Capítulo 23

903 Words
Chinara caminhou até o quarto com o coração apertado. A ordem tinha vindo direta: abrir a porta de Sol. Ela destrancou devagar. Assim que a porta se abriu, Sol praticamente avançou. — Cadê a Jamila?! — perguntou, desesperada. Chinara não conseguiu segurar. As lágrimas vieram na hora. — Levaram ela… — disse, com a voz falhando. — Sua mãe mandou… e… bateu nela… O rosto de Sol perdeu a cor. — Não… — sussurrou. Sem pensar duas vezes, ela saiu correndo pelo corredor. Sol foi direto até o feitor, que estava do lado de fora, tentando manter a rotina como se nada tivesse acontecido. — Onde tá a Jamila?! — exigiu, ofegante. Ele olhou para ela, sério. — Ela tá isolada. — Você fez isso com ela?! — acusou, com os olhos cheios de lágrimas. O feitor respondeu firme: — Não. Sol travou. — Quem fez foi sua mãe. O silêncio caiu pesado. — Eu tentei impedir — continuou ele. — Mas ela não quis ouvir. Sol sentiu o peito apertar ainda mais. — Você tá mentindo… — Não tô. O olhar dele era direto. Sem desviar. E, pela primeira vez… Sol percebeu que ele estava falando a verdade. Ela não disse mais nada. Apenas se virou… E foi direto para dentro da casa. A porta da sala se abriu com força. — Mãe! A mulher virou-se, incomodada com o tom. — O que foi isso agora? Sol estava furiosa. — Por que você bateu na Jamila?! O olhar da mulher endureceu na hora. — Abaixe o tom quando falar comigo. — Não vou abaixar! — respondeu Sol, com lágrimas nos olhos. — Ela não fez nada! — Não fez nada? — rebateu a mãe, irritada. — Ela deixou você se comportar como uma qualquer naquela festa! — Eu não sou uma qualquer! — Então comece a agir como uma dama! O clima ficou tenso, pesado. — A culpa não foi dela! — insistiu Sol. — Eu quis ir! — E ela devia ter te impedido! — Ela tentou! O silêncio caiu por um segundo. Mas a raiva da mulher não diminuiu. — Eu faço o que for necessário pra proteger essa família. — Machucar alguém inocente não é proteger! — gritou Sol. A mãe se aproximou, com o olhar duro. — Você ainda é uma menina. Não entende o mundo. Sol encarou de volta. — E você acha que entende tudo? Até machucar quem não merece? A tensão entre as duas era visível. Nunca tinham se enfrentado assim. — Chega — disse a mãe, fria. — Essa conversa acabou. — Não acabou! — respondeu Sol. — Eu não vou deixar a Jamila sofrer por minha causa! As duas se encaravam. De um lado, autoridade. Do outro, coragem. A discussão ainda estava acesa quando a porta principal se abriu. Santiago e Afonso entraram. Os dois perceberam na hora que algo estava errado. — O que está acontecendo aqui? — perguntou Santiago, com a voz firme. O silêncio caiu por um segundo. Mas Sol não hesitou. — Aconteceu que a mamãe mandou bater na Jamila! — disse, com a voz tremendo, mas cheia de coragem. Afonso travou. — O quê? Santiago virou lentamente o olhar para a esposa. — Isso é verdade? Antes que ela respondesse, Sol continuou, sem conseguir se segurar: — Foi por causa da festa! Mas a culpa foi minha! Eu quis ir! Eu quis falar com o Artur! A mãe tentou interromper: — Sol— — Não! — cortou ela. — A Jamila não tem culpa de nada! A sala ficou pesada. — E se isso é o problema… — continuou Sol, respirando fundo — então eu digo logo: eu gosto do Artur. E vou ficar com ele. O silêncio foi absoluto. — Sol… — disse Santiago, mais sério. Mas ela não recuou. — Eu não vou deixar outra pessoa pagar pelos meus erros. Afonso não esperou mais. O coração já estava acelerado desde a primeira frase. Ele saiu correndo. Sem pensar, atravessou os corredores, procurando. — Jamila! — chamou, desesperado. Até que encontrou. A porta do quarto isolado estava entreaberta. Ele entrou. E a cena fez seu coração apertar. Jamila estava no chão. Machucada. Fraca. Sozinha. — Jamila… — disse, correndo até ela. Ela abriu os olhos com dificuldade. Quando o viu… As lágrimas vieram na hora. — Afonso… Ele se ajoelhou ao lado dela, segurando seu rosto com cuidado. — O que fizeram com você… — sua voz falhou. Ela tentou falar, mas não conseguiu. Apenas chorou. E ele também. — Eu tô aqui… — disse, tentando acalmá-la — eu tô aqui. Poucos segundos depois, passos apressados. Sol chegou. Ao ver a cena, levou a mão à boca, em choque. — Meu Deus… Ela correu até Jamila, ajoelhando ao lado dos dois. — Me perdoa… — disse, chorando. — A culpa foi minha… Jamila tentou negar com a cabeça, mesmo sem forças. — Não foi… Mas a dor falava mais alto. Afonso se levantou com cuidado. — A gente precisa tirar ela daqui. Sol assentiu na hora. Com todo cuidado, os dois ajudaram Jamila a se levantar. Ela m*l conseguia se sustentar. Então, sem pensar duas vezes, Afonso a pegou nos braços. E a levou. Sol foi ao lado, segurando a mão dela. Os três seguiram juntos pelos corredores. Sem se importar com quem visse. Sem se importar com nada. Naquele momento… Só importava uma coisa: Cuidar dela.
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