Capítulo 22

1199 Words
Santiago e Afonso já tinham saído cedo naquela manhã, sem imaginar o que estava acontecendo na casa grande. No quarto, Sol chorava desesperada, trancada. — Jamila… — repetia, abraçada aos próprios braços, sentindo a culpa apertar o peito. — A culpa é minha… Ela batia na porta, pedia para sair, mas ninguém respondia. Não havia como ajudar. Na sala, o clima era sufocante. Jamila estava parada, com o olhar baixo, tentando se manter firme. A mãe de Sol não escondia a fúria. — Faça — ordenou ao feitor, fria. Ele não se mexeu. — Senhora… — começou, controlado — o senhor Santiago deixou claro que ninguém deve ser castigado sem a ordem dele. Ela virou o rosto lentamente, incrédula. — Você está me desobedecendo? — Estou seguindo as ordens dele. O silêncio ficou pesado. Mas a raiva dela explodiu. — Inútil! Num movimento rápido, ela arrancou o chicote da cintura dele. Jamila m*l teve tempo de reagir. O primeiro golpe veio forte. O som ecoou na sala. Jamila caiu de joelhos, soltando um gemido de dor, mas tentando conter o choro. Outro golpe. E outro. O feitor travou por um segundo… vendo aquilo acontecer. Algo dentro dele estalou. Ele avançou e segurou o braço da mulher antes do próximo golpe. — Chega! — disse, firme. Ela o encarou, furiosa. — Me solta! — Eu não posso permitir isso — respondeu, sério. — O senhor Santiago foi claro. O clima ficou tenso, quase perigoso. Por um instante, parecia que ela iria enfrentá-lo. Mas então, respirou fundo, com ódio. — Isso não acabou. Ela soltou o chicote com força. — Leve ela daqui! Jamila estava no chão, machucada, chorando baixo, tentando respirar entre a dor. Sem cuidado, a mulher a puxou pelo braço, obrigando-a a levantar. — Você vai aprender — disse, fria. Arrastou Jamila pelos corredores até um quarto isolado — escuro, fechado, usado para punições. Abriu a porta com força e praticamente a jogou lá dentro. Jamila caiu no chão, sem forças. A porta foi trancada. O som do ferro fechando ecoou como sentença. Do lado de fora, o feitor ficou parado. O maxilar travado. Os punhos fechados. E, pela primeira vez… Sentiu que tinha perdido o controle da situação. Dentro do quarto, Jamila chorava em silêncio. Não só pela dor. Mas por tudo. E, naquele momento… Tudo parecia mais escuro do que nunca. O silêncio do quarto era sufocante. Jamila estava caída no chão, tentando controlar a respiração entrecortada. Cada movimento fazia o corpo doer, mas a dor maior vinha de dentro… do medo, da humilhação, da sensação de não ter saída. Ela levou a mão ao rosto, tentando abafar o choro. — Eu só queria ajudar… — sussurrou. As lágrimas escorriam sem controle. Do lado de fora, o feitor não saiu dali. Ficou parado por alguns instantes, olhando para a porta fechada, como se pudesse enxergar através dela. A imagem de Jamila sendo atingida não saía da sua cabeça. Aquilo não era para ter acontecido. Ele passou a mão pelo rosto, irritado consigo mesmo. — Eu devia ter impedido antes… — murmurou. Mas agora já era tarde. Ou talvez não. Ele olhou ao redor, certificando-se de que ninguém estava por perto… e se aproximou da porta. Ficou alguns segundos em silêncio. Então bateu de leve. — Jamila… — chamou, baixo. Lá dentro, ela demorou a responder. Estava fraca, confusa. — …tô aqui… — disse, quase sem voz. O feitor fechou os olhos por um instante, aliviado por ouvi-la. — Me desculpa… — falou, sincero. — Eu tentei evitar… Jamila não respondeu de imediato. Mas ouvir aquilo… de alguma forma, a atingiu. — Não foi culpa sua… — disse, com dificuldade. O silêncio voltou. — Eu vou tirar você daí — afirmou ele, mais firme. Ela franziu levemente a testa, mesmo sem vê-lo. — Não… — murmurou — se alguém vê… — Eu não me importo. Dessa vez, havia decisão na voz dele. Ele olhou novamente ao redor… e então puxou a chave. A fechadura fez um pequeno barulho. A porta se abriu devagar. A luz entrou no quarto escuro. Jamila levou a mão aos olhos, sensível à claridade. Ele entrou. E, ao vê-la daquele jeito… machucada, caída, frágil… Algo dentro dele apertou de verdade. Sem dizer nada, se aproximou. — Vem… — disse, mais suave. Ela tentou se levantar… mas não conseguiu. Ele hesitou por um segundo… e então a ajudou, com cuidado. Dessa vez, sem pressa. Sem força. Apenas apoio. Jamila segurou nele, ainda fraca. — Pra onde…? — perguntou, confusa. Ele pensou por um instante. — Pra um lugar seguro. Ela não sabia se aquilo era verdade. Mas, naquele momento… Não tinha forças para duvidar. E, pela primeira vez… Se deixou ser ajudada por ele. Sem saber que aquela decisão… Podia mudar tudo novamente. Jamila tentou dar um passo, apoiada nele… mas parou. O medo falou mais alto. — Não… — disse, recuando com dificuldade. — Eu não posso sair daqui. O feitor franziu a testa. — Você não pode ficar aqui nesse estado. Ela balançou a cabeça, mesmo sentindo dor. — Se ela voltar e não me encontrar… vai ser pior. Muito pior. O silêncio caiu entre os dois. Ele sabia que ela tinha razão. Aquela mulher não deixaria passar. Ele passou a mão pelo rosto, pensativo, irritado com a situação. — Droga… Jamila respirava com dificuldade, tentando se manter firme. — Eu aguento… — disse, mais baixa. Ele olhou para ela por alguns segundos… avaliando. Não gostava daquilo. Mas também não podia arriscar mais naquele momento. — Tá… — respondeu, por fim. — Mas eu não vou te deixar assim. Ela levantou o olhar, surpresa. Ele não disse mais nada. Apenas se virou e saiu rapidamente, fechando a porta com cuidado, como se nada tivesse acontecido. Algum tempo depois, voltou. Discreto. Olhou ao redor antes de abrir a porta novamente. Entrou e fechou atrás de si. Nas mãos, trazia um pequeno recipiente com água, algumas folhas amassadas — remédios simples, feitos do jeito que conhecia — e um pouco de comida. — Toma… — disse, se aproximando. — Isso vai ajudar. Jamila hesitou por um instante… mas acabou aceitando. Estava fraca demais para recusar. Ele se ajoelhou um pouco mais próximo, com cuidado. — Isso pode arder um pouco… — avisou. Ela assentiu levemente. Com delicadeza, ele começou a passar o preparado nas marcas, evitando machucar mais do que já estava. Jamila apertou os olhos, segurando a dor… mas percebeu que, aos poucos, aquilo realmente aliviava. Depois, ele entregou a água. — Bebe. Ela bebeu devagar. Em seguida, pegou um pouco da comida, ainda em silêncio. O ambiente era estranho. Carregado… mas diferente. — Obrigada… — disse ela, baixinho. Ele não respondeu de imediato. Apenas a observou por um instante. — Descansa — falou, por fim. — Eu volto depois pra ver como você tá. Jamila assentiu, mais tranquila do que antes. Mesmo com tudo… Sentia que não estava completamente sozinha. O feitor então se levantou. Antes de sair, olhou mais uma vez para ela… como se quisesse dizer algo, mas não encontrasse palavras. E então saiu. Fechando a porta novamente. Como se nada tivesse acontecido. Mas, por dentro… Tudo já estava mudando.
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