Chinara caminhou até o quarto com o coração apertado. A ordem tinha vindo direta: abrir a porta de Sol.
Ela destrancou devagar.
Assim que a porta se abriu, Sol praticamente avançou.
— Cadê a Jamila?! — perguntou, desesperada.
Chinara não conseguiu segurar.
As lágrimas vieram na hora.
— Levaram ela… — disse, com a voz falhando. — Sua mãe mandou… e… bateu nela…
O rosto de Sol perdeu a cor.
— Não… — sussurrou.
Sem pensar duas vezes, ela saiu correndo pelo corredor.
Sol foi direto até o feitor, que estava do lado de fora, tentando manter a rotina como se nada tivesse acontecido.
— Onde tá a Jamila?! — exigiu, ofegante.
Ele olhou para ela, sério.
— Ela tá isolada.
— Você fez isso com ela?! — acusou, com os olhos cheios de lágrimas.
O feitor respondeu firme:
— Não.
Sol travou.
— Quem fez foi sua mãe.
O silêncio caiu pesado.
— Eu tentei impedir — continuou ele. — Mas ela não quis ouvir.
Sol sentiu o peito apertar ainda mais.
— Você tá mentindo…
— Não tô.
O olhar dele era direto.
Sem desviar.
E, pela primeira vez… Sol percebeu que ele estava falando a verdade.
Ela não disse mais nada.
Apenas se virou…
E foi direto para dentro da casa.
A porta da sala se abriu com força.
— Mãe!
A mulher virou-se, incomodada com o tom.
— O que foi isso agora?
Sol estava furiosa.
— Por que você bateu na Jamila?!
O olhar da mulher endureceu na hora.
— Abaixe o tom quando falar comigo.
— Não vou abaixar! — respondeu Sol, com lágrimas nos olhos. — Ela não fez nada!
— Não fez nada? — rebateu a mãe, irritada. — Ela deixou você se comportar como uma qualquer naquela festa!
— Eu não sou uma qualquer!
— Então comece a agir como uma dama!
O clima ficou tenso, pesado.
— A culpa não foi dela! — insistiu Sol. — Eu quis ir!
— E ela devia ter te impedido!
— Ela tentou!
O silêncio caiu por um segundo.
Mas a raiva da mulher não diminuiu.
— Eu faço o que for necessário pra proteger essa família.
— Machucar alguém inocente não é proteger! — gritou Sol.
A mãe se aproximou, com o olhar duro.
— Você ainda é uma menina. Não entende o mundo.
Sol encarou de volta.
— E você acha que entende tudo? Até machucar quem não merece?
A tensão entre as duas era visível.
Nunca tinham se enfrentado assim.
— Chega — disse a mãe, fria. — Essa conversa acabou.
— Não acabou! — respondeu Sol. — Eu não vou deixar a Jamila sofrer por minha causa!
As duas se encaravam.
De um lado, autoridade.
Do outro, coragem.
A discussão ainda estava acesa quando a porta principal se abriu.
Santiago e Afonso entraram.
Os dois perceberam na hora que algo estava errado.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Santiago, com a voz firme.
O silêncio caiu por um segundo.
Mas Sol não hesitou.
— Aconteceu que a mamãe mandou bater na Jamila! — disse, com a voz tremendo, mas cheia de coragem.
Afonso travou.
— O quê?
Santiago virou lentamente o olhar para a esposa.
— Isso é verdade?
Antes que ela respondesse, Sol continuou, sem conseguir se segurar:
— Foi por causa da festa! Mas a culpa foi minha! Eu quis ir! Eu quis falar com o Artur!
A mãe tentou interromper:
— Sol—
— Não! — cortou ela. — A Jamila não tem culpa de nada!
A sala ficou pesada.
— E se isso é o problema… — continuou Sol, respirando fundo — então eu digo logo: eu gosto do Artur. E vou ficar com ele.
O silêncio foi absoluto.
— Sol… — disse Santiago, mais sério.
Mas ela não recuou.
— Eu não vou deixar outra pessoa pagar pelos meus erros.
Afonso não esperou mais.
O coração já estava acelerado desde a primeira frase.
Ele saiu correndo.
Sem pensar, atravessou os corredores, procurando.
— Jamila! — chamou, desesperado.
Até que encontrou.
A porta do quarto isolado estava entreaberta.
Ele entrou.
E a cena fez seu coração apertar.
Jamila estava no chão.
Machucada.
Fraca.
Sozinha.
— Jamila… — disse, correndo até ela.
Ela abriu os olhos com dificuldade.
Quando o viu…
As lágrimas vieram na hora.
— Afonso…
Ele se ajoelhou ao lado dela, segurando seu rosto com cuidado.
— O que fizeram com você… — sua voz falhou.
Ela tentou falar, mas não conseguiu.
Apenas chorou.
E ele também.
— Eu tô aqui… — disse, tentando acalmá-la — eu tô aqui.
Poucos segundos depois, passos apressados.
Sol chegou.
Ao ver a cena, levou a mão à boca, em choque.
— Meu Deus…
Ela correu até Jamila, ajoelhando ao lado dos dois.
— Me perdoa… — disse, chorando. — A culpa foi minha…
Jamila tentou negar com a cabeça, mesmo sem forças.
— Não foi…
Mas a dor falava mais alto.
Afonso se levantou com cuidado.
— A gente precisa tirar ela daqui.
Sol assentiu na hora.
Com todo cuidado, os dois ajudaram Jamila a se levantar.
Ela m*l conseguia se sustentar.
Então, sem pensar duas vezes, Afonso a pegou nos braços.
E a levou.
Sol foi ao lado, segurando a mão dela.
Os três seguiram juntos pelos corredores.
Sem se importar com quem visse.
Sem se importar com nada.
Naquele momento…
Só importava uma coisa:
Cuidar dela.