Capítulo 6

1075 Words
O sol ainda nem havia surgido por completo quando a fazenda de Santiago já despertava. O dia começava cedo para os escravos — cedo demais. O som do sino ecoava pelo pátio, cortando o silêncio da madrugada e arrancando todos de um descanso curto e muitas vezes inquieto. Jamila acordava junto com as outras mulheres na senzala. O lugar era simples, abafado e com pouca ventilação. As paredes de barro guardavam o calor durante o dia e o frio durante a noite. Os colchões eram improvisados com palha, e o espaço era dividido entre muitos, sem qualquer privacidade. Chinara, sempre atenta, já estava de pé antes mesmo do sino tocar. — Levanta, menina… quanto mais rápido a gente se organizar, menos bronca a gente leva — sussurrava ela, tocando de leve o ombro de Jamila. Do lado de fora, os homens já eram conduzidos para o campo. O trabalho na lavoura era pesado: plantar, capinar, colher sob o sol forte, com pouca água e quase nenhum descanso. Alguns carregavam sacos pesados, outros lidavam com ferramentas rudimentares que machucavam as mãos já calejadas. Os feitores vigiavam tudo. Sempre com olhares duros e chicotes nas mãos, prontos para punir qualquer sinal de cansaço ou desobediência. As mulheres, como Jamila e Chinara, geralmente ficavam entre a casa-grande e tarefas mais leves — mas isso não significava facilidade. Cozinhar, lavar roupas, limpar, cuidar das crianças… o trabalho nunca acabava. Jamila cuidava de Sol, e apesar do carinho sincero da menina, isso também era uma responsabilidade perigosa. Qualquer pequeno acidente, qualquer arranhão, já era motivo para castigo. A comida era escassa. Pela manhã, recebiam algo simples — farinha, às vezes um pouco de café fraco. No almoço, feijão ralo, raramente carne. Muitos comiam rápido, quase em silêncio, sabendo que o descanso era curto. Mesmo em meio à dureza, havia pequenos momentos de humanidade. À noite, quando o trabalho acabava e o céu se enchia de estrelas, alguns se reuniam em silêncio na senzala. Ali, compartilhavam histórias, cantavam baixinho, lembravam de suas terras, de suas famílias. Era nesses momentos que Jamila sentia algo diferente… uma mistura de saudade e esperança. — Você ainda sonha em ser livre? — perguntou ela certa noite a Chinara. Chinara ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o céu pela pequena a******a da parede. — Sonhar… ninguém pode tirar isso da gente — respondeu, com um leve sorriso triste. Mas nem todos os dias terminavam em paz. Quando algo dava errado, o castigo vinha rápido e c***l. Gritos às vezes ecoavam pela fazenda, lembrando a todos da realidade em que viviam. Ofélia, com seu olhar severo, não tolerava falhas, principalmente das escravas da casa. Santiago, por outro lado, era mais silencioso. Não interferia muito, mas também não impedia. Sua indiferença muitas vezes doía tanto quanto a crueldade. E no meio de tudo isso, Jamila crescia. Entre o medo e a coragem. Entre a dor e pequenos gestos de afeto. Entre a dura realidade… e um sentimento novo que começava a surgir sem que ela percebesse completamente — especialmente quando cruzava o olhar com Afonso. Algo estava mudando. E ela ainda não sabia o quanto isso poderia transformar tudo. Jamila havia passado horas ajudando na casa-grande — lavando roupas, organizando os quartos e auxiliando na cozinha. O trabalho parecia não ter fim, mas naquele dia havia uma pequena mudança na rotina. Sol apareceu correndo, com um sorriso animado. — Jamila! Vamos passear hoje! Mamãe deixou! Jamila se surpreendeu. Não era comum sair apenas para caminhar, ainda mais sem uma tarefa específica. Ainda assim, assentiu com um leve sorriso. — Vamos sim, sinhazinha. Chinara, ao ver a cena, apenas lançou um olhar discreto para Jamila — um olhar de aviso, quase como se dissesse: cuidado. As duas saíram pelos arredores da fazenda. O caminho era de terra batida, cercado por árvores e pelo verde que contrastava com a dureza da vida ali. Sol corria, colhendo flores, rindo com a leveza de quem não conhecia o peso daquele lugar. — Olha, Jamila! Essa é bonita, né? — dizia ela, mostrando uma flor simples, mas cheia de cor. Jamila sorriu de verdade. — É linda, sim. Por alguns instantes, ela conseguiu esquecer onde estava. Sentiu o vento no rosto, o sol aquecendo a pele… quase como uma lembrança distante de liberdade. Mas aquela sensação não durou muito. Mais adiante, encostado próximo a uma cerca, estava um dos feitores. Alto, postura rígida, olhar pesado. Ele não desviava os olhos. Jamila sentiu o corpo enrijecer na mesma hora. O homem observava cada movimento dela… mas não era um olhar comum de vigilância. Havia algo mais ali — algo que fez um desconforto subir pelo peito de Jamila. Sol, inocente, nem percebeu. — Vamos até ali! — disse a menina, puxando a mão de Jamila. O feitor se aproximou lentamente, o som dos passos pesados na terra chamando atenção. — Passeando, é? — disse ele, com um tom que não era exatamente amigável. Jamila abaixou o olhar, como havia aprendido. — Sim, senhor. A sinhazinha quis sair um pouco. O homem não respondeu de imediato. Seus olhos passaram por Jamila de forma lenta, avaliando… como se ela fosse mais um objeto da fazenda. — Bonita você… — murmurou ele, quase como se falasse consigo mesmo. Jamila sentiu um arrepio. Seu coração acelerou, mas ela permaneceu em silêncio. Sol franziu a testa, sem entender. — Vamos, Jamila! — insistiu a menina, puxando-a novamente. O feitor deu um meio sorriso, mas não impediu. Apenas continuou olhando enquanto elas se afastavam. Jamila só voltou a respirar com mais calma quando já estavam longe. — Você tá estranha… — comentou Sol, inclinando a cabeça. Jamila forçou um sorriso. — Não é nada, sinhazinha. Mas era. E ela sabia. Quando voltaram para a casa-grande, Chinara percebeu imediatamente o olhar diferente de Jamila. — O que aconteceu? — perguntou, em voz baixa, enquanto dobrava um pano. Jamila hesitou, mas respondeu: — O feitor… ele ficou olhando… de um jeito estranho. Chinara fechou os olhos por um segundo, como se já conhecesse aquela história antes mesmo de ela terminar. — Fique atenta, menina… — disse, séria. — Tem olhar que traz problema. Jamila assentiu, sentindo um peso crescer dentro dela. Naquela fazenda, não bastava apenas trabalhar e obedecer. Havia perigos que não vinham do chicote… mas dos olhos. E, pela primeira vez, Jamila começou a entender que sua beleza, em vez de proteção… poderia se tornar mais um risco.
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