Capítulo 24

1150 Words
Jamila foi deitada com cuidado na cama. Seu corpo ainda tremia, e cada movimento parecia arrancar um suspiro de dor. — Devagar… — disse Afonso, com a voz baixa, tentando não machucá-la mais. Sol não conseguiu ficar parada. — Eu vou chamar a Chinara! E saiu quase correndo. Pouco tempo depois, voltou acompanhada de Chinara, que já trazia tudo nas mãos — folhas amassadas, água morna e um pano limpo. Assim que viu Jamila naquele estado, seus olhos se encheram de lágrimas. — Meu Deus… — sussurrou. Mas, mesmo abalada, se aproximou firme. — Vamos cuidar disso… Jamila assentiu de leve, tentando ser forte. Chinara começou limpando com cuidado as feridas nas costas. O pano molhado tocava a pele machucada, e Jamila apertou os olhos, segurando a dor. — Vai arder um pouco… — avisou Chinara. Sol segurava a mão de Jamila com força. — Aguenta… eu tô aqui… Afonso ficou ao lado, inquieto, sem saber onde colocar as mãos, sentindo a dor dela como se fosse sua. Depois de limpar, Chinara aplicou as folhas, pressionando com delicadeza. — Isso vai ajudar a cicatrizar… Jamila respirava fundo, tentando se acalmar. Afonso então se aproximou com uma xícara. — Toma isso… — disse, ajudando-a a se sentar um pouco. — Vai aliviar a dor. Jamila olhou para ele por um instante… e aceitou. Ele segurou a xícara enquanto ela bebia devagar. O chá quente trouxe um pequeno alívio. — Obrigada… — murmurou, fraca. O silêncio que se seguiu era pesado… mas cheio de cuidado. Sol ainda chorava baixo. — Eu não devia ter deixado aquilo acontecer… Chinara olhou para ela. — Agora o importante é cuidar dela. Afonso concordou. — E isso não vai ficar assim. O tom dele era diferente. Mais firme. Mais decidido. Jamila olhou para ele, ainda fraca… mas, pela primeira vez desde tudo que aconteceu… Sentiu um pouco de segurança. Depois de deixarem Jamila mais confortável, com Chinara cuidando dela, Sol e Afonso se entreolharam. — Isso não acabou — disse Sol, firme, enxugando as lágrimas. Afonso assentiu. Os dois voltaram para a sala. O clima ainda era pesado. Santiago estava sério, tentando entender tudo que tinha acontecido. — Como ela está? — perguntou, direto. — Machucada… muito machucada — respondeu Afonso, com a voz carregada. O olhar de Santiago mudou na hora. — Isso foi longe demais… A mãe de Sol cruzou os braços. — Eu fiz o que era necessário. — Necessário? — retrucou Santiago, sem esconder a insatisfação. — Eu deixei claro que ninguém seria castigado sem a minha ordem. Ela deu um passo à frente, irritada. — Então agora eu não posso mandar na minha própria casa? — Não dessa forma. — Estamos falando de uma escrava! — rebateu ela, com desprezo. — Ela não tem esse valor todo! Sol não aguentou. — Ela tem valor pra mim! — disse, firme, encarando a mãe. O silêncio caiu. — E se a senhora quiser bater em alguém… — continuou Sol, com coragem — então bate em mim! A mãe ficou sem reação por um segundo. — Foi minha escolha! Eu quis ir na festa, eu quis encontrar o Artur! A Jamila não tem culpa de nada! Santiago observava tudo, pensativo, percebendo o tamanho do conflito. Afonso respirou fundo. — Isso não pode continuar assim… — disse, mais calmo, mas firme. — A Jamila não é um objeto. A mãe olhou para ele, surpresa com o tom. — E desde quando você se importa tanto? Ele travou por um segundo. Quase falou. Quase disse tudo. Mas se conteve. Sabia que aquilo podia piorar ainda mais a situação. — Eu só acho injusto — respondeu, desviando. Mas Sol percebeu. O jeito que ele falou. O olhar. A tensão. Ela o encarou por um instante… como se finalmente entendesse algo. E, aos poucos, a expressão dela mudou. Como se uma peça tivesse se encaixado. — Você… — murmurou, quase imperceptível. Afonso evitou o olhar. Mas já era tarde. Sol tinha entendido. O sentimento dele por Jamila não era comum. Era muito mais profundo. E aquilo… Podia complicar tudo ainda mais. Santiago saiu da sala com o semblante fechado. Seus passos eram firmes, carregados de autoridade e irritação. — Traga o feitor — ordenou. Não demorou para que ele aparecesse. — Senhor — disse, respeitoso. Santiago não perdeu tempo. — Eu deixei uma ordem clara: ninguém seria castigado sem o meu consentimento. O feitor assentiu. — Sim, senhor. E eu segui. Santiago franziu a testa. — Explique. O feitor respirou fundo. — Eu me recusei a bater nela. Disse exatamente isso à senhora… que o senhor tinha proibido. Santiago ficou em silêncio, ouvindo. — Mas ela não quis ouvir — continuou. — Pegou o chicote… e fez aquilo. Nesse momento, a mãe de Sol apareceu ao lado, ouvindo tudo. — Então agora a culpa é minha? — disse, com indignação. Santiago virou-se para ela, sério. — Eu não quero saber de discussão. O silêncio caiu. — Eu deixei uma ordem — continuou ele, firme. — E ela deve ser respeitada. Por todos. Ela o encarou, contrariada. — Inclusive por você. Aquilo a atingiu. — Nunca mais faça isso sem a minha autorização — finalizou Santiago. Ela não respondeu. Mas o olhar mostrava que aquilo não tinha acabado dentro dela. O feitor permaneceu em silêncio, apenas observando. Enquanto isso, em outro canto da casa, Sol chamou Afonso. — Afonso… a gente precisa conversar. Ele percebeu o tom dela. — Fala. Ela o encarou diretamente. — Eu sei. Ele franziu a testa. — Sabe o quê? — Sobre você… e a Jamila. O silêncio veio na hora. Afonso desviou o olhar. — Você tá imaginando coisa… — Não tô — respondeu ela, firme. — Eu vi hoje. Do jeito que você olhou pra ela… do jeito que falou. Ele respirou fundo. Não adiantava negar. Sol se aproximou um pouco mais. — Você gosta dela, não gosta? Mais um silêncio. Mas dessa vez… Ele não fugiu. Afonso levantou o olhar. — Gosto. Sol ficou quieta. — Não… — ele corrigiu, com a voz mais baixa — não é só gostar. Respirou fundo. — Eu tô apaixonado por ela. As palavras saíram. E com elas… um peso que ele carregava sozinho. Sol absorveu aquilo. Sem julgamento. Só surpresa… e preocupação. — Afonso… isso é sério… — Eu sei — respondeu. — Mais do que você imagina. Ela pensou por um momento. — E você vai fazer o quê? Ele olhou para o vazio por um instante. — Ainda não sei… — disse. — Mas eu sei que não vou fingir que isso não existe. Sol suspirou. — Isso pode dar muito problema… — Eu sei. Mas o olhar dele dizia que, mesmo assim… Ele não ia recuar. E Sol percebeu. Aquilo não era passageiro. Era algo que poderia mudar tudo dentro daquela casa. E talvez… Destruir o que eles conheciam como normal.
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