O sol entrou tímido pela fresta da cortina, esquentando devagar o corredor da casa. Eu já estava acordada fazia algum tempo, ouvindo os sons da cozinha: minha mãe lavando louça, meu pai rindo de algo na TV, o cheiro de pão quente se espalhando.
Fiquei parada na porta do quarto de hóspedes, olhando Jace dormindo de lado, o cabelo bagunçado e a camiseta subindo um pouco nas costas. Ele parecia um adolescente ali, vulnerável e em paz. Diferente do cara explosivo da noite anterior.
Bati de leve na porta.
— Acorda, rockstar. Você tá em território familiar. E minha mãe tá fazendo café.
Ele virou devagar, piscando com esforço.
— Que dia é hoje?
— Domingo. E sim, você ainda tá vivo.
— Isso é bom ou r**m?
— Depende de como você se comportar agora.
Ele se sentou e passou as mãos no rosto.
— Eu falei besteira, né?
— Umas cinco ou seis seguidas. Mas minha mãe achou você... curioso.
Ele riu e se levantou.
— Curioso é um bom começo.
Desci com ele até a cozinha. Meus pais já estavam à mesa, e minha mãe virou com um sorriso acolhedor.
— Bom dia, Jace. Dormiu bem?
— Como uma pedra. — ele respondeu, coçando a nuca. — Obrigado por me deixar ficar. Eu fui... inconveniente, eu sei.
Meu pai estendeu uma xícara pra ele.
— Inconveniente? Você foi mais animado que o habitual aqui. A gente ficou rindo das suas perguntas por um bom tempo.
— Tipo... se a gente era feliz? — minha mãe completou, sorrindo com um olhar mais doce.
— Nossa... — Jace murmurou, envergonhado. — Eu realmente falei isso?
— Falou. E também perguntou se a Ellie gostava de boy bands. — meu pai disse, rindo. — A resposta é sim, inclusive. Ela tinha pôsteres do McFly colados no guarda-roupa.
— Pai! — bufei, me escondendo atrás da caneca.
Jace olhou pra mim com um sorriso de canto.
— Tô montando o quebra-cabeça. Isso explica muita coisa.
O clima à mesa ficou leve. Jace começou a perguntar mais, mas de um jeito verdadeiro agora. Quis saber sobre o trabalho do meu pai, sobre como minha mãe lidava com os pacientes — já que ela era psicóloga — e, pra minha surpresa, ouviu tudo com atenção.
— E você, Jace? — minha mãe perguntou, depois de um tempo. — Onde estão seus pais?
Ele hesitou. Engoliu o café e pousou a xícara devagar.
— Minha mãe ainda mora na cidade onde cresci. A gente se fala... de vez em quando. E meu pai... ele meio que desapareceu da equação quando eu era moleque.
— Sinto muito. — ela disse.
— Tudo bem. Eu já me acostumei. E o Davi... bom, ele era o que equilibrava tudo. Mas ele se perdeu. E a gente também.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Meus pais trocaram um olhar respeitoso, e pela primeira vez eu vi um Jace mais humano diante deles — menos provocador, mais real.
— Sabe, eu gostei de você. — meu pai disse, surpreendendo até a mim. — Tem muita dor aí dentro, mas também tem verdade.
Jace sorriu, discreto.
— Valeu, senhor...
— Rui. Mas pode me chamar de tio, como todos os amigos da Ellie fazem.
— Tô me sentindo adotado. — ele brincou, e todos riram.
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Já era quase fim da tarde quando ele veio até meu quarto, onde eu estava sentada na cama, mexendo no notebook. Ele bateu na porta e entrou com o cabelo ainda úmido do banho. Usava uma camiseta velha minha que ele pediu "emprestada" e um moletom do meu irmão.
— Que foi? — perguntei, encarando o jeito leve com que ele jogou o corpo na minha poltrona.
— Nada. Só... foi um bom dia. Eu nem lembro da última vez que almocei com uma família assim. Foi... reconfortante.
Sorri de leve.
— Que bom. Meus pais gostaram de você. De verdade.
— Isso me assusta um pouco. Eles devem estar vendo algo que eu não vejo.
Fechei o notebook, respirei fundo e levantei os olhos para ele.
— Tem uma coisa que eu preciso te contar.
Ele se ajeitou na cadeira, atento.
— Tá.
— No outro dia... quando você ficou ensaiando com a Kayle e me ignorou completamente... — comecei, já sentindo o peso subir pela garganta — eu beijei o Theo.
Silêncio.
Jace ficou parado por alguns segundos. O maxilar dele se contraiu, e o sorriso sumiu como se tivesse sido apagado a força.
— Você o quê?
— Eu beijei o Theo.
Ele ficou de pé num pulo, a mão nos cabelos.
— E você me contou isso agora? Depois de me trazer pra sua casa, me fazer sentar com os seus pais, como se... como se a gente tivesse construindo algo?
— Eu não te devia explicações. A gente não tá junto, Jace.
— Mas você sabia o que eu sentia! Você sempre soube. E ainda assim, foi lá e... com o Theo?
— Você me ignorou. Me tratou como se eu não significasse nada. Me trocou por ensaios, por brigas, por essa maldita confusão interna que você nunca me deixa entrar.
— Porque eu não sei o que fazer com isso, Ellie! Eu não sei como lidar com você!
— Então não finge que quer.
Ele respirou fundo, os olhos ardendo com algo entre raiva e frustração.
— Isso muda tudo.
— Não precisa mudar, Jace. A gente nunca teve nada... lembra?
Ele me olhou por um último segundo, depois saiu do quarto sem dizer mais nada.
E dessa vez... foi o silêncio que me destruiu.