Capítulo 31

1265 Words
Os dias foram passando, e Tina, em silêncio, começou a enxergar mais do que qualquer um naquela casa. Ela observava. Sempre. E foi assim que percebeu algo que ninguém dizia em voz alta… mas que estava ali. Jamila era diferente. As outras escravas a respeitavam. Chinara cuidava dela com atenção. Sol a tratava como alguém importante. E até mesmo Santiago… evitava puni-la. Aquilo incomodou Tina. No começo, foi só um incômodo leve. Depois… virou algo mais. Um sentimento que crescia aos poucos. Inveja. Porque, mesmo sendo escrava… Jamila parecia ter algo que nenhuma outra tinha. Um lugar. Um valor. E Tina… não aceitava isso. Sol tentou se aproximar. — Você ainda tá se adaptando, né? — disse em uma tarde, com um sorriso. Tina apenas assentiu. Sem se abrir. Sem retribuir. Chinara também tentou. As outras mulheres… também. Mas Tina não estava ali para fazer amizade. Ela estava ali para observar. E entender. Foi em uma tarde tranquila que tudo mudou dentro dela. Sol e Jamila caminhavam pelo jardim, perto das plantas e flores. Conversavam, riam… como se, por um momento, não existisse mais nada além daquilo. Tina observava de longe. Encostada na parede. Imóvel. Mas atenta. Foi então que percebeu. O feitor. Parado mais afastado. Os olhos fixos. Não em Sol. Mas em Jamila. O jeito que ele olhava… Não deixava dúvidas. Não era vigilância. Era desejo. Interesse. Algo mais. O coração de Tina apertou. Porque ela também já tinha notado ele antes. O jeito forte. A postura. Os olhos verdes. O ar rude… mas firme. Ele era diferente dos outros homens. E, sem perceber, ela tinha começado a reparar. A gostar. Mesmo sem admitir. Mas, naquele instante… Tudo mudou. Quando ela viu. Quando teve certeza. Que o olhar dele… não era para ela. Era para Jamila. Algo dentro dela virou. Raiva. Uma raiva silenciosa. Fria. Porque, para Tina… Aquilo não era justo. — Ela tem tudo… — pensou. — Até isso? Seus olhos se estreitaram. Fixos em Jamila. Que, inocente… Nem imaginava. Nem percebia. Que, a partir daquele momento… Tinha ganhado uma nova inimiga. E não era qualquer uma. Porque Tina não agia por impulso. Ela esperava. Planejava. Enquanto tudo isso crescia silenciosamente dentro da casa… Havia algo que ninguém via. Nem Tina. Nem Ofélia. Nem mesmo os olhares mais atentos. Jamila e Afonso continuavam se encontrando… escondidos. Em horários improváveis. Em lugares onde ninguém costumava ir. Perto do celeiro. No caminho do rio. Às vezes, até em pequenos encontros rápidos, só para se ver… se tocar… ter certeza de que aquilo ainda era real. E a cada encontro… Ficava mais forte. Mais intenso. Já não era só desejo. Era amor. Em uma dessas noites, longe de todos, Afonso segurou as mãos de Jamila. — Eu não quero mais isso escondido… Ela olhou pra ele, já sabendo o que viria. — Afonso… — Eu tô falando sério — disse ele. — Eu penso nisso o tempo todo. Ela ficou em silêncio. O coração apertado. — Eu quero você comigo… de verdade. Jamila abaixou o olhar. — Isso não é tão simples… — Eu sei que não é — respondeu ele — mas eu não vou desistir. Ele se aproximou. — Eu tô fazendo planos. Ela levantou o olhar, surpresa. — Planos? — Sim… — disse ele, mais baixo. — De sair daqui… de ter uma vida longe de tudo isso. O mundo pareceu parar por um segundo. — Você tá falando sério? — perguntou ela, quase sem acreditar. — Tô. Jamila respirou fundo. Aquilo era tudo o que ela mais queria ouvir… E ao mesmo tempo… O que mais dava medo. — E sua família? — perguntou. — Eu enfrento. — E a sociedade? — Eu enfrento também. Ela deu um pequeno passo para trás. — Você não sabe o que tá dizendo… — Sei sim — respondeu ele, firme. — Pela primeira vez na vida… eu sei exatamente o que eu quero. O silêncio caiu. Os olhos dela começaram a se encher de emoção. — E se der errado? — sussurrou. Ele se aproximou novamente. — Então a gente erra junto. Aquilo a desmontou. Porque ninguém nunca tinha falado assim com ela. Nunca tinha escolhido ela. De verdade. Jamila levou a mão ao rosto dele, com cuidado. — Você vai se machucar… — disse, com medo. — Talvez… — respondeu ele. — Mas eu prefiro isso do que viver sem você. O vento passou leve. E, naquele momento… Ela não pensou na dor. Nem no medo. Nem nas consequências. Apenas nele. E no que sentia. Então se aproximou. E o beijou novamente. Selando algo que já não tinha mais volta. E enquanto isso… Na casa grande… Tina observava. Esperava. Sem saber… Que o maior segredo daquela casa ainda estava escondido. Mas não por muito tempo. O dia amanheceu diferente na casa grande. Havia movimento, vozes animadas, passos apressados pelos corredores. Sol estava radiante. — Hoje vai ser incrível! — dizia, sem conseguir esconder a empolgação. Era dia de festa. Um casamento importante na cidade, de um fazendeiro conhecido, e todos estavam se preparando. No quarto, Sol puxava Jamila de um lado para o outro. — Vem, a gente precisa se arrumar! Jamila tentava acompanhar, ainda um pouco tímida com tudo aquilo. Sol escolheu um vestido para si, delicado e elegante… e fez questão de escolher um para Jamila também. — Você vai comigo… e vai linda. Jamila hesitou. — Eu não sei se devo… — Deve sim — respondeu Sol, sorrindo. — Eu quero você comigo. E, como sempre… Jamila acabou cedendo. Em outro quarto, Ofélia observava Tina. — Você não vai sair assim — disse, analisando. Ela abriu um baú e retirou um vestido bege, bonito, bem cuidado. — Use esse. Tina pegou o vestido, surpresa, mas sem demonstrar muito. — Obrigada, senhora. Ofélia apenas assentiu. — Quero você ao meu lado hoje. Tina entendeu. E vestiu-se. Algum tempo depois, todos estavam na sala. Era impossível não notar. Sol, linda, leve. Jamila… deslumbrante, mesmo sem perceber. Tina, elegante, com um olhar mais firme. Ofélia… impecável, como sempre. E então, Afonso e Santiago desceram. Bem vestidos. Elegantes. Afonso, ao ver Jamila… Parou por um segundo. O olhar dele entregou tudo. Admiração. Desejo. Sentimento. Jamila percebeu… e abaixou o olhar, tentando disfarçar. Mas o leve sorriso escapou. Tina observou. Em silêncio. Guardando. Ao chegarem à festa, o ambiente era grandioso. Muitas pessoas. Luzes. Música. Mulheres com vestidos belíssimos. Homens bem vestidos, conversando, bebendo, rindo. Tudo parecia outro mundo. Sol estava encantada. — Vem! — puxava Jamila de um lado para o outro. Cumprimentava amigas, apresentava pessoas, ria com facilidade. Jamila seguia ao lado, mais quieta, mas impressionada com tudo. Era bonito. Mas também… distante da realidade dela. Afonso circulava com Santiago, conversando com outros homens, mas seus olhos sempre buscavam. E encontravam. Jamila. Tina permanecia ao lado de Ofélia, observando tudo. Mas, de vez em quando… Seu olhar ia na mesma direção. E, aos poucos… As peças começavam a se encaixar na mente dela. O jeito que Afonso olhava. O jeito que Jamila reagia. Aquilo não era comum. E Tina não deixou passar. Enquanto isso, Sol seguia feliz, andando com Jamila pelo salão. — Eu amo isso! — disse, sorrindo. Jamila sorriu de leve. — Você fica feliz aqui… — Fico. Ela então olhou para Jamila. — E você? Jamila pensou por um segundo. — Eu… tô feliz por você. Sol sorriu. Mas, no fundo… Sabia que Jamila ainda não se sentia parte daquele mundo. E talvez… Nunca pudesse se sentir. Mas, naquela noite… Pelo menos por algumas horas… Elas estavam ali. Juntas.
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