O tédio da aula era sufocante. A voz do professor parecia ecoar de longe enquanto eu rabiscava o canto do caderno sem prestar atenção em nada. Meus pensamentos estavam em outro lugar. Em outro alguém.
Theo tinha sido gentil aquela manhã. Me deixou um bombom no armário com um bilhete fofo. Eu deveria estar sorrindo por isso. Mas não estava. Porque, no fundo, por mais que eu tentasse seguir em frente, o nome que gritava dentro de mim ainda era Jace.
O estômago revirou. Levantei a mão e pedi para sair. O professor assentiu sem questionar.
Peguei minha bolsa e saí da sala, sentindo o peso do olhar de alguns colegas. Caminhei apressada até o banheiro feminino do fim do corredor. As paredes frias, o som da torneira pingando, o silêncio. Me olhei no espelho. Cabelos ruivos bagunçados, olhos cansados. Sardas acentuadas pela luz branca.
Lavei o rosto. Respirei fundo.
Então ouvi.
CLIC.
O som metálico da porta sendo trancada por dentro.
Me virei bruscamente.
Jace.
Estava ali, encostado na porta agora travada com uma régua de madeira enfiada no trinco, impedindo que alguém abrisse do lado de fora. O coração disparou.
— O que você está fazendo aqui? — minha voz saiu baixa, quase um sussurro.
Ele se aproximou devagar. Olhos vermelhos, andar levemente cambaleante. Estava bêbado. Às dez da manhã.
— Você fugiu — ele disse, com a voz rouca. — Sempre foge.
— Você está bêbado.
— E você está linda.
Ele parou perto demais. O cheiro dele — álcool, cigarro, perfume amadeirado. Me envolveu como um soco no estômago.
— Jace, isso é o banheiro feminino...
— E você acha mesmo que eu me importo?
Engoli seco.
Ele me encarou como se estivesse me odiando e desejando ao mesmo tempo.
— Você é tão egoísta, Ellie.
— O quê?
— Você quer que eu te toque. Que eu te deseje. Que eu te olhe como se você fosse tudo. Mas depois... você vai embora. Finge que não sente. Que tá feliz com aquele i****a do laboratório.
— O nome dele é Theo.
— f**a-se o nome dele.
Jace se aproximou mais, os olhos queimando os meus.
— Você sabe o que eu vejo quando fecho os olhos?
— Não quero saber.
— Eu vejo você. Cabelos ruivos desgrenhados, esses olhos azuis que me tiram do eixo. Vejo cada uma das sardas no seu rosto. As curvas do seu corpo. O jeito que sua cintura encaixa nas minhas mãos como se tivesse sido feita pra mim. Você sabe o que isso faz comigo?
— Jace...
— Me deixa louco. Me destrói. E mesmo assim, eu volto. Porque você é o tipo de caos que vicia.
Ele me pressionou contra a pia, sem me tocar — mas tão perto que eu sentia o calor do corpo dele.
— Vai me bater? — ele murmurou.
— Se você encostar em mim...
— Já encostei. Várias vezes. Você ainda sente aqui, né? — ele passou o dedo perto do meu quadril, sem tocar. — Queimando. Porque ninguém te toca como eu. Ninguém te entende como eu.
— Você não me entende.
— Então me mostra. Me odeia. Me empurra. Mas me sente. Agora.
E foi quando ele me beijou.
Forte. Desesperado. Como se aquilo fosse a última chance dele respirar.
Tentei resistir. Por dois segundos. Depois, tudo desabou.
O beijo virou mordida. O toque virou urgência. Minhas mãos puxaram o cabelo dele, as dele apertaram minha cintura com força. Me ergueu na bancada da pia, derrubando meu estojo no chão. A porta seguia trancada.
Nossos corpos se chocaram como ondas violentas. Eu queria gritar. Queria fugir. Mas estava ali, queimando por ele.
As roupas se tornaram obstáculos. O som do zíper. A respiração entrecortada. Meu nome escapando dos lábios dele com raiva e desejo.
— Isso é errado — murmurei, com os olhos marejados.
— Isso é a única coisa real que a gente tem — ele respondeu, arfando.
E então aconteceu.
No banheiro feminino. Trancados. Com tudo que tínhamos negado explodindo em nossos corpos.
E no fim, entre os respingos da pia, os lábios mordidos e os olhos vazios, ele encostou a testa na minha e disse:
— Eu ainda sou o único que te faz perder o chão.
E naquele momento... ele estava certo.