O dia amanheceu como tantos outros — o som do sino, o movimento apressado, o cansaço que parecia nunca ir embora. Mas naquele dia, as mulheres receberam uma ordem diferente: iriam até o rio lavar roupas.
Era um trabalho pesado, mas, de certa forma, melhor do que ficar sob o olhar constante dentro da casa-grande. Pelo menos ali havia o céu aberto, o som da água correndo… uma sensação breve de liberdade.
Jamila seguiu com as outras, carregando uma bacia cheia de roupas. Chinara caminhava ao seu lado, sempre atenta.
— Fica perto de mim — disse, em voz baixa.
Jamila assentiu.
Ao chegarem no rio, começaram o trabalho. Algumas se ajoelhavam nas pedras, esfregando tecidos com força, outras torciam as peças pesadas, deixando a água escorrer de volta para o rio.
O sol subia rápido, e o calor aumentava.
Com o tempo, as roupas iam sendo lavadas… e o esforço deixava todas cansadas e molhadas. Jamila, concentrada, não percebeu quando sua blusa branca ficou completamente encharcada, colando em seu corpo.
Algumas mulheres trocaram olhares discretos, entendendo o risco… mas ninguém disse nada.
Mais afastado, escondido entre as árvores, o feitor observava.
Silencioso.
Esperando.
Seus olhos estavam fixos em Jamila, com uma intenção que já não deixava dúvidas.
O tempo passou, e aos poucos algumas mulheres começaram a se afastar, levando as roupas limpas de volta para a fazenda.
Jamila ficou por último, juntando o restante das peças.
— Já tô indo — disse ela para Chinara, que estava mais adiante.
— Não demora — respondeu Chinara, ainda ocupada.
Jamila pegou a bacia, virou-se para subir o pequeno caminho de volta…
E foi quando sentiu.
Uma mão forte puxando seu braço com violência.
A bacia caiu no chão.
— Eu esperei por esse momento — a voz do feitor veio carregada, próxima demais.
Jamila tentou se soltar imediatamente.
— Me solta!
Mas ele a puxou com força, prensando-a contra si.
— Para de fugir de mim — disse ele, tentando segurá-la ainda mais firme. — Você sabe que isso ia acontecer.
Jamila lutava, desesperada.
— NÃO!
Ele tentou aproximar o rosto, forçando um beijo.
Jamila virou o rosto, se debatendo, empurrando com toda força que tinha.
— Socorro!
O grito ecoou pelo espaço.
E, dessa vez…
alguém ouviu.
Passos rápidos se aproximaram.
— LARGA ELA!
A voz de Afonso veio firme, cortando o ar.
O feitor se virou no mesmo instante, surpreso.
Afonso apareceu entre as árvores, com o olhar tomado de raiva.
— Eu disse pra largar!
Sem hesitar, ele avançou.
O feitor soltou Jamila, mas logo se colocou à frente, tentando manter a postura.
— Isso não é da sua conta, rapaz.
Afonso não parou.
— Ela trabalha pra minha família — respondeu, com firmeza. — E você não encosta nela.
O clima ficou tenso.
Por um segundo, parecia que o feitor iria reagir.
Mas algo no olhar de Afonso… o fez recuar.
— Isso não acabou — disse ele, com um tom ameaçador, antes de se afastar.
O silêncio caiu pesado.
Jamila ainda estava tremendo.
Afonso se aproximou rapidamente.
— Você tá bem?
Ela não conseguiu responder de imediato. Apenas assentiu, tentando segurar as lágrimas.
Ele olhou para ela com preocupação… e algo mais profundo.
— Ele te machucou?
Jamila negou com a cabeça.
— Eu… eu consegui fugir…
Afonso respirou fundo, claramente tentando conter a raiva.
— Ele não vai mais chegar perto de você.
Jamila levantou o olhar.
— Você não pode garantir isso…
As palavras dela eram cheias de realidade.
Afonso ficou em silêncio por um instante.
— Então eu vou fazer o que for preciso.
O jeito que ele disse aquilo… fez o coração de Jamila apertar.
Ao longe, as outras mulheres começavam a se aproximar, atraídas pelos gritos.
Chinara veio correndo.
— O que aconteceu?!
Jamila olhou para ela, ainda abalada.
— Ele…
Chinara entendeu na mesma hora.
Seu olhar foi direto para o caminho por onde o feitor havia ido.
Cheio de revolta.
Mas também de medo.
Afonso permaneceu ao lado de Jamila.
E naquele momento, tudo havia mudado mais uma vez.
O perigo, que antes era silencioso…
agora tinha sido exposto.
E isso poderia trazer consequências ainda maiores.
Afonso não ficou mais um segundo ali.
Assim que teve certeza de que Jamila estava de pé e segura, ele se virou e saiu em passos rápidos — quase correndo — de volta para a casa-grande. O maxilar travado, o olhar duro… a raiva ainda pulsava dentro dele.
Na casa, Sol percebeu imediatamente.
— O que aconteceu? — perguntou, levantando-se.
Afonso passou a mão no rosto, tentando se controlar.
— O feitor… — disse, ainda ofegante — ele tentou agarrar a Jamila no rio.
O rosto de Sol perdeu a cor.
— O quê?!
Sem pensar duas vezes, ela saiu andando pela casa em direção ao escritório do pai.
— Pai! — chamou, entrando sem cerimônia.
Santiago levantou os olhos, surpreso com a urgência.
— O que foi, Sol?
— A Jamila não pode continuar dormindo na senzala! — disse ela, direto, o coração acelerado.
Ofélia, que estava sentada próxima, franziu o cenho imediatamente.
— E por que não? — questionou, com desconfiança.
Sol respirou fundo, tentando organizar as palavras.
— Porque… — começou, inventando rápido — ela e a Chinara podem ficar mais úteis dentro da casa. À noite também.
Ofélia cruzou os braços.
— Úteis como?
— Se eu precisar de alguma coisa… se sentir fome, medo… ou até se a senhora precisar — disse Sol, olhando também para a mãe. — Elas estariam mais próximas.
Santiago ficou em silêncio por um momento, analisando.
— E desde quando você se preocupa tanto assim com isso? — perguntou ele, desconfiado.
Sol hesitou por um segundo… mas sustentou.
— Desde sempre.
Afonso, parado próximo à porta, apenas observava.
— Além disso — continuou Sol — a casa é grande. Tem quartos vazios. Não faz diferença.
Ofélia soltou um pequeno riso irônico.
— Faz sim. Escravos têm lugar.
O clima pesou.
Mas Santiago levantou a mão, pedindo silêncio.
Ele pensou por alguns segundos… e então tomou sua decisão.
— Está bem.
Sol arregalou levemente os olhos.
— Elas podem dormir em um dos quartos vazios.
Ofélia virou o rosto, claramente contrariada.
— Isso é um absurdo, Santiago.
— É prático — respondeu ele, simples. — E não muda nada no resto.
Ofélia não respondeu, mas seu olhar deixava claro que não estava satisfeita.
Sol, por outro lado, não conseguiu esconder o alívio.
— Obrigada, pai.
Ela saiu quase correndo dali.
Do lado de fora, encontrou Chinara e Jamila chegando, ainda abaladas.
— Vocês não vão mais dormir na senzala — disse Sol, sem esconder a urgência. — Vão ficar na casa.
Jamila ficou surpresa.
— Como assim?
— Eu convenci meu pai — explicou Sol, com um pequeno sorriso. — Dei um jeito.
Chinara olhou para ela com atenção, entendendo que aquilo era mais do que um simples gesto.
Era proteção.
Jamila sentiu um nó na garganta.
— Obrigada…
Sol se aproximou e segurou a mão dela.
— Eu não vou deixar nada acontecer com você.
Afonso, que observava de longe, finalmente relaxou um pouco.
Mas Ofélia, da janela da casa-grande, assistia a tudo.
Em silêncio.
Com um olhar que não prometia tranquilidade.
E enquanto Jamila entrava pela primeira vez para dormir dentro da casa…
ela sentia que aquilo podia ser um alívio.
Mas também…
o começo de novos conflitos.