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803 Words
O som da chuva batia na janela da sala comum do dormitório. Theo e eu dividíamos uma caneca de chá quente que ele insistiu em preparar depois que me deixou em casa. Segundo ele, camomila ajudava a acalmar os "corações confusos". Engraçado, porque o meu era mais bagunçado que um laboratório depois de um experimento m*l feito. — Você tá diferente — comentei, observando enquanto ele ajeitava os óculos. Theo sorriu, sem jeito, e deu de ombros. — Decidi mudar algumas coisas. Cortei o cabelo, troquei de óculos, comprei umas roupas novas... Achei que tava na hora. — Ficou bom. — Pausa. — Ficou ótimo, na verdade. Ele olhou pra mim e sorriu de novo, mas dessa vez mais seguro. O menino tímido do laboratório estava virando outra coisa. Mais firme. Mais bonito. E não era só aparência — era postura, atitude, presença. — Acho que tomei coragem depois de algumas verdades que ouvi de você — ele disse, com sinceridade no olhar. — Eu? — Você me fez enxergar que eu posso ser mais. Que eu mereço mais. Meu estômago revirou com aquele tipo de carinho. Doía, porque eu sabia que estava dividida. Mas também era reconfortante. Theo era tudo o que Jace não conseguia ser: estabilidade, ternura, clareza. ⸻ Os dias seguintes passaram como cenas de um filme em câmera lenta. E Theo... estava em todas elas. Ele me esperava após as aulas. Trazia meu café favorito sem eu pedir. Estudava comigo na biblioteca, fazia piadas bobas e caminhava comigo até o dormitório. Cada gesto era sutil, mas cheio de intenção. E não demorou para que os outros notassem. Inclusive Jace. Vi a primeira faísca no olhar dele na terça-feira, quando passou por nós no corredor e Theo segurava minha garrafa de água como se fosse natural. Jace não disse nada, mas seu maxilar travou por um segundo. Na quinta-feira, quando entrei na sala e Theo já estava lá, com um lugar reservado ao meu lado, Jace me ignorou completamente. Mas bateu a mochila com mais força na carteira de trás. De propósito. E cada vez que Theo me fazia rir, eu sentia os olhos de Jace queimando em alguma parte da sala. ⸻ — Vocês dois estão muito próximos — Cassie comentou numa tarde, enquanto a gente revisava umas anotações no refeitório. — Sim. Ele tem sido... incrível — respondi, distraída, observando Theo do outro lado, conversando com um grupo de veteranos. Até isso era novo. Ele estava socializando. As meninas riam das piadas dele. Algumas até tocavam no braço dele. Theo estava brilhando, e não era por minha causa. Era dele. Ele só precisava de espaço pra ser visto. — Você já se perguntou por que ele nunca te contou sobre a Kayle? Virei o rosto, confusa. — O quê? Cassie largou a caneta. — Eles namoraram, Ellie. No semestre passado. Bem quietos, mas real. — Você tá brincando. — Não. E sabe por que terminaram? Não respondi. — Jace. Claro. Kayle surtou por causa dele. Theo simplesmente... se afastou. Nem brigou. Só desapareceu da vida dela. As palavras ficaram girando na minha cabeça como um zumbido. Theo e Kayle. Jace no meio. De novo. — Ele nunca me contou — murmurei. — Talvez porque não queria que isso influenciasse a forma como você vê os dois. Ou porque ele sabia que, mais cedo ou mais tarde... isso viria à tona. Senti um gosto amargo na boca. Não por causa de Theo. Mas por Jace. Ele sempre deixava um rastro de destruição — e agora eu era só mais uma nesse caminho. ⸻ Na sexta-feira, Theo me esperava na saída da biblioteca. Ele vestia uma camiseta preta colada no corpo, a jaqueta jeans aberta, e o cabelo arrumado com aquele volume bagunçado perfeitamente calculado. Estava tão bonito que até alguns olhares se viraram enquanto ele me esperava. — Oi, moça — disse ele, me entregando um chocolate. — Você parecia estressada hoje. — Sempre sabe. — Eu presto atenção. Olhei pra ele por um segundo longo. Tão diferente do que éramos no começo. Agora ele parecia... certo. Mas do outro lado da rua, encostado no capô do carro, Jace nos observava. Camisa escura, cigarro apagado entre os dedos, olhos fixos na gente. Não havia nenhuma garota com ele hoje. Só aquele olhar — silencioso, sombrio, e cheio de coisas que ele não dizia. — Quer ir dar uma volta? — Theo perguntou. — Quero. E quando entrelacei meus dedos nos dele, senti que algo tinha mudado. Dentro de mim. E entre os dois. Mas também senti, mesmo de longe... o impacto do olhar de Jace. E ele não olhou pra baixo. Não olhou pra outro lado. Ele me viu. Com o Theo. De mãos dadas. E talvez, pela primeira vez, ele tenha entendido o que era perder de verdade.
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