Afonso não soltou Jamila enquanto voltavam.
O caminho até a casa-grande foi rápido, mas carregado de tensão. Jamila ainda tremia, tentando se recompor, enquanto Afonso caminhava firme, com a raiva estampada no rosto.
Ao entrarem, alguns olhares se voltaram imediatamente para eles.
— Cadê meu pai? — perguntou Afonso, direto.
— No escritório — respondeu um dos empregados, sem entender a urgência.
Sem perder tempo, Afonso seguiu até lá. Abriu a porta sem bater.
Santiago levantou os olhos, surpreso.
— O que é isso, rapaz—
Mas parou ao ver Jamila atrás dele, visivelmente abalada.
— O feitor — interrompeu Afonso, sem rodeios. — Ele tentou atacar a Jamila de novo.
O silêncio caiu pesado no ambiente.
Ofélia, que estava sentada próxima, virou o rosto lentamente.
— De novo? — disse ela, com um tom controlado.
Afonso olhou diretamente para ela.
— A senhora mandou ela sozinha até o depósito.
Ofélia ergueu uma sobrancelha.
— E desde quando isso é problema?
— Desde que tem um homem perseguindo ela! — rebateu Afonso, sem esconder a indignação.
Santiago se levantou, agora mais sério.
— Chega.
O tom dele cortou o ar.
— Eu já disse que ia observar.
— Observar?! — Afonso não conteve. — Ele quase—
Parou, olhando para Jamila.
— Ele não vai parar — continuou, mais firme. — E da próxima vez pode ser pior.
Santiago ficou em silêncio por alguns segundos, analisando a situação.
— Você tem certeza do que está dizendo?
Afonso deu um passo à frente.
— Eu vi.
Isso mudou o peso das coisas.
Ofélia, porém, se levantou com calma.
— Engraçado… — disse ela, andando devagar pelo espaço — porque parece que essa menina vive “atraindo” problemas.
Jamila abaixou o olhar imediatamente.
Afonso virou-se na mesma hora.
— Não fala assim dela.
O tom dele foi firme demais.
Forte demais.
Ofélia percebeu.
E aquilo só confirmou o que ela já suspeitava.
— Ah… então é isso — disse ela, com um leve sorriso frio. — Você está defendendo ela mais do que deveria.
Santiago franziu o cenho.
— O que você quer dizer com isso, Ofélia?
Ela olhou de Afonso para Jamila.
— Quero dizer que talvez o problema não seja só o feitor.
O clima ficou ainda mais pesado.
— Chega — disse Santiago novamente, agora com mais autoridade.
Ele caminhou até a mesa, pensativo.
— Se isso é verdade… — começou — eu vou resolver.
Afonso não recuou.
— Tem que resolver.
Santiago olhou para ele.
— Eu vou falar com o feitor. E se ele estiver passando dos limites… será punido.
Jamila levantou levemente o olhar, surpresa.
Era a primeira vez que ele falava em punição.
Mas Ofélia apenas observava.
Em silêncio.
Calculando.
Porque, para ela, aquilo ainda podia ser usado.
E muito bem usado.
— E você — disse Santiago, voltando-se para Jamila — não vai mais sair sozinha.
— Sim, senhor — respondeu ela, baixo.
Afonso finalmente respirou um pouco mais aliviado.
Mas sabia…
aquilo ainda não tinha acabado.
Porque agora não era só um problema com o feitor.
Era dentro da própria casa.
E os olhares…
já estavam dizendo mais do que palavras.
Jamila caminhava apressada pelo corredor, com o coração ainda acelerado depois de tudo que havia acontecido naquele dia. A casa já estava silenciosa, iluminada apenas pelas lamparinas que lançavam sombras suaves nas paredes. Cada passo parecia ecoar mais alto do que o normal, como se até o silêncio a observasse.
Ao chegar ao pequeno quarto, ela fechou a porta devagar, apoiando as costas nela por alguns segundos. Levou a mão ao peito, tentando acalmar a respiração. Seus pensamentos estavam confusos… mas um nome insistia em voltar: Afonso.
Ela m*l teve tempo de se recompor.
— Jamila…
A voz veio baixa, quase um sussurro.
Ela arregalou os olhos e virou-se rapidamente. Afonso estava ali, parado perto da porta que ela não lembrava de ter deixado aberta. Ele parecia tão nervoso quanto ela — talvez até mais.
— O que… o que o senhor está fazendo aqui? — ela perguntou, com a voz trêmula.
Ele deu um passo à frente, hesitante.
— Eu precisava te ver.
O silêncio entre os dois se tornou pesado, carregado de tudo o que ainda não havia sido dito. Jamila abaixou o olhar, tentando manter distância, mas seu corpo não obedecia completamente.
— Isso é errado… — ela murmurou.
Afonso se aproximou mais um pouco.
— Eu sei. Mas não consigo fingir que não sinto nada.
Jamila levantou os olhos devagar. Pela primeira vez, ela não viu nele o filho dos seus senhores… viu apenas um rapaz, com o olhar sincero, perdido entre o medo e o desejo.
Ele ergueu a mão, como se pedisse permissão, e tocou de leve o rosto dela. Jamila fechou os olhos por um instante, sentindo aquele toque como algo proibido… e ao mesmo tempo impossível de recusar.
— Se quiser, eu vou embora agora — ele disse, quase sem voz.
Ela não respondeu.
Mas também não se afastou.
E foi o suficiente.
Afonso aproximou-se devagar, dando a ela tempo para recuar… mas Jamila permaneceu ali. Quando os lábios dele finalmente tocaram os dela, foi como se o mundo ao redor desaparecesse.
O beijo foi tímido no começo, cheio de medo… mas também de descoberta. Jamila nunca tinha sentido algo assim antes — um misto de calor, emoção e um sentimento que ela nem sabia nomear.
Ela levou a mão ao peito dele, sentindo o coração dele bater tão rápido quanto o seu.
Por um momento, eram apenas dois jovens… sem regras, sem medo, sem o peso do mundo.
Mas a realidade voltou como um choque.
Jamila se afastou de repente, ofegante.
— Não… não podemos… — ela disse, quase em desespero. — Se alguém descobre…
Afonso respirava fundo, tentando se recompor.
— Eu não me importo.
— Mas eu me importo! — ela respondeu, com os olhos marejados. — Isso pode acabar com a minha vida…
O silêncio caiu novamente entre eles.
Afonso abaixou a cabeça, entendendo a dor nas palavras dela.
— Eu não quero te fazer m*l… — ele disse.
Jamila engoliu seco, lutando contra o que sentia.
— Então vá… antes que seja tarde.
Ele hesitou por um segundo… como se quisesse dizer algo mais. Mas acabou apenas assentindo.
Antes de sair, lançou um último olhar para ela — um olhar que dizia tudo o que ele não conseguia colocar em palavras.
E então foi embora.
Jamila ficou sozinha no quarto, levando os dedos aos lábios ainda quentes daquele beijo proibido.
Sabia que nada voltaria a ser como antes.
E, no fundo… isso era o que mais a assustava.