A tarde passou mais leve do que eu esperava.
Theo e eu terminamos a parte teórica do projeto na biblioteca — ou tentamos, entre uma provocação e outra. Ele não parecia forçar nenhuma conexão. Não me olhava como quem queria conquistar ou descobrir demais. Só... estava ali. Presente. Observador. Leal sem esforço.
— Você percebe que é uma das poucas pessoas que conseguem me fazer rir mesmo falando de estrutura molecular? — eu disse, guardando os cadernos na mochila.
— A vida é triste. A química só acompanha o clima — ele respondeu com um sorrisinho.
Do outro lado da mesa, Cassie observava tudo. Ela fazia marcações num livro, mas eu sabia que ela estava registrando mais do que fórmulas. Quando Theo foi ao banheiro, ela se inclinou por cima da mesa.
— Eu gosto dele.
— Eu também. Como amigo.
— Sim, sim... por enquanto.
— Para, Cassie.
— Só tô dizendo... ele é fofo, inteligente e olha pra você como se estivesse vendo arte abstrata tentando entender se é caos ou gênio.
— Você passa tempo demais no Pinterest.
Ela riu, e Theo voltou logo depois, com duas barras de cereal e uma coca-cola.
— Acha que dá tempo de um episódio de The Office antes da próxima aula? — ele perguntou, casual.
Cassie arqueou uma sobrancelha, me olhando por cima do copo. Eu ignorei.
— Só se você parar de fazer pausas dramáticas quando fala das leis da termodinâmica.
— Mas as pausas são meu charme.
— Seu charme é que você parece uma mistura de espião disfarçado de aluno modelo.
— Você percebeu? — ele disse, fingindo surpresa. — Agora terei que eliminar você.
Cassie soltou uma gargalhada, e naquele instante, ali na mesa da biblioteca, em meio a livros, ironias e trocas de olhares despreocupadas, eu percebi uma coisa: havia um tipo diferente de conforto ali.
Com Jace, tudo era intensidade. Arder ou congelar.
Com Theo... era como entrar num quarto escuro e encontrar uma lâmpada suave acesa. Um tipo de calor silencioso.
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No fim da tarde, voltei pro alojamento sozinha. Jace tinha sumido desde o almoço. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada perdida. O que, vindo dele, podia significar qualquer coisa: treino na oficina, problemas com a irmã, um bloqueio emocional que ele não queria nomear.
Não me incomodava tanto quanto antes.
Talvez porque agora, eu não sentia mais que precisava ser inteira só quando ele estava por perto. Eu estava aprendendo a respirar sem ele.
Mas claro que meu coração ainda reagia. Ainda doía. Porque a verdade era simples: amar Jace significava, em parte, conviver com o silêncio dele.
E com o passado dele também.
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À noite, recebi uma notificação. Mensagem de Jace.
"Te pego às 21h. Tem algo que quero te mostrar."
Respondi com um simples: "Ok."
Às 21h05 ele estava lá, encostado na moto como se fosse extensão do próprio corpo. Jaqueta escura, cabelo bagunçado, olhar sério — mas com um brilho de expectativa.
— Tá pronta?
— Acho que sim. Mas quero saber pra onde antes de subir aí.
— Confia em mim.
Subi.
A cidade já estava silenciosa. Ele dirigiu por uns quinze minutos em silêncio, até sair da área urbana e pegar uma estradinha lateral. Pouco iluminada, rodeada de árvores.
Quando finalmente parou, era um estacionamento abandonado, ao lado de uma estrutura metálica cercada por tapumes velhos. Desci da moto com cuidado.
— Onde estamos?
— Meu lugar favorito — ele respondeu, andando até a estrutura e empurrando um pedaço do tapume de madeira.
Lá dentro, era um velho galpão abandonado. Piso de cimento rachado, paredes grafitadas, e no meio... uma rampa de skate m*l acabada, pneus empilhados e um saco de pancadas pendurado no teto.
— Isso é um... lugar de treino?
— É onde eu vim me esconder por anos — ele disse, olhando em volta. — Quando tudo dava errado. Quando eu me sentia prestes a quebrar alguém — ou a mim mesmo.
Me aproximei devagar.
— E por que me trouxe aqui?
Ele me encarou. Sério. Mas vulnerável.
— Porque ninguém além da minha irmã conhece esse lugar. Porque quero que você entenda que, por mais que eu tenha partes quebradas, eu tô tentando construir alguma coisa com elas.
— E o que você quer construir?
— Um lugar onde, mesmo bagunçado, ainda posso ser... eu. Sem medo.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Hoje, no laboratório... — falei, hesitando — o Theo me disse que a gente funciona como uma reação instável. Que às vezes dá certo. Às vezes explode o laboratório.
— Ele tem razão.
— Mas mesmo assim... eu continuo escolhendo ficar.
Ele se aproximou, os olhos escuros como o céu lá fora.
— Eu não sou o cara fácil, Ellie. E às vezes, eu fico com medo de que você mereça mais do que eu posso dar.
— E às vezes, eu só quero alguém que não queira nada além de estar comigo. Sem me pedir pra ser mais, ou menos. Só eu.
Ele sorriu, puxando uma mecha do meu cabelo pra trás da orelha.
— Eu nunca pedi pra você ser nada além disso.
— Então para de sumir.
— Eu tô tentando.
— Então tenta mais forte.
Ele assentiu. E naquele galpão velho, com cheiro de madeira molhada, ferrugem e lembranças, ele me abraçou como quem não queria soltar.
E por mais que o mundo lá fora continuasse complicado, aqui dentro, com os braços dele ao meu redor e o coração acelerado, eu senti — talvez por um instante — que não era eu quem precisava ser forte o tempo todo.
Talvez, agora, ele também começasse a ser. Por mim. Por nós.