que observava antes de mergulhar. E quando mergulhava, fazia tudo afundar com ela.
A minha primeira reação? Alívio. Ela tinha vindo. Mesmo depois da semana caótica, mesmo depois de eu ter feito tudo errado — de novo.
A segunda reação? Medo. Porque quando Ellie sorria daquele jeito, algo dentro de mim se mexia. Algo que eu sempre mantive trancado.
Encostado no batente da porta, com os ombros tensos e os olhos nela, percebi que já não sabia quem eu era antes dela chegar.
⸻
Quando ela dançou com Cassie no meio da sala, eu fiquei só olhando. Os braços soltos, o riso leve, os olhos fechados por um segundo enquanto girava devagar. Ela se deixava levar pela música de um jeito que parecia poesia. E ali, no meio de tanta gente que gritava, bebia e exagerava, Ellie era... silenciosamente intensa.
Me aproximei e a puxei pela cintura. Ela me recebeu com aquele sorriso de canto, como se já soubesse o efeito que tinha em mim.
— Posso? — perguntei.
— Acha que eu vou dizer não?
Tocá-la era como puxar o ar depois de minutos submerso. O corpo dela se encaixava no meu como se já estivesse ali antes, e os olhos me atravessavam com calma, mas sem piedade. Ellie não via o que eu mostrava. Ela via o que eu tentava esconder.
— Você é linda — murmurei. E era verdade. Mas não só isso. Ela era a bagunça mais bonita que já existiu na minha zona de guerra interna.
Ela sorriu, provocando:
— Você só diz isso pra me distrair.
— Tá funcionando?
Ela riu, e o som ficou preso no meu peito.
Mas aí veio a interrupção. Sempre vem.
— Maddox, vem cá um segundo?
Kayla.
A voz dela tinha aquele tom meloso que eu conhecia bem demais. Uma mistura de carência e manipulação. Vi o olhar de Ellie endurecer. m***a.
— Preciso resolver uma coisa. Volto já, tá?
Afastar de Ellie me custava mais do que eu imaginava. Mas se eu não fosse, Kayla faria escândalo — e não era a hora.
Ela me puxou para um canto da cozinha improvisada.
— Relaxa, não vou te beijar. Ainda que você esteja me olhando como se quisesse.
— Não tô, Kayla. Fala o que quer.
Ela revirou os olhos, depois cruzou os braços.
— Só queria te lembrar que a exposição de fotos da Harley vai abrir semana que vem. Metade das imagens são nossas. Eu tô nelas, Jace.
— E?
— E eu quero aprovação antes de ela exibir. Se vão me ver seminua com você, eu quero pelo menos ter controle de como.
Suspirei, impaciente.
— Você só me chamou pra isso?
— E pra ver de perto se a sua novinha é mesmo tudo isso. Ela parece meio... frágil demais pro seu gosto.
— Ela é tudo o que você não conseguiu ser pra mim. Real. Transparente. Sem jogos.
Ela deu um passo pra trás, o rosto mudando de expressão. Pela primeira vez, sem a máscara de superioridade.
— Você mudou, Jace.
— Porque ela me faz querer isso.
— Então cuidado pra não voltar a ser o mesmo quando ela descobrir quem você é de verdade.
— Ela já sabe mais do que todo mundo aqui.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois forçou um sorriso.
— Boa sorte. Você vai precisar.
Me afastei. E por instinto, fui atrás da única coisa que ainda me mantinha firme naquela festa: Ellie.
Encontrei ela na varanda, sozinha, encostada no parapeito, o cabelo balançando com a brisa da noite. Havia uma serenidade melancólica nela, como se estivesse tentando segurar a própria paz com as mãos.
— Me desculpa. Ela só queria falar de um projeto antigo.
— Tá tudo bem — ela disse, mas a voz dizia o contrário.
Me aproximei com cuidado, encostei o queixo no ombro dela e fechei os olhos por um instante. O perfume dela. A calma. A presença.
— Se não tivesse, você teria ido embora. E você ainda tá aqui.
Ela respondeu baixo:
— Ainda.
Virei ela de frente, os olhos dela encontrando os meus. Havia um universo inteiro ali dentro. Coisas que ela não dizia, mas sentia. Coisas que, de algum jeito, eu entendia.
— Você não tem ideia do quanto eu te admiro por isso. Por ficar mesmo quando tem mil motivos pra não.
— É porque você ainda me dá mais motivos pra ficar.
Então a beijei.
Lento. Verdadeiro. Sem pressa. Sem escudo.
Porque ela merecia isso. E porque, talvez, eu também.
⸻
Se ela soubesse o quanto isso tudo me assusta... o quanto é difícil carregar o peso de alguém acreditar em mim sem saber até onde eu sou capaz de ir quando estou quebrado.
Mas ela estava ali. Me olhando com esperança. Com fé.
E eu decidi, naquele instante, que faria tudo pra merecer isso.
Nem que fosse a luta mais difícil da minha vida.