Sakura estava em um estado deplorável. Exausta por tamanho esforço. Cortei o cordão umbilical daquele pequeno ser.
— É uma menina.
Encarei a figura do bebê em meu colo, uma sensação agradável se alastrou por meus olhos e chegou em meu coração. Eu estava encantada com aquela pequena criança. Ela herdou a pele empalidecida, os olhos ônix, os cabelos imensamente negros e sedosos. Mas aquele nariz em especial. Só ele tinha um nariz tão bem desenhado.
Os traços da criança no meu colo eram indiscutivelmente idênticos ao pai. A sensação de tê-la no meu colo, de senti-la me olhar. Me causou uma emoção inexprimível. Mordi meu lábio, mas bastou um curto sorriso do bebê recém-nascido para que minha boca se curvasse num sorriso bobo e as lágrimas corressem pelo meu rosto. Eu estava com a vida do Sasuke nas minhas mãos. Mais que isso, eu estava com a prova viva da felicidade alcançada pelo homem que eu amava. A beleza daquela criança era tão absurdamente linda como a se um pequeno ser celestial.
Me lembrei de que Sakura estava observando aquela cena. Me reergui e andei em sua direção, levando a criança comigo. Entreguei-a em seus braços que já estavam ansiando para aquele momento. Passei uma última olhada para a filha dele. Enxuguei meu rosto e ajeitei os óculos. Sakura estava num elevado estado de felicidade, seu sorriso era largo, seus olhos estavam molhados, brilhavam e miravam com adoração para a sua filha.
— Ah. Sasuke-kun. Onde ele está?
Despertei do transe.
— Eu vou chamá-lo.
Me apressei para sair para o corredor. Sasuke não estava com a sua capa. Ele olhou aflito. Levantou-se ansioso do velho sofá ao lado de Sugeitsu, que me olhou de forma analítica.
— Karin.
— Elas o esperam. — ele me encarou imóvel. Ainda processando. — É uma linda menina. — Os cantos de minha boca vacilaram e abriram-se num sorriso, eu confessava que estava ávida para lhe dar aquela notícia.
Um raio de emoção atravessou os olhos de Sasuke, eles que eram casualmente indiferentes, agora refletiam um brilho. E sem pensar duas vezes, ele saiu do cômodo, sumindo da minha frente. O Uchiha andou depressa para a sala onde estava sua mulher e sua filha. Era estranho como eu me sentia naquele momento. Na verdade, eu não sabia dizer como eu me sentia.
— Que louco isso, hein, Karin. — Sugeitsu ironizou. — Você realmente não deve mais ter esperanças.
— Ah, seu...
Fechei meus punhos. Mas decidi não perder meu tempo com aquele insignificante. Andei de volta para o quarto, mas não cheguei a entrar pela porta. De longe avistei Sasuke se apaixonar pela filha, estava repleto de comoção. Eu diria que ele estava num pico de intensidade. Sakura lhe ofereceu para que a segurasse, mas o vi negar, mostrando-se um grande desajeitado. Contudo ela a entregou, fazendo com que o Uchiha mantivesse a filha nos braços. Já existia um vínculo ali, entre pai e filha.
Fiquei ali observando aquela cena familiar até Sakura dormir. Do seu lado, Sasuke estava sentado em uma cadeira velha, cochilando com a bebê em seu colo. Eu podia ver através das flutuações de seu chakra a forma escura que a energia dele flutuava sobre elas, se manifestando de forma protetiva. Um guardião silencioso. E pensar que esse era o mesmo rapaz que persistia na ideia de que laços só enfraqueciam. Hoje eu sei que antigamente o jeito dele de ser rude com a ex companheira de equipe era apenas uma forma de tentar cortar os sentimentos que mantinha por ela pela raiz.
A menina acordou e se remexeu, assustando Sasuke que se endireitou rapidamente na cadeira. Ele procurou Sakura com os olhos, mas percebeu que a kunoichi estava adormecida, estava tão entretido que sequer sentiu meu chakra, que embora eu estivesse camuflando, eu sabia que ele sentiria.
Sasuke encarou sua filha em seu colo e contemplou silenciosamente aquele ser como se ela fosse um ser celeste. A criança ergueu os pequenos braços tocando a face do pai, surpreendendo o Uchiha. Ele levantou as sobrancelhas, passou uma olhadela rápida para Sakura, se certificando de não estar sendo observado. Voltou a atenção para a bebê, presenciei o momento que seu rosto impassível se transformou em serenidade.
VOCÊ PODE NUNCA CONHECER
O LUGAR VULNERÁVEL DE UM HOMEM ATÉ
VÊ-LO COM A FILHA, PORQUE COM ELA,
ELE PARECE CAPAZ DE MAIS EMOÇÕES HUMANAS
DO QUE ALGUMA VEZ PARTILHARÁ COM QUALQUER OUTRA PESSOA.
— Eu sou a mulher mais feliz do mundo. — minha atenção se direcionou a Sakura, que admirava a cena de Sasuke com a filha. Ele se remexeu, acanhado.
Sasuke levantou-se e levou a criança para o colo da mãe, entregando-lhe cuidadosamente e se certificando de que não haveria nenhuma possibilidade de perdê-la de seus braços em um acidente.
— Sasuke-kun... — ambos miravam a menina. — como a chamaremos?
Eu sabia que não cabia a mim bisbilhotar um momento tão íntimo deles. Mas algo me prendia ali.
— Sarada. — Ele sussurrou, com o olhar fixo na recém-nascida. — Se não for um problema para você.
— Sarada. Eu amei isso. — Os seus olhos brilhavam, alternando entre a criança e Sasuke.
Sarada. Além da semelhança inicial com o nome de Sasuke e com a de Sakura, significava alguém com boa saúde física e mental. Seu nome também é derivado de Saraswati, a deusa Hindu do conhecimento. A prontidão com que ele lançara o nome, indicava que não era algo dito na hora... foi planejado. Foi pensado.
Sasuke havia pensado em nomes. Mais que isso, ele criou expectativas para aquela criança. Aquela cena revelou dimensões mais profundas de meus sentimentos.
Eu corri. Desviei o corredor. Me escondi atrás de uma parede. E, de repente, senti a necessidade de ficar escondida. Eu sequer cogitava me sentir segura ao respirar. Estava paralisada. O ar quase não saia de meu peito.
Pesava em mim todos aqueles acontecimentos. Era doloroso perder um amor. Era doloroso ter todas as minhas expectativas arruinadas.
Meus olhos arderam, tirei os óculos. Lágrimas encheram os meus olhos, os fechei e não demorou muito para meu rosto inundar de lágrimas. Sentei-me no chão, soluçando.
Às vezes é difícil
seguir o seu coração.
Mas lágrimas não simbolizam derrota.
Não perca sua essência, Karin.
Ver é enganar,
Sonhar é acreditar.
Está tudo bem em não estar bem.
Por mais que as vezes seja difícil seguir o seu coração.
Além do sentimento de desencanto, eu também chorava pelo imenso sentimento de afeição e apego com aquela miniatura que estivera em meus braços. Eu desejava ver a felicidade daquela criança, ver a p******o.
Seria fácil sentir raiva ou desprezo por Sakura e por Sarada. Mas não era assim que eu me sentia, era o oposto, e era exatamente este sentimento desconexo que me deixara naquela situação.
Eu desejava muito Sasuke, esse sentimento costumava ultrapassar todas as barreiras dos cinco sentidos do corpo humano. Mas... quando amamos alguém, é comum sentirmos um desejo enlouquecido de manter essa pessoa sempre ao nosso lado, seja pelo amor, pelo carinho, pelo abraço ou simplesmente pelo simples fato dele respirar ou de estar feliz
Sasuke afinal tinha acabado de me libertar de um fantasma na minha vida. Talvez em uma outra vida, eu seria sua garota. E seriamos nós dois contra o mundo. Mas nessa ele era de Sakura. De Sakura e da pequena Sarada.
As vezes a melhor maneira de ficar perto de alguém
que você ama e admira.
É sendo apenas um amigo.