Capitulo 4

954 Words
Jamila permaneceu quieta depois da bronca de Ofélia. Seus olhos, antes encantados com as luzes e a música da festa, agora estavam baixos, carregados de vergonha e medo. Ela se afastou um pouco, ficando perto de uma coluna, como se tentasse desaparecer no meio de tanta gente importante. Afonso não conseguiu tirar aquela cena da cabeça. A forma como sua mãe falou… o jeito que Jamila ficou, imóvel, como se já estivesse acostumada com aquilo. Aquilo o incomodou profundamente. Ele respirou fundo, criando coragem, e caminhou até ela. — Jamila… — chamou, em voz baixa. Ela levantou os olhos rapidamente, assustada, como se esperasse outra repreensão. Ao ver que era Afonso, apenas abaixou a cabeça novamente. — Desculpa, senhorzinho… — disse quase num sussurro. — Eu não quis fazer nada de errado. Afonso franziu a testa ao ouvir aquilo. A forma como ela falava… como se sempre estivesse errada. — Ei, não precisa me chamar assim — respondeu ele, um pouco sem jeito. — E você não fez nada de errado. Jamila hesitou. Aquilo era estranho demais para ela. — Mas… a sinhá Ofélia… — Minha mãe exagerou — interrompeu ele, olhando ao redor para se certificar de que ninguém estava ouvindo. — Eu… eu só queria saber se você está bem. Ela demorou alguns segundos para responder. Ninguém nunca perguntava aquilo. — Estou, sim… — mentiu, com a voz fraca. Afonso percebeu. Ele não era ingênuo. — Você pode falar a verdade comigo — disse ele, mais baixo ainda. — Eu não vou te machucar. Jamila apertou as mãos contra o vestido verde que Chinara havia arrumado para ela. Um vestido tão bonito… e agora parecia pesado em seu corpo. — Eu só… não queria estragar a festa — confessou, com os olhos marejados. — Eu não estou acostumada com essas coisas. Afonso sentiu um aperto no peito. — Você não estragou nada — respondeu com firmeza. — Na verdade… — ele hesitou, mas decidiu falar — quando eu te vi… você estava… muito bonita. Jamila arregalou levemente os olhos, surpresa. Aquela era, provavelmente, a primeira vez que alguém dizia algo assim para ela. Ela não soube o que responder. Apenas abaixou o olhar, mas dessa vez havia algo diferente… um pequeno brilho, tímido. — Obrigada… — murmurou. Por um instante, o barulho da festa pareceu desaparecer para os dois. Mas aquele momento não passou despercebido. Do outro lado do salão, Ofélia observava. Seus olhos frios se estreitaram ao ver o filho conversando com Jamila daquela forma. E naquele instante, algo ficou claro: Aquilo não iria acabar bem. Enquanto isso, Afonso ainda não sabia… mas aquele simples gesto de bondade começava a mudar tudo.Ofélia não tirava os olhos dos dois. O sorriso leve que surgira no rosto de Jamila foi o suficiente para acender algo duro dentro dela. Aquilo não era permitido. Não naquela casa. Não com o seu filho. — Santiago… — disse ela, em tom baixo, sem desviar o olhar. — Está vendo aquilo? O senhor Santiago seguiu a direção dos olhos da esposa e suspirou, já prevendo o problema. — É só uma conversa, Ofélia… — Não é “só uma conversa” — respondeu ela, fria. — Aquela menina está esquecendo o lugar dela. Enquanto isso, sem perceber o perigo que crescia ao redor, Afonso tentava manter a conversa. — Você… gostou da festa? — perguntou, meio sem jeito. Jamila olhou ao redor. As luzes, os vestidos, a música… tudo parecia tão distante agora. — É bonita… — disse ela com sinceridade. — Mas não é lugar pra mim. Afonso ficou em silêncio por um momento. Aquilo o incomodava mais do que ele queria admitir. — E se fosse? — ele perguntou, impulsivamente. Jamila o olhou, confusa. — Não pode ser — respondeu com simplicidade. — Eu sei quem eu sou. Antes que Afonso pudesse responder, uma voz firme cortou o momento: — Jamila! O corpo dela enrijeceu imediatamente. Ofélia se aproximava, com passos controlados, mas com o olhar carregado de autoridade. — Eu mandei você ficar perto de Sol — disse, sem sequer cumprimentar o filho. — Ou agora você também decidiu ignorar ordens? — Desculpe, sinhá… — Jamila abaixou a cabeça rapidamente. Afonso se colocou levemente à frente dela, sem pensar muito. — Mãe, fui eu que chamei ela pra conversar. Ofélia arqueou uma sobrancelha, surpresa com a atitude do filho. — Pois não faça isso novamente — respondeu, seca. — Você não precisa desse tipo de companhia. O clima pesou. Afonso sentiu o rosto esquentar, mas não recuou. — Ela não fez nada de errado. O silêncio ao redor pareceu aumentar, como se até a música tivesse diminuído. Ofélia se aproximou mais, agora olhando diretamente nos olhos do filho. — E você está começando a fazer — disse, em tom baixo, porém firme. — Não me desafie em público. Afonso travou o maxilar, segurando a resposta que queria dar. Jamila, percebendo a tensão, deu um passo para trás. — A culpa foi minha… — disse rapidamente. — Eu já vou voltar pra perto da sinhazinha Sol. Ofélia não respondeu. Apenas a observou se afastar. Jamila saiu dali com o coração acelerado, tentando não chorar. Cada passo parecia mais pesado que o outro. Afonso ficou parado, olhando ela ir embora. E naquele instante, algo dentro dele mudou de vez. Ele não via mais Jamila apenas como “a menina que cuidava de sua irmã”. Ele via a injustiça. E isso… ele não conseguia mais ignorar. Do outro lado do salão, Chinara observava tudo em silêncio. Ela conhecia aquele olhar. Sabia exatamente o que estava começando ali. E também sabia… Que quando sentimentos começam a nascer em lugares proibidos, o destino costuma cobrar um preço alto.
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