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862 Words
Eu não voltei pra casa com ele naquele dia. Depois da ligação com Kayla, depois da forma como ela riu no telefone, como se eu fosse só mais uma jogadora ingênua no jogo dela, eu soube que precisava de distância. Não por raiva — mas por mim. Por sanidade. — Eu preciso de um tempo pra respirar — disse a Jace, ainda sentindo o corpo tenso, como se minhas emoções estivessem estocadas atrás dos olhos, prontas pra explodir a qualquer movimento errado. Ele não discutiu. — Tá. Só... me avisa quando quiser que eu vá embora, e eu vou. — Eu não tô dizendo isso. — Eu sei. Mas você não tá me pedindo pra ficar, então eu vou respeitar o espaço. Nos olhamos por um instante a mais. E então eu saí. O dia estava nublado, e a cidade parecia combinar com meu humor. As nuvens não choravam, mas também não sorriam. Era o tipo de tempo que te faz pensar em tudo o que você adiou sentir. Voltei pro alojamento, enfiei o celular na mochila e joguei o casaco no encosto da cadeira. Fiquei parada no meio do quarto por um tempo, sentindo o peito apertado. A dor não gritava. Só... sussurrava. De leve. Mas o suficiente pra me roubar o fôlego. ⸻ Cassie apareceu meia hora depois com pipoca, refrigerante e a temporada nova de uma série que a gente sempre assistia quando queria fugir da vida. — Tô aqui com açúcar, drama e a solução temporária pra corações quebrados. Qual você escolhe primeiro? — Drama — respondi, puxando a almofada e me jogando no chão ao lado dela. Assistimos dois episódios. Eu ria de uma piada e, dois minutos depois, já não lembrava qual era. Meus pensamentos voltavam sempre pra mesma frase: eu sabia que ela ainda tentaria algo. E, pior: eu sabia que ele não tem controle sobre tudo — nem sobre todos. No terceiro episódio, meu celular vibrou. Theo: Vai querer revisar os experimentos amanhã cedo? Acho que a professora Lúcia vai testar a gente de surpresa. Sorri. Claro. Theo. O nerd com alma de poeta e olhos atentos demais. Eu: Quero. Às 8h no laboratório? Theo: Fechado. Café por minha conta. Preciso de açúcar pra sobreviver a soluções iônicas e ex-namoradas dramáticas. Suspirei. Ele sabia. Tinha visto o desconforto. E, como sempre, não invadia. Só aparecia. No tempo certo. ⸻ Na manhã seguinte, 07h58, Theo já estava encostado na porta do laboratório, com dois cafés e um pacote de cookies na mão. — Você é um anjo disfarçado de nerd — falei, pegando o copo. — E você tá com a cara de quem discutiu com um furacão. — Dormi m*l. — A culpa é da gravidade. Puxa tudo pra baixo. Principalmente a gente. — E ainda assim, você aparece com café. — Meu amor é prático — ele disse, e eu ri. Ficamos por ali, revisando conceitos, mexendo nos equipamentos, e trocando piadas sem pressão. O tipo de conexão que parecia leve o suficiente pra não doer, mas firme o bastante pra não ser esquecida. — Você já se sentiu... cansado de tentar explicar o que sente? — perguntei do nada, enquanto ele escrevia uma fórmula. Ele parou, a caneta no ar. — O tempo todo. Mas hoje, você quer falar? Assenti, depois neguei. Depois suspirei. — Eu só... tô cansada de amar alguém que luta contra ele mesmo. Às vezes parece que ele tá mais em guerra com o passado do que disponível pro presente. Theo olhou nos meus olhos. — E mesmo assim, você escolhe ficar. — Porque, por algum motivo, ele é o único lugar que me parece real. Mesmo quando tudo quebra. — Só não esquece que você também precisa ser cuidada. E que, às vezes, o real também esgota. Fiquei quieta por alguns segundos. — Obrigada. — Não fiz nada. — Fez. Escutou. ⸻ Mais tarde, na aula de psicologia, sentei sozinha no fundo. Jace não apareceu. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal. Não que eu esperasse. Mas, ainda assim, a ausência dele se sentia do mesmo jeito que a presença costumava preencher. No fim da aula, quando saí pela porta lateral, dei de cara com Kayla no corredor. — Oi, docinha — ela disse, encostada na parede, com a mochila pendurada num ombro só. Não respondi. Só continuei andando. — Ele nunca vai ser só seu, sabe? Parei. Virei devagar. — E você vai passar quanto tempo tentando provar isso pra mim? — O tempo que for preciso pra te mostrar que algumas pessoas não mudam. Elas só se distraem por um tempo. — Então talvez você seja a distração que ele superou. E eu, o motivo pelo qual ele tenta ser diferente. Ela riu. Mas havia algo forçado no riso. — Ele ainda vai te machucar, Ellie. — Talvez. Mas você? Já não pode mais. Virei as costas e fui embora, sem dar a ela o gosto da última palavra. Porque às vezes, o melhor soco é o silêncio. E naquele momento, eu percebi que, mesmo sem saber onde Jace estava, eu sabia exatamente onde eu estava. Mais forte. Mais certa. E pronta pra escolher, se ele também estivesse.
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