Capítulo 12

1110 Words
Afonso não soltou Jamila enquanto voltavam. O caminho até a casa-grande foi rápido, mas carregado de tensão. Jamila ainda tremia, tentando se recompor, enquanto Afonso caminhava firme, com a raiva estampada no rosto. Ao entrarem, alguns olhares se voltaram imediatamente para eles. — Cadê meu pai? — perguntou Afonso, direto. — No escritório — respondeu um dos empregados, sem entender a urgência. Sem perder tempo, Afonso seguiu até lá. Abriu a porta sem bater. Santiago levantou os olhos, surpreso. — O que é isso, rapaz— Mas parou ao ver Jamila atrás dele, visivelmente abalada. — O feitor — interrompeu Afonso, sem rodeios. — Ele tentou atacar a Jamila de novo. O silêncio caiu pesado no ambiente. Ofélia, que estava sentada próxima, virou o rosto lentamente. — De novo? — disse ela, com um tom controlado. Afonso olhou diretamente para ela. — A senhora mandou ela sozinha até o depósito. Ofélia ergueu uma sobrancelha. — E desde quando isso é problema? — Desde que tem um homem perseguindo ela! — rebateu Afonso, sem esconder a indignação. Santiago se levantou, agora mais sério. — Chega. O tom dele cortou o ar. — Eu já disse que ia observar. — Observar?! — Afonso não conteve. — Ele quase— Parou, olhando para Jamila. — Ele não vai parar — continuou, mais firme. — E da próxima vez pode ser pior. Santiago ficou em silêncio por alguns segundos, analisando a situação. — Você tem certeza do que está dizendo? Afonso deu um passo à frente. — Eu vi. Isso mudou o peso das coisas. Ofélia, porém, se levantou com calma. — Engraçado… — disse ela, andando devagar pelo espaço — porque parece que essa menina vive “atraindo” problemas. Jamila abaixou o olhar imediatamente. Afonso virou-se na mesma hora. — Não fala assim dela. O tom dele foi firme demais. Forte demais. Ofélia percebeu. E aquilo só confirmou o que ela já suspeitava. — Ah… então é isso — disse ela, com um leve sorriso frio. — Você está defendendo ela mais do que deveria. Santiago franziu o cenho. — O que você quer dizer com isso, Ofélia? Ela olhou de Afonso para Jamila. — Quero dizer que talvez o problema não seja só o feitor. O clima ficou ainda mais pesado. — Chega — disse Santiago novamente, agora com mais autoridade. Ele caminhou até a mesa, pensativo. — Se isso é verdade… — começou — eu vou resolver. Afonso não recuou. — Tem que resolver. Santiago olhou para ele. — Eu vou falar com o feitor. E se ele estiver passando dos limites… será punido. Jamila levantou levemente o olhar, surpresa. Era a primeira vez que ele falava em punição. Mas Ofélia apenas observava. Em silêncio. Calculando. Porque, para ela, aquilo ainda podia ser usado. E muito bem usado. — E você — disse Santiago, voltando-se para Jamila — não vai mais sair sozinha. — Sim, senhor — respondeu ela, baixo. Afonso finalmente respirou um pouco mais aliviado. Mas sabia… aquilo ainda não tinha acabado. Porque agora não era só um problema com o feitor. Era dentro da própria casa. E os olhares… já estavam dizendo mais do que palavras. Jamila caminhava apressada pelo corredor, com o coração ainda acelerado depois de tudo que havia acontecido naquele dia. A casa já estava silenciosa, iluminada apenas pelas lamparinas que lançavam sombras suaves nas paredes. Cada passo parecia ecoar mais alto do que o normal, como se até o silêncio a observasse. Ao chegar ao pequeno quarto, ela fechou a porta devagar, apoiando as costas nela por alguns segundos. Levou a mão ao peito, tentando acalmar a respiração. Seus pensamentos estavam confusos… mas um nome insistia em voltar: Afonso. Ela m*l teve tempo de se recompor. — Jamila… A voz veio baixa, quase um sussurro. Ela arregalou os olhos e virou-se rapidamente. Afonso estava ali, parado perto da porta que ela não lembrava de ter deixado aberta. Ele parecia tão nervoso quanto ela — talvez até mais. — O que… o que o senhor está fazendo aqui? — ela perguntou, com a voz trêmula. Ele deu um passo à frente, hesitante. — Eu precisava te ver. O silêncio entre os dois se tornou pesado, carregado de tudo o que ainda não havia sido dito. Jamila abaixou o olhar, tentando manter distância, mas seu corpo não obedecia completamente. — Isso é errado… — ela murmurou. Afonso se aproximou mais um pouco. — Eu sei. Mas não consigo fingir que não sinto nada. Jamila levantou os olhos devagar. Pela primeira vez, ela não viu nele o filho dos seus senhores… viu apenas um rapaz, com o olhar sincero, perdido entre o medo e o desejo. Ele ergueu a mão, como se pedisse permissão, e tocou de leve o rosto dela. Jamila fechou os olhos por um instante, sentindo aquele toque como algo proibido… e ao mesmo tempo impossível de recusar. — Se quiser, eu vou embora agora — ele disse, quase sem voz. Ela não respondeu. Mas também não se afastou. E foi o suficiente. Afonso aproximou-se devagar, dando a ela tempo para recuar… mas Jamila permaneceu ali. Quando os lábios dele finalmente tocaram os dela, foi como se o mundo ao redor desaparecesse. O beijo foi tímido no começo, cheio de medo… mas também de descoberta. Jamila nunca tinha sentido algo assim antes — um misto de calor, emoção e um sentimento que ela nem sabia nomear. Ela levou a mão ao peito dele, sentindo o coração dele bater tão rápido quanto o seu. Por um momento, eram apenas dois jovens… sem regras, sem medo, sem o peso do mundo. Mas a realidade voltou como um choque. Jamila se afastou de repente, ofegante. — Não… não podemos… — ela disse, quase em desespero. — Se alguém descobre… Afonso respirava fundo, tentando se recompor. — Eu não me importo. — Mas eu me importo! — ela respondeu, com os olhos marejados. — Isso pode acabar com a minha vida… O silêncio caiu novamente entre eles. Afonso abaixou a cabeça, entendendo a dor nas palavras dela. — Eu não quero te fazer m*l… — ele disse. Jamila engoliu seco, lutando contra o que sentia. — Então vá… antes que seja tarde. Ele hesitou por um segundo… como se quisesse dizer algo mais. Mas acabou apenas assentindo. Antes de sair, lançou um último olhar para ela — um olhar que dizia tudo o que ele não conseguia colocar em palavras. E então foi embora. Jamila ficou sozinha no quarto, levando os dedos aos lábios ainda quentes daquele beijo proibido. Sabia que nada voltaria a ser como antes. E, no fundo… isso era o que mais a assustava.
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