Capítulo 7

1215 Words
O tempo passou como o vento que atravessava os campos da fazenda — silencioso, mas constante. Os dias duros continuaram, um após o outro, mas Jamila já não era mais a menina assustada que havia chegado ali. Agora, prestes a completar 18 anos, ela havia se tornado uma jovem de presença marcante. Sua beleza chamava atenção por onde passava, mas havia também algo em seu olhar… uma força silenciosa, moldada pelos anos de luta e resistência. Na senzala, Chinara organizava tudo com cuidado. Mesmo com poucos recursos, ela havia conseguido separar um pouco de farinha, açúcar e alguns ingredientes simples. Com esforço e carinho, preparou um pequeno bolo — algo raro, quase um luxo naquele lugar. — Hoje é um dia importante — disse Chinara, ajeitando o pano sobre uma pequena mesa improvisada. — Você merece lembrar que nasceu… que existe… e que é mais do que tudo isso aqui. Jamila olhava emocionada. — Ninguém nunca fez isso por mim… — murmurou, com os olhos marejados. Quando a noite caiu, alguns escravos se reuniram em silêncio na senzala. Não havia música alta, nem festa como na casa-grande… mas havia algo muito mais verdadeiro: união. Chinara colocou o bolo no centro. — Faça um pedido — disse, com um leve sorriso. Jamila fechou os olhos. Por um instante, não havia senzala… não havia dor… só um desejo profundo de liberdade. Antes que pudesse soprar, passos se aproximaram do lado de fora. Todos ficaram tensos. Mas, para surpresa geral, quem apareceu foram Sol e Afonso. Sol, agora com 13 anos, entrou primeiro, com o mesmo brilho no olhar de quando era criança — mas mais madura. — A gente soube… — disse ela, sorrindo. — Não dava pra deixar passar. Atrás dela, Afonso surgiu. Mais velho, postura firme… mas o olhar ao encontrar Jamila denunciava algo que ele já não conseguia esconder. — Feliz aniversário, Jamila — disse ele, com uma voz mais baixa, quase cuidadosa. O silêncio tomou conta do ambiente por um instante. A presença deles ali… na senzala… era incomum. Quase proibida. Sol se aproximou animada e estendeu um pequeno embrulho. — É simples… mas eu pensei em você. Jamila, hesitante, pegou o presente. Ao abrir, encontrou um lenço delicado, de tecido leve, com pequenos detalhes bordados. Algo bonito. Algo raro. — É… lindo — disse ela, emocionada. — Muito obrigada, sinhazinha. — Não me chama assim hoje — respondeu Sol, quase ofendida. — Hoje é seu dia. Afonso observava em silêncio. Seus olhos não saíam de Jamila. — Você mudou muito… — ele acabou dizendo, sem perceber. Jamila abaixou o olhar, sentindo o coração acelerar. — O tempo muda todo mundo, senhor. — Nem tudo — respondeu ele, com um leve tom firme. — Algumas coisas… só ficam mais fortes. Chinara, atenta, percebeu o clima. Deu um passo à frente, tentando manter o equilíbrio da situação. — Agradecemos a visita… mas já está tarde. Afonso assentiu, entendendo o recado. Sol, antes de sair, abraçou Jamila rapidamente. — Você merece coisas boas… nunca esquece disso. Quando eles foram embora, o silêncio permaneceu por alguns segundos… até que, aos poucos, os sorrisos voltaram. Jamila segurava o lenço com cuidado, como se fosse algo precioso demais. Mas, no fundo, não era só o presente que mexia com ela. Era o jeito que Afonso a olhava. Era a forma como algo entre eles crescia… mesmo sem palavras. Chinara se aproximou, baixinho: — Cuidado, menina… Jamila olhou para ela. — Nem todo sentimento pode ser vivido sem dor. Jamila respirou fundo, ainda sentindo o calor daquele momento. Pela primeira vez em muito tempo… seu coração estava dividido entre o que sentia… e o que sabia que era impossível. Depois que o bolo foi dividido e cada um saboreou seu pequeno pedaço — como se fosse algo sagrado — a senzala aos poucos foi se aquietando. Os sorrisos ainda estavam ali, mas o cansaço do dia falava mais alto. Jamila, porém, não conseguiu dormir. O coração ainda estava acelerado… pelas emoções, pelas palavras, pelos olhares. Com cuidado, ela se levantou sem fazer barulho e saiu para fora. A noite estava calma, iluminada por um céu cheio de estrelas. O vento leve tocava seu rosto, trazendo uma sensação rara de paz. Ela respirou fundo, olhando para cima. — Tão longe… — murmurou, pensando em tudo o que nunca poderia alcançar. — Nem tudo está tão longe assim. A voz atrás dela fez seu corpo estremecer levemente. Era Afonso. Ela se virou, surpresa. — Senhor… o que faz aqui? Ele deu alguns passos, parando a uma distância segura — mas próxima o suficiente para que o silêncio entre eles tivesse peso. — Eu podia te fazer a mesma pergunta. Jamila abaixou o olhar, um pouco sem jeito. — Só… queria um pouco de ar. Afonso assentiu, olhando também para o céu. — Eu vinha aqui quando era mais novo… achava que as estrelas traziam respostas. — E trazem? — ela perguntou, quase num sussurro. Ele deu um leve sorriso. — Ainda estou esperando. O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente. Não era pesado… era cheio de algo não dito. Afonso então colocou a mão no bolso, como se tomasse coragem. — Eu trouxe uma coisa pra você. Jamila franziu levemente a testa, curiosa. Ele tirou uma pequena pulseira. Simples, mas bonita — feita com cuidado, com detalhes delicados que não eram comuns naquele lugar. — Eu vi isso e… pensei em você. Jamila ficou sem reação por um instante. — Eu não posso aceitar, senhor… — Não me chama assim — ele interrompeu, com suavidade, mas firme. — Pelo menos agora. Ela hesitou. — Isso não é certo… Afonso se aproximou um pouco mais. — Eu sei. O olhar dele encontrou o dela. — Mas isso aqui… — ele levantou a pulseira — não é sobre regras. Com cuidado, ele pegou a mão de Jamila. O toque foi leve… mas suficiente para fazer o coração dela disparar. Devagar, ele colocou a pulseira em seu pulso. Jamila não conseguiu se mexer. — Pronto — disse ele, quase em um sussurro. Ela olhou para o objeto, depois para ele. — Por quê? — perguntou, com a voz baixa, carregada de sentimentos que ela m*l entendia. Afonso demorou um segundo para responder. — Porque você merece mais do que esse lugar. As palavras ficaram no ar. Jamila sentiu um nó na garganta. — O senhor não devia dizer essas coisas… — Talvez não — respondeu ele. — Mas isso não muda o que é verdade. O silêncio voltou… mas agora carregado de algo mais forte, mais perigoso. Jamila deu um pequeno passo para trás, tentando recuperar o controle. — Se alguém vê… — Eu sei. Ele respirou fundo. — Eu só queria te dar isso. Ela segurou a pulseira com cuidado, como se fosse algo frágil demais. — Obrigada… Afonso assentiu, mas não saiu imediatamente. Seus olhos ainda estavam nela… como se quisesse dizer mais, mas não pudesse. Por fim, ele se virou. — Boa noite… Jamila. Foi a primeira vez que disse o nome dela daquela forma. Sem distância. Sem barreiras. Jamila ficou ali, parada, observando ele se afastar. O céu continuava cheio de estrelas… mas agora, dentro dela, havia algo ainda mais intenso brilhando. Algo bonito. E ao mesmo tempo… perigoso.
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