Jamila permaneceu ali por mais alguns minutos, com o coração ainda acelerado. Seus dedos tocavam a pulseira no pulso, como se quisesse confirmar que aquilo era real. O vento da noite era suave, e o céu continuava coberto de estrelas… mas a tranquilidade já não era a mesma.
Um barulho atrás dela.
Passos.
Pesados.
Lentos.
O corpo de Jamila se enrijeceu antes mesmo de ela se virar. Algo dentro dela já sabia.
Quando virou o rosto, lá estava ele.
O feitor.
Encostado na sombra, observando.
O mesmo olhar de antes… mas agora mais direto, mais intenso. Não havia mais disfarce.
— Sozinha essa hora? — disse ele, dando um passo à frente.
Jamila deu um passo para trás automaticamente.
— Eu… já estava voltando.
— Calma… — respondeu ele, com um meio sorriso que não trazia conforto algum. — Não precisa fugir de mim.
Mas ela já estava com medo.
Muito medo.
Ele continuou se aproximando devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Eu venho te olhando faz tempo… — disse, a voz mais baixa. — Só que agora…
Seus olhos percorreram Jamila de cima a baixo.
— Agora você não é mais uma menina.
Jamila sentiu o coração disparar.
— Me deixe ir — pediu, tentando manter a voz firme, mesmo com o medo crescendo.
Ele riu baixo.
— Ir? — repetiu. — Depois de tudo que eu esperei?
Mais um passo.
Jamila recuou.
— Ninguém vai aparecer… ninguém vai te ouvir — continuou ele, com um tom cada vez mais perigoso. — E eu posso te tratar bem… melhor do que muitos aqui.
— Não! — disse ela, mais firme agora, tentando se afastar.
Mas ele foi mais rápido.
Segurou o braço dela com força.
Jamila se debateu imediatamente.
— Me solta!
— Para de lutar — rosnou ele, tentando puxá-la para perto. — Você devia agradecer!
O medo virou desespero.
Jamila reuniu forças que nem sabia que tinha e conseguiu se soltar com um puxão brusco.
Sem pensar duas vezes, saiu correndo.
Os pés batiam forte na terra, o coração parecia querer sair do peito. Ela nem olhou para trás.
Só corria.
Corria como se sua vida dependesse disso.
E talvez dependesse.
Ao longe, a senzala apareceu.
Jamila entrou quase sem ar, assustada, tremendo.
Alguns que ainda estavam acordados se levantaram imediatamente.
— O que foi? — perguntou Chinara, correndo até ela.
Jamila não conseguiu responder de imediato. O corpo inteiro tremia.
— Ele… — tentou falar, com a voz falhando — o feitor…
Chinara entendeu antes mesmo da frase terminar.
Seus olhos se fecharam por um segundo, carregados de uma dor antiga… conhecida.
Ela puxou Jamila para perto, abraçando-a com força.
— Calma… você tá aqui… você tá segura agora.
Mas Jamila sabia.
Aquilo não tinha acabado.
Do lado de fora, a noite continuava a mesma.
Silenciosa.
Mas agora… carregada de perigo.
E pela primeira vez…
o medo que Jamila sentia não era só do trabalho, nem do castigo.
Era de algo ainda pior.
Algo que ela sabia que poderia voltar.
Chinara manteve Jamila abraçada por um tempo, sentindo o corpo da jovem ainda tremendo. Aos poucos, foi guiando ela até se sentar em um canto da senzala, longe dos olhares curiosos.
— Respira, menina… respira — dizia, passando a mão em seus cabelos com carinho.
Jamila tentou se acalmar, mas o medo ainda estava ali, vivo dentro dela.
— Ele… ele tentou… — sua voz falhou novamente.
Chinara fechou os olhos por um instante. Quando voltou a falar, sua expressão estava mais séria… mais pesada.
— Eu sei.
Jamila levantou o olhar, surpresa.
— Você precisa ter mais cuidado agora — continuou Chinara, em tom firme, mas cheio de preocupação. — Você cresceu… e aqui isso, muitas vezes, vira perigo.
Jamila abaixou o olhar, segurando a própria mão, onde a pulseira ainda estava.
— Eu tive medo… achei que…
— Escuta — interrompeu Chinara, se aproximando mais. — Tem coisas que eu nunca quis te contar… mas talvez tenha chegado a hora.
O silêncio ao redor parecia proteger aquele momento.
Chinara respirou fundo antes de continuar.
— Quando eu era mais nova… trabalhava em outra fazenda. Um lugar muito pior do que esse.
A voz dela mudou. Ficou mais distante… como se estivesse revivendo tudo.
— Lá… não existia limite. Nem respeito. Nem esperança.
Jamila ouviu em silêncio, com o coração apertado.
— Um dos feitores começou a me olhar do mesmo jeito que esse olha pra você — continuou. — No começo, eu tentei evitar… fugir… me esconder.
Ela parou por um segundo, os olhos marejados.
— Mas teve um dia… que eu não consegui.
Jamila sentiu um aperto no peito.
Chinara continuou, com a voz baixa, mas firme:
— Ele me forçou. Tirou de mim algo que eu nunca pude escolher entregar.
O silêncio ficou ainda mais pesado.
Jamila levou a mão à boca, chocada.
— Depois disso… eu tive um filho.
Um pequeno sorriso triste apareceu no rosto de Chinara, misturado com dor.
— Ele era tudo pra mim… tudo.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Mas não demorou muito… venderam ele.
Jamila sentiu as lágrimas descerem também.
— E você… nunca mais viu?
Chinara negou com a cabeça.
— Nunca. E depois… me venderam também.
Ela olhou ao redor da senzala, como se comparasse passado e presente.
— Foi assim que eu vim parar aqui, na fazenda do senhor Santiago.
Jamila ficou em silêncio, absorvendo cada palavra.
— Ele… — continuou Chinara — não é um homem bom… mas perto do outro senhor… ele é melhor. Aqui pelo menos não existe aquela mesma crueldade constante.
Ela segurou o rosto de Jamila com delicadeza.
— Mas isso não quer dizer que você está segura.
As palavras foram diretas.
— Homem como aquele feitor… não precisa de ordem pra fazer m*l.
Jamila assentiu lentamente, ainda abalada.
— Então o que eu faço?
Chinara pensou por um instante.
— Evita ficar sozinha. Principalmente à noite. E… — ela hesitou — toma cuidado com quem te olha demais.
O olhar dela dizia mais do que as palavras.
Jamila pensou imediatamente em Afonso… mas não disse nada.
Chinara se levantou devagar.
— Eu não pude me proteger… — disse, com firmeza — mas você ainda pode.
Jamila segurou a mão dela.
— Eu não vou deixar isso acontecer comigo.
Chinara assentiu, com um leve orgulho no olhar.
— É assim que começa… a força.
Lá fora, a noite seguia silenciosa.
Mas dentro de Jamila…
algo havia mudado.
O medo ainda existia.
Mas agora… vinha acompanhado de consciência.
E de uma determinação que começava a nascer.