As ruas de Boston estavam cheias naquela noite fria de sexta-feira. O vento gelado cortava a pele, mas Elena seguia com passos firmes entre as amigas, rindo e conversando como se nada no mundo pudesse tocá-la. O jeans justo, o sobretudo preto e os cabelos soltos dançando com o vento lhe davam um charme casual que atraía olhares, mesmo que ela fingisse não notar.
— Hoje é lei — declarou Luna, passando o braço pelos ombros de Elena. — Zero estudos, zero projetos, zero estresse. A aniversariante está oficialmente proibida de pensar.
Elena riu, mas o olhar perdido denunciava que algo dentro dela estava inquieto. Entretanto, repetia para si mesma: Essa noite é minha. Apenas minha.
Elas viravam para a avenida principal quando um carro preto de pintura impecável encostou no meio-fio. Uma visão qualquer para qualquer pessoa menos para Elena.
Ela reconheceu o carro antes mesmo que a porta se abrisse.
Seu coração errou o compasso.
A porta do motorista se abriu e Ethan desceu.
Sobretudo cinza, camisa social aberta no colarinho, cabelo penteado para trás, aquele andar calmo, seguro, irresistível. O tipo de presença que fazia o mundo silenciar ao redor. Ele ainda não tinha visto Elena.
Um grupo de alunos vindo na direção contrária sorriu imediatamente ao reconhecê-lo.
— Professor Hayes! — chamaram. — Estamos indo para o Black Diamond comemorar o aniversário da Morrison. Se estiver livre essa noite, está convidado.
E apontaram diretamente para ela.
Ethan a olhou e congelou por um instante, tudo o que ele sentia escapou antes que pudesse esconder: saudade, desejo, mas maior de todos os sentimentos foi o medo.
Nesse momento a outra porta se abriu.
Um salto metálico tocou o chão.
Uma mulher loira desceu do carro alta, elegante, impecável. Vestido de seda, maquiagem perfeita, postura de quem já nasceu acostumada a luxo. Parecia parte daquele mundo desde sempre.
As amigas de Elena viraram ao mesmo tempo que ela.
— MEU. DEUS. — sussurrou Cloe. — Ela é simplesmente… deslumbrante.
Elena não se moveu. Não piscou. Não respirou.
A lembrança do beijo naquela tarde, do toque, do fim de semana juntos, da intensidade entre eles se transformou em veneno quente que queimava por dentro.
E como se o destino quisesse apertar ainda mais a ferida, Luna completou, rindo:
— Estamos comemorando hoje porque essa aí resolveu sumir no fim de semana passado inteiro, hoje fomos mais rápidas antes que ela resolvesse desaparecer misteriosamente de novo.
Ele sabia exatamente onde Elena tinha estado no fim de semana anterior: com ele.
Na casa dele.
Sob o corpo dele.
Dormindo em seus lençóis.
O maxilar dele se contraiu tão forte que quase doeu e um medo visceral de perdê-la o atingiu.
Elena por orgulho ergueu a cabeça e o olhou nos olhos e um sorriso surgiu, doce, frio e afiado.
— Não se preocupem, não tenho intensão de sumir novamente, nem nesse ou em qualquer outro fim de semana.
Ethan sentiu.
E o golpe foi direto.
Ele entendeu perfeitamente o recado.
Somente Daniel protestou.
- A não Morrison, eu estava contando com você. - protestou ele brincando olhando diretamente para Luna - coloque juízo na cabeça de sua amiga.
— Bom… acho que o professor já tem companhia para a noite - Disse Elena desviando o olhar - Aproveite a noite professor Hayes - disse ela dando as costas e o olhando por cima dos ombros.
Luna envolveu os braços em Elena, puxando-a.
— Vamos. Hoje é nosso dia.
Elena seguiu seu caminho, sem olhar para Ethan novamente.
Sem hesitar.
Sem vacilar.
Orgulho puro.
Dor pura.
Ethan ficou paralisado na calçada, assistindo ela se afastar.
Ele não podia chamá-la.
Não podia tocá-la.
Não podia dizer que aquela mulher ao lado dele não significava nada, que ele só tinha aceitado o jantar com Eva para tirá-la definitivamente da vida dele antes que ela descobrisse sobre Elena e tentasse destruir tudo.
Eva era sua a ex-noiva, a noiva que o havia trocado por outro, por alguém de mais prestígio, influência e fortuna que Ethan.
Agora sete anos depois ela reapare insistindo naquele jantar. Alegava precisar “acertar os erros do passado”, mas Ethan não estava disposto a se perder novamente. Onze anos de vida corporativa e décadas de controle não o permitiriam. Ele não voltaria a cair nas armadilhas de quem já havia manipulado seu coração. Eva já avia destruído ele uma vez, não queria imaginar o que ela poderia fazer com Elena se descobrisse o envolvimento dos dois. Eva era ambiciosa, possessiva, ardilosa, manipuladora e vingativa e Ethan só percebeu quando já estava envolvido demais.
E a simples possibilidade de Eva descobrir qualquer coisa o fazia entrar em pânico, não por ele, mas por Elena.
O escândalo, o julgamento, a perseguição… tudo recaíria sobre ela.
Proteger Elena significava eliminar Eva da equação.
E só havia uma forma: terminar de vez, cara a cara, sem abrir espaço para esperança.
Eva percebeu o silêncio dele, tocou seu braço.
— Vamos?
Ele a seguiu mecanicamente até o restaurante, mas sua expressão era um campo de batalha.
Culpa.
Frustração.
Medo arrebatador.
O restaurante era sofisticado, mas discreto, com luz baixa e música suave. A presença de Eva exalava uma mistura de poder e charme calculado, mas Ethan não se deixou abalar
Quando entraram, Eva cumprimentou o maître com seu sorriso perfeito e caminhou com segurança até a mesa. Ethan sentou-se, mas cada parte dele estava em outro lugar.
Ele viu Elena se afastando na memória.
O sorriso que não era sorriso.
A ferida que ela escondeu atrás de orgulho.
A maneira como se manteve firme mesmo quebrada.
E aquilo despedaçou o que restava do controle dele.
Eva começou a conversar sobre lembranças, viagens, sobre “o que poderiam recuperar”. Mas Ethan m*l a ouvia.
Cada frase dela que antes o derretia agora se chocava com uma muralha de decisão. Ele respondia com educação, firmeza e distância. Nenhum toque, nenhum olhar prolongado. A refeição terminou de maneira natural, sem necessidade de prolongar uma situação que não precisava existir.
Ele finalmente interrompeu, com firmeza 40 minutos depois.
— Eva… não há futuro para nós. Nenhum. Hoje é o fim. Nós não nos veremos mais depois deste jantar.
Eva congelou, surpresa, irritada, mas ele não recuou.
— Ethan… — Eva começou, com aquela voz sedutora, tentando puxá-lo para conversas sobre “o que foi e o que poderia ter sido”, mas ele cortou com firmeza:
— Não há o que discutir, Eva. Você fez a sua escolha quando resolver ir com ele, eu não permitirei o seu retorno para minha vida. A acredito que isso esteja resolvido por aqui.
A decisão estava tomada e era irrevogável.
Ela ficou em silêncio, olhos arregalados, e finalmente percebeu que não conseguiria mais manipulá-lo. Ethan pagou a conta, vestiu o sobretudo e deixou o restaurante antes que a frustração dela se transformasse em insistência, mas enquanto ele cortava os laços do passado, uma certeza o esmagada, o preço dessa noite poderia ser caro demais, e ele não sabia m que conseguiria pagar esse preço e se não conseguisse ele teria que aceitar essa dor em silêncio.
Porque proteger quem se ama, às vezes, significa ser odiado por ela.
Ele respirou fundo. A cidade parecia respirar com ele, o frio cortante da noite servindo de alerta para o que ainda estava por vir.
O destino seguinte era inevitável. Elena. Ele caminhou até o bar Black Diamond, mantendo a calma externa, mas com o coração em alerta.
Quando entrou no bar, avistou Elena com as amigas, rindo, levantando copos, festejando como se a noite fosse só dela. Jeans escuro, blusa leve colada ao corpo, cabelo solto dançando a cada movimento. Cada gesto calculado para manter presença, mas invisível para ele. Ela estava linda, brilhante, mas ele não podia se aproximar, não ali, não agora.
Ele permaneceu em um canto escuro alguns segundos, observando-a de longe, respirando fundo. O coração acelerado, as mãos tensas, ela estava completamente alheia à presença dele.
O bar estava cheio de estudantes, risadas ecoando, música pulsando, mas para Ethan, nada mais importava além dela. Elena ergueu a cabeça, brincou com uma das amigas, levantou o copo e riu. A risada chegou até ele e atingiu o peito dele como uma lâmina fina. Desejo e frustração se misturavam, lembrando-o do quanto perder o controle para ela era impossível.
Ele viu claramente que ninguém mais notava sua presença. Para todos, ele era apenas um homem qualquer naquele bar, mas ele não precisava ser visto. Ele precisava observá-la. Cada sorriso, cada gesto, cada movimento, cada detalhe reforçava o que ele não podia ter. Elena estava firme, desafiadora, inatingível. E era isso que o deixava louco. Cada passo que dava, cada riso que ecoava, aumentava a frustração e o desejo contido de Ethan. Ele queria ir até ela, tocar-lhe o braço, sussurrar algo que a fizesse se virar, mostrar que tudo entre eles ainda existia. Mas ele não podia. Não ali, cercado por testemunhas.