Capítulo 9

1237 Words
O dia amanheceu como tantos outros — o som do sino, o movimento apressado, o cansaço que parecia nunca ir embora. Mas naquele dia, as mulheres receberam uma ordem diferente: iriam até o rio lavar roupas. Era um trabalho pesado, mas, de certa forma, melhor do que ficar sob o olhar constante dentro da casa-grande. Pelo menos ali havia o céu aberto, o som da água correndo… uma sensação breve de liberdade. Jamila seguiu com as outras, carregando uma bacia cheia de roupas. Chinara caminhava ao seu lado, sempre atenta. — Fica perto de mim — disse, em voz baixa. Jamila assentiu. Ao chegarem no rio, começaram o trabalho. Algumas se ajoelhavam nas pedras, esfregando tecidos com força, outras torciam as peças pesadas, deixando a água escorrer de volta para o rio. O sol subia rápido, e o calor aumentava. Com o tempo, as roupas iam sendo lavadas… e o esforço deixava todas cansadas e molhadas. Jamila, concentrada, não percebeu quando sua blusa branca ficou completamente encharcada, colando em seu corpo. Algumas mulheres trocaram olhares discretos, entendendo o risco… mas ninguém disse nada. Mais afastado, escondido entre as árvores, o feitor observava. Silencioso. Esperando. Seus olhos estavam fixos em Jamila, com uma intenção que já não deixava dúvidas. O tempo passou, e aos poucos algumas mulheres começaram a se afastar, levando as roupas limpas de volta para a fazenda. Jamila ficou por último, juntando o restante das peças. — Já tô indo — disse ela para Chinara, que estava mais adiante. — Não demora — respondeu Chinara, ainda ocupada. Jamila pegou a bacia, virou-se para subir o pequeno caminho de volta… E foi quando sentiu. Uma mão forte puxando seu braço com violência. A bacia caiu no chão. — Eu esperei por esse momento — a voz do feitor veio carregada, próxima demais. Jamila tentou se soltar imediatamente. — Me solta! Mas ele a puxou com força, prensando-a contra si. — Para de fugir de mim — disse ele, tentando segurá-la ainda mais firme. — Você sabe que isso ia acontecer. Jamila lutava, desesperada. — NÃO! Ele tentou aproximar o rosto, forçando um beijo. Jamila virou o rosto, se debatendo, empurrando com toda força que tinha. — Socorro! O grito ecoou pelo espaço. E, dessa vez… alguém ouviu. Passos rápidos se aproximaram. — LARGA ELA! A voz de Afonso veio firme, cortando o ar. O feitor se virou no mesmo instante, surpreso. Afonso apareceu entre as árvores, com o olhar tomado de raiva. — Eu disse pra largar! Sem hesitar, ele avançou. O feitor soltou Jamila, mas logo se colocou à frente, tentando manter a postura. — Isso não é da sua conta, rapaz. Afonso não parou. — Ela trabalha pra minha família — respondeu, com firmeza. — E você não encosta nela. O clima ficou tenso. Por um segundo, parecia que o feitor iria reagir. Mas algo no olhar de Afonso… o fez recuar. — Isso não acabou — disse ele, com um tom ameaçador, antes de se afastar. O silêncio caiu pesado. Jamila ainda estava tremendo. Afonso se aproximou rapidamente. — Você tá bem? Ela não conseguiu responder de imediato. Apenas assentiu, tentando segurar as lágrimas. Ele olhou para ela com preocupação… e algo mais profundo. — Ele te machucou? Jamila negou com a cabeça. — Eu… eu consegui fugir… Afonso respirou fundo, claramente tentando conter a raiva. — Ele não vai mais chegar perto de você. Jamila levantou o olhar. — Você não pode garantir isso… As palavras dela eram cheias de realidade. Afonso ficou em silêncio por um instante. — Então eu vou fazer o que for preciso. O jeito que ele disse aquilo… fez o coração de Jamila apertar. Ao longe, as outras mulheres começavam a se aproximar, atraídas pelos gritos. Chinara veio correndo. — O que aconteceu?! Jamila olhou para ela, ainda abalada. — Ele… Chinara entendeu na mesma hora. Seu olhar foi direto para o caminho por onde o feitor havia ido. Cheio de revolta. Mas também de medo. Afonso permaneceu ao lado de Jamila. E naquele momento, tudo havia mudado mais uma vez. O perigo, que antes era silencioso… agora tinha sido exposto. E isso poderia trazer consequências ainda maiores. Afonso não ficou mais um segundo ali. Assim que teve certeza de que Jamila estava de pé e segura, ele se virou e saiu em passos rápidos — quase correndo — de volta para a casa-grande. O maxilar travado, o olhar duro… a raiva ainda pulsava dentro dele. Na casa, Sol percebeu imediatamente. — O que aconteceu? — perguntou, levantando-se. Afonso passou a mão no rosto, tentando se controlar. — O feitor… — disse, ainda ofegante — ele tentou agarrar a Jamila no rio. O rosto de Sol perdeu a cor. — O quê?! Sem pensar duas vezes, ela saiu andando pela casa em direção ao escritório do pai. — Pai! — chamou, entrando sem cerimônia. Santiago levantou os olhos, surpreso com a urgência. — O que foi, Sol? — A Jamila não pode continuar dormindo na senzala! — disse ela, direto, o coração acelerado. Ofélia, que estava sentada próxima, franziu o cenho imediatamente. — E por que não? — questionou, com desconfiança. Sol respirou fundo, tentando organizar as palavras. — Porque… — começou, inventando rápido — ela e a Chinara podem ficar mais úteis dentro da casa. À noite também. Ofélia cruzou os braços. — Úteis como? — Se eu precisar de alguma coisa… se sentir fome, medo… ou até se a senhora precisar — disse Sol, olhando também para a mãe. — Elas estariam mais próximas. Santiago ficou em silêncio por um momento, analisando. — E desde quando você se preocupa tanto assim com isso? — perguntou ele, desconfiado. Sol hesitou por um segundo… mas sustentou. — Desde sempre. Afonso, parado próximo à porta, apenas observava. — Além disso — continuou Sol — a casa é grande. Tem quartos vazios. Não faz diferença. Ofélia soltou um pequeno riso irônico. — Faz sim. Escravos têm lugar. O clima pesou. Mas Santiago levantou a mão, pedindo silêncio. Ele pensou por alguns segundos… e então tomou sua decisão. — Está bem. Sol arregalou levemente os olhos. — Elas podem dormir em um dos quartos vazios. Ofélia virou o rosto, claramente contrariada. — Isso é um absurdo, Santiago. — É prático — respondeu ele, simples. — E não muda nada no resto. Ofélia não respondeu, mas seu olhar deixava claro que não estava satisfeita. Sol, por outro lado, não conseguiu esconder o alívio. — Obrigada, pai. Ela saiu quase correndo dali. Do lado de fora, encontrou Chinara e Jamila chegando, ainda abaladas. — Vocês não vão mais dormir na senzala — disse Sol, sem esconder a urgência. — Vão ficar na casa. Jamila ficou surpresa. — Como assim? — Eu convenci meu pai — explicou Sol, com um pequeno sorriso. — Dei um jeito. Chinara olhou para ela com atenção, entendendo que aquilo era mais do que um simples gesto. Era proteção. Jamila sentiu um nó na garganta. — Obrigada… Sol se aproximou e segurou a mão dela. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. Afonso, que observava de longe, finalmente relaxou um pouco. Mas Ofélia, da janela da casa-grande, assistia a tudo. Em silêncio. Com um olhar que não prometia tranquilidade. E enquanto Jamila entrava pela primeira vez para dormir dentro da casa… ela sentia que aquilo podia ser um alívio. Mas também… o começo de novos conflitos.
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