Capitulo 5

1157 Words
O sol já começava a desaparecer no horizonte quando a carruagem finalmente chegou à casa. O silêncio dominava o caminho de volta, mas o clima era pesado — Jamila sentia isso no peito. Sabia que Ofélia não deixaria aquilo passar. Assim que desceram, Ofélia nem esperou. Sua voz cortou o ar, fria e autoritária: — Jamila, venha comigo. Agora. Jamila engoliu seco, abaixando a cabeça e seguindo até a sala. Suas mãos tremiam levemente. Chinara observava de longe, apreensiva, sem poder interferir. Ao entrar, Ofélia fechou a porta com força. — Você me fez passar vergonha! — disse, andando de um lado para o outro. — Uma escrava se achando no direito de aparecer daquela forma… chamando atenção! Jamila tentou falar, com a voz baixa: — Eu… só fiz o que mandaram, senhora… — Cala-se! — Ofélia gritou. Ela se aproximou, erguendo a mão como se fosse bater. Jamila fechou os olhos, se preparando… — MÃE, NÃO! A porta se abriu de repente. Sol entrou correndo, com os olhos cheios de lágrimas, ficando na frente de Jamila. — A culpa não é dela! Fui eu que quis levar ela! — disse, firme, mesmo sendo pequena. Logo atrás, Afonso apareceu, sério, encarando a mãe: — A senhora está sendo injusta. Jamila não fez nada de errado. Ofélia olhou incrédula para os dois filhos. — Vocês estão me desafiando agora? — Não é desafio — respondeu Afonso, calmo, mas firme. — É o certo. Nesse momento, Santiago apareceu na porta, atraído pela discussão. Ele observou a cena por alguns segundos antes de falar: — Já chega, Ofélia. Ela virou-se para ele, indignada: — Você vai permitir isso? Seus filhos defendendo uma escrava? Santiago cruzou os braços. — Eu vou permitir justiça. E, pelo que vi, ela não merece castigo nenhum. O silêncio tomou conta da sala. Ofélia respirava com raiva, sentindo-se contrariada por todos os lados. Sol segurou a mão de Jamila com força, como se estivesse protegendo algo precioso. Afonso permaneceu ao lado delas, firme. Por fim, Ofélia abaixou a mão lentamente, ainda furiosa. — Isso não acabou… — disse, antes de sair da sala, batendo a porta. Jamila ainda estava imóvel, surpresa… mas, pela primeira vez, não estava sozinha. Sol sorriu para ela, tentando acalmá-la. — Eu não vou deixar ninguém te machucar. Afonso concordou com um leve aceno. E naquele momento, algo mudava dentro daquela casa… algo que Ofélia começava a perder: o controle. A sala ainda parecia carregar o peso da discussão, mas aos poucos tudo foi se acalmando. Santiago saiu em silêncio, e Sol, ainda segurando a mão de Jamila, sorriu com carinho. — Vem, vamos sair daqui… — disse a menina, puxando-a suavemente. Os três foram para o jardim, onde o ar fresco ajudava a aliviar a tensão. O céu já estava escuro, com algumas estrelas começando a aparecer. Sol logo se distraiu, correndo atrás de uma borboleta que ainda voava por ali. Isso deixou Jamila e Afonso sozinhos por alguns instantes. O silêncio entre os dois era diferente… não era pesado, mas tímido. Afonso foi o primeiro a falar: — Você tá bem? Jamila hesitou por um momento, olhando para o chão. — Tô… já estou acostumada… Afonso franziu a testa, incomodado com aquela resposta. — Não devia estar acostumada com isso. Ela levantou o olhar, surpresa com o tom dele. Ninguém nunca tinha dito algo assim. — Aqui… é assim que as coisas são — respondeu, com a voz baixa. Afonso deu um passo mais perto. — Nem tudo precisa continuar sendo. Jamila sentiu o coração acelerar. Havia algo diferente nele… algo que ela não entendia completamente, mas que a fazia se sentir… segura. — Por que você me defendeu? — ela perguntou, quase num sussurro. Afonso não desviou o olhar. — Porque foi injusto. E… — ele hesitou por um segundo — porque eu me importo. O silêncio voltou, mas dessa vez carregado de emoção. Jamila não sabia o que dizer. Nunca ninguém tinha dito aquilo para ela. Sol voltou correndo, rindo: — Vocês estão muito quietos! Afonso sorriu de leve, mas seus olhos ainda estavam em Jamila. — Só conversando. Sol olhou de um para o outro, desconfiada, mas logo deu de ombros. — Vamos brincar! Ela puxou Jamila, e aos poucos o clima ficou mais leve. Pela primeira vez em muito tempo, Jamila riu… de verdade. Mas, enquanto brincavam, Afonso observava. E naquele instante, ele percebeu algo que já não podia negar… Jamila não era apenas alguém que ele queria proteger. Era alguém que estava começando a mexer com o coração dele. A noite já havia caído por completo. A casa estava silenciosa, iluminada apenas pelas luzes suaves dos corredores. No quarto do casal, Ofélia caminhava de um lado para o outro, claramente inquieta. Santiago estava sentado, tirando as luvas com calma, como se não quisesse alimentar a tensão. — Você viu? — Ofélia disse de repente, parando e olhando para ele. — Vi muita coisa hoje… — respondeu ele, sem pressa. — Não se faça de desentendido, Santiago. — A voz dela ficou mais firme. — Eu vi o jeito que o Afonso olhou para aquela menina. Santiago suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Ele só estava defendendo alguém que estava sendo tratado com injustiça. Ofélia soltou uma risada seca. — Não. Não foi só isso. Aquilo… — ela hesitou, mas logo continuou — aquilo foi sentimento. Santiago levantou o olhar, agora mais atento. — Ele é jovem, Ofélia. — E ela é uma escrava! — ela rebateu, com dureza. — Você entende o que isso significa? O silêncio pairou por alguns segundos. — Eu entendo — disse Santiago, mais sério. — Mas também entendo que não se controla o que se sente. Ofélia se aproximou, encarando-o. — Pois eu controlo o que acontece dentro dessa casa. Santiago se levantou lentamente. — Cuidado, Ofélia. Quanto mais você tentar forçar, pior pode ficar. Ela cruzou os braços, irritada. — Eu não vou permitir que meu filho se envolva com ela. Isso seria uma vergonha. — Vergonha é injustiça — respondeu ele, firme. — E foi isso que você fez hoje. Ofélia o encarou, ferida no orgulho. — Então você está do lado deles? Santiago não hesitou: — Estou do lado do que é certo. Isso a fez respirar fundo, tentando conter a raiva. Seus olhos então ganharam um brilho diferente… mais frio, calculista. — Se há algo acontecendo… — disse ela, lentamente — eu vou acabar com isso antes que cresça. Santiago percebeu o tom, mas não respondeu de imediato. Apenas a observou, como se já previsse problemas. — Não transforme isso em algo pior do que já é — ele alertou. Ofélia virou-se de costas. — Já é pior do que você imagina. Enquanto isso, do lado de fora, o vento soprava pelas janelas… como se anunciasse que algo estava prestes a mudar. Ofélia agora não via Jamila apenas como uma serva… Mas como uma ameaça.
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