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1091 Words
Era como se o tempo tivesse desacelerado só para que eu pudesse observá-lo. Jace estava ali, encostado no batente da porta do laboratório, como se tivesse saído direto de um filme – ou de um sonho que eu nem sabia que tinha. O sol da manhã invadia a janela atrás dele e criava um brilho dourado ao redor dos seus cabelos castanho-claros, levemente bagunçados, com aquela aparência de "não me importo, mas mesmo assim sou absurdamente bonito". Alguns fios caíam sobre a testa, e ele passava a mão por eles com um movimento distraído, que me fazia prender a respiração sem perceber. Os olhos dele... céus. Eram de um tom entre o mel e o âmbar, e quando me olhavam de forma direta, pareciam ver através de mim, atravessando todas as camadas que eu tentava manter intactas. Eram intensos, quase perigosos. E naquele momento, estavam fixos em mim. A expressão era séria, como se ele soubesse exatamente o efeito que causava, e gostasse de brincar com isso. A jaqueta preta de couro ajustava-se perfeitamente ao corpo dele, destacando os ombros largos, o peitoral firme e o porte naturalmente dominante. Por baixo, uma camiseta branca simples, justa o suficiente para evidenciar os músculos do abdômen. A calça jeans escura marcava o jeito relaxado com que ele andava, aquele andar lento e confiante que parecia dizer "não estou com pressa, o mundo espera por mim". Mas o que mais me fazia perder o fôlego era o contraste entre o físico impecável e a boca. Aquele maldito sorriso torto, de canto, que aparecia do nada. Arrogante. Irresistível. Provocador. Como se ele soubesse exatamente o que eu estava pensando – e estivesse se divertindo com isso. — Vai continuar me olhando assim ou vai dizer alguma coisa? — ele perguntou, e o tom da voz fez meu estômago revirar. Grave, rouco, arrastado. Como se ele tivesse acabado de acordar e dissesse meu nome num sussurro que só eu pudesse ouvir. Virei o rosto, tentando disfarçar o calor que subia pelas minhas bochechas, mas era inútil. — Só estava... analisando. — murmurei. — Analisando, é? — Ele deu um passo mais perto, e meu coração perdeu o compasso. — Quer saber o que eu analisei? Engoli em seco. O jeito como ele me olhava deixava claro que a provocação estava só começando. — Que você gosta quando eu chego perto. Que você fica sem saber o que dizer. E que, mesmo tentando esconder, tá morrendo de vontade de fazer algo... imprudente. Minha respiração acelerou. A sala parecia pequena demais para nós dois, e tudo dentro de mim gritava para que eu recuasse. Mas eu não me movi. Porque ele estava certo. E isso era o mais assustador — e o mais viciante. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o olhar dele mudou. Foi sutil. Como se uma porta tivesse se fechado por dentro. A provocação ainda estava ali, mas agora acompanhada de algo mais sombrio. Distante. — Mas sabe qual o problema? — ele disse, dando um passo pra trás, o tom de voz menos envolvente e mais frio. — Você se apega fácil demais. Franzi a testa, sem entender de imediato. — Como assim? — Acha que porque trocamos uns olhares, uns beijos, isso significa alguma coisa. — Ele soltou uma risada seca. — Eu só tava me divertindo. Foi divertido. Mas é isso. Senti como se tivesse levado um t**a. Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando assimilar. — Você... está me dispensando? — Dispensando? — ele arqueou uma sobrancelha. — A gente nem começou nada pra que eu precise fazer isso. Minhas mãos começaram a tremer. Tentei manter a postura, mas era impossível. Aquilo doía mais do que eu queria admitir. — Você me fez acreditar que... — respirei fundo, engolindo o nó na garganta — que entre a gente havia algo real. Ele se virou de lado, como se estivesse entediado. — Talvez o problema seja esse. Você sempre acha que é "real". — Por que você está sendo tão c***l? — Porque é melhor assim. Melhor você seguir sua vida do que ficar alimentando expectativas onde não existe nada. As palavras me atingiram como lâminas afiadas. Ele não gritou. Não foi agressivo. Mas a frieza... a indiferença. Isso doía mais. Virei as costas antes que ele visse minhas lágrimas. Andei sem rumo pelo campus até chegar no dormitório da Cassie. ⸻ — Ele disse isso?! — Cassie arregalou os olhos. — Com essas palavras? — Pior. Ele fez parecer que eu inventei tudo na minha cabeça — respondi, encolhida no sofá com um cobertor sobre os ombros. Cassie não falou por alguns segundos. Depois se levantou de um pulo. — Chega. A gente vai sair. Você não vai passar a noite chorando por esse b****a. — Eu não sei... — Eu sei. Vai pôr aquele vestido preto e sua bota de salto. Hoje a gente vira a página. ⸻ O pub estava cheio. Música vibrante, luzes baixas, cheiro de cerveja artesanal e perfume caro no ar. Cassie me arrastou direto pro bar. — Dois shots — ela pediu ao barman. — Você quer me embebedar? — perguntei, tentando sorrir. — Quero te lembrar quem você é. Bebi. O líquido queimou na garganta, mas aliviou a dor no peito. Rimos, dançamos, e por alguns minutos eu realmente esqueci. Até que... — m***a — sussurrou Cassie, parando de dançar. — O quê? — Não olha agora... tá, olha sim. Disfarçadamente. Ele está aqui. Meu estômago virou. Olhei por cima do ombro. Jace. Encostado no balcão do fundo, com dois amigos e... claro, duas garotas. Uma delas praticamente sentada no colo dele. Ele ria. Como se a tarde de hoje nunca tivesse acontecido. Nossos olhos se cruzaram. Por um segundo, eu juro que ele hesitou. Mas depois, ele sorriu para a loira ao lado. Cassie me puxou de volta. — Quer ir embora? — Não. Quero mais um shot. ⸻ Com mais álcool no sangue e raiva pulsando nas veias, tive uma ideia. Peguei o celular. Disquei. — Alô? — a voz dele, calma e doce, ecoou do outro lado. — Nerdzinho... — falei, com a voz arrastada. — Tá ocupado? — Você tá... bêbada? — Talvez. Pode vir me buscar? — Onde você tá? — No pub novo da praça. Me busca. Eu... preciso sair daqui. Com você. — Tô indo. Desliguei e encarei Jace. Ele me observava de longe, a mandíbula tensa. Cassie sorriu. — Isso vai pegar fogo. Sorri de volta, sem nenhum traço de sobriedade. — Queime, então.
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