Santiago andava de um lado para o outro em seu escritório, com a expressão fechada. As palavras que havia escutado mais cedo ainda ecoavam em sua mente. Não demorou muito e mandou chamar o feitor.
O homem entrou, tirando o chapéu em sinal de respeito.
— Mandou me chamar, senhor?
Santiago o encarou por alguns segundos antes de falar:
— Andei ouvindo algumas coisas… sobre você e a Jamila.
O feitor não se esquivou. Pelo contrário, respirou fundo e respondeu com firmeza:
— É verdade. Eu gosto dela… gosto de verdade. Quero ela pra ser minha mulher.
Santiago arqueou levemente a sobrancelha, surpreso com a coragem.
— Você sabe do que está falando?
— Sei, sim senhor. Trabalho aqui há muitos anos, sou fiel ao senhor e à sua família. Acho que mereço isso. — Ele fez uma pausa antes de continuar. — Pra muitos, ela pode não valer nada… mas pra mim, ela tem muito valor.
O silêncio tomou conta do ambiente por alguns segundos.
Santiago cruzou os braços, pensativo.
— Vou pensar no que você disse… — respondeu, por fim. — Mas, por enquanto, quero que você deixe Jamila em paz. Não quero confusão na minha casa.
O feitor assentiu, mesmo contrariado.
— Sim, senhor. Como quiser.
E saiu.
Enquanto isso, Jamila estava em seu quarto, sentada na beira da cama, perdida em pensamentos. Seus dedos tocaram de leve os lábios, lembrando do beijo com Afonso. Seu coração apertava só de lembrar… era errado, perigoso… mas impossível de esquecer.
Do outro lado da casa, Afonso também não conseguia ficar parado. Andava de um lado para o outro, inquieto, revivendo aquele momento. Por mais que tentasse se convencer de que precisava se afastar… algo dentro dele o puxava de volta.
Sem pensar muito, ele saiu do quarto.
A cozinha estava silenciosa. Apenas o som leve da água sendo servida quebrava o silêncio. Jamila estava ali, bebendo água, tentando acalmar a mente.
Foi quando sentiu uma presença.
Ela virou lentamente… e encontrou Afonso parado na entrada.
Os dois ficaram imóveis por alguns segundos, apenas se olhando. Nenhuma palavra foi dita, mas tudo estava ali — o medo, o desejo, a dúvida.
Jamila segurou o copo com mais força, como se aquilo a mantivesse firme.
— Afonso… — ela começou, mas a voz falhou.
Ele deu um passo à frente.
— Eu tentei não vir… — disse, baixo. — Mas não consegui.
O silêncio voltou, mais intenso do que antes.
Ela sabia que precisava mandar ele embora.
Sabia que era o certo.
Mas seus pés não se moviam.
Ele se aproximou devagar, como antes, dando a ela a chance de recuar… mas, mais uma vez, ela ficou.
Quando estavam próximos o suficiente, Afonso levou a mão ao rosto dela, com cuidado, como se temesse que ela desaparecesse.
Jamila fechou os olhos por um instante… e, quando abriu, já não havia mais espaço para fugir.
Dessa vez, foi ela quem diminuiu a distância.
Os lábios se encontraram novamente, mais certos do que antes, mas ainda carregados de emoção e insegurança. Não havia pressa… apenas a necessidade de sentir aquele momento mais uma vez.
Mas, junto com o sentimento, vinha o medo.
Jamila se afastou primeiro, respirando fundo, olhando ao redor como se alguém pudesse surgir a qualquer instante.
— Isso não pode continuar… — disse, quase em um sussurro.
Afonso encostou a testa na dela por um segundo.
— Eu sei… mas também sei que não consigo te evitar.
Ela o olhou, com os olhos cheios de conflito.
— Estão falando de mim… coisas podem acontecer…
Ele ficou sério.
— Eu não vou deixar nada te acontecer.
Jamila sabia que não era tão simples assim.
Mesmo assim… naquele momento, queria acreditar.
Mas o perigo estava cada vez mais próximo.
feitor estava na porta de seu quarto no lado de fora da casa grande ficou lembrando da conversa na sala de Santiago com o maxilar travado, tentando manter a postura firme, mas por dentro havia um turbilhão. Ele era um homem de presença forte — alto, de ombros largos, pele clara marcada pelo sol, cabelos pretos sempre desalinhados e um olhar duro, acostumado a impor respeito.
Desde jovem, havia sido moldado para aquele lugar. Aprendeu a comandar, a exigir, a não demonstrar fraqueza. Para ele, os escravos sempre foram apenas parte do trabalho… até Jamila.
E era isso que o deixava inquieto.
Encostado do lado de fora, ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo. A imagem dela vinha à mente com insistência — o jeito delicado, o olhar, a forma como se movia… algo que ele não conseguia ignorar.
Mas o que sentia não era simples.
Não era carinho como o de um homem apaixonado de verdade.
Era um desejo possessivo, intenso, que crescia cada vez mais dentro dele. Uma vontade de tê-la para si, de não dividir, de transformar Jamila em algo que lhe pertencesse.
— Eu mereço isso… — murmurou para si mesmo, com o olhar endurecendo.
Na cabeça dele, fazia sentido. Anos de lealdade, de trabalho duro… acreditava que tinha direito a uma recompensa. E, naquele pensamento distorcido, Jamila se tornava esse “prêmio”.
Ainda assim, as palavras de Santiago ecoavam:
"Por enquanto, deixe ela em paz."
Ele apertou os punhos.
— Por enquanto… — repetiu, como se estivesse aceitando… mas não convencido.
O feitor não era um homem de desistir fácil.
E quanto mais pensava em Jamila… mais aquilo crescia dentro dele, se transformando em algo perigoso.
Sem saber disso, Jamila estava em outro canto da casa, com o coração dividido entre medo e sentimento.
E enquanto Afonso pensava nela com ternura…
O feitor pensava nela de um jeito muito diferente.
E isso poderia mudar tudo.