Capítulo 19

921 Words
O feitor se deitou naquela noite, mas o sono não veio fácil. Ficou olhando para o teto, com os pensamentos presos em Jamila. No jeito que ela falava, na dor que carregava… e, inevitavelmente, no olhar dela, nos lábios, na forma como tinha sorrindo mesmo entre lágrimas. Aquilo mexia com ele. De um jeito diferente. — Dá pra conquistar ela… — murmurou para si mesmo. Mas logo franziu a testa. Não sabia como. Não era um homem acostumado a conquistar. Sempre foi temido, respeitado à força… nunca precisou conquistar ninguém de verdade. Virou de lado, inquieto. — Eu dou um jeito… — disse, decidido, antes de fechar os olhos. Enquanto isso, Jamila não conseguiu dormir. Deitada em sua cama, olhava para o vazio, com os olhos marejados. As lembranças vieram fortes — o rosto da mãe, a voz do pai, os irmãos… A promessa. As lágrimas escorriam silenciosas. — Onde vocês estão… — sussurrou. Ela queria acreditar. Queria acreditar que, de alguma forma, ainda existia uma chance de encontrá-los. Mas o medo de se iludir era grande. E ainda assim… aquela pequena esperança não a deixava. O dia amanheceu pesado. Antes mesmo do sol subir completamente, a fazenda já estava em movimento. O trabalho recomeçava, como sempre. Mas havia algo diferente no ar. Tensão. Logo a notícia se espalhou: alguns escravos haviam sido pegos tentando fugir. O clima mudou na mesma hora. Chinara foi uma das primeiras a saber… e não conseguiu conter as lágrimas. — Eles vão sofrer… — disse, com a voz embargada. Jamila sentiu um aperto no peito. Sabia o que aquilo significava. E não conseguiu ficar parada. Sem pensar muito, saiu à procura do feitor. Ele já estava se preparando. O rosto fechado, a postura rígida… pronto para cumprir o papel que sempre desempenhou. Mas, ao vê-la se aproximando, algo mudou. — O que foi? — perguntou, sério. Jamila respirou fundo, tentando controlar a própria emoção. — Por favor… — disse, quase implorando — não faz isso com eles. Ele a encarou, surpreso. — Jamila… — Tenha misericórdia… — continuou ela, com os olhos marejados. — Eles só queriam fugir… ninguém merece isso… O silêncio caiu entre os dois. O feitor olhou para ela. Para os olhos cheios de lágrimas. Para os lábios trêmulos. E, por um momento… Não viu apenas uma escrava. Viu alguém pedindo… de verdade. Aquilo mexeu com ele. Mais do que deveria. Ele desviou o olhar, passando a mão pelo rosto, claramente em conflito. Aquilo ia contra tudo o que sempre fez. Contra tudo o que esperavam dele. Mas… — Tá… — disse, por fim, em voz baixa. Jamila arregalou levemente os olhos. — Eu vou aliviar… — completou. — Não vai ser como de costume. Ela levou a mão à boca, emocionada. — Obrigada… Ele a olhou mais uma vez, ainda sério… mas com algo diferente no olhar. — Vai embora daqui — disse, mais firme. — Não fica perto disso. Jamila assentiu rapidamente. Mas, antes de sair, lançou um último olhar para ele. Um olhar de gratidão. E aquilo… ficou marcado nele. Porque, naquele instante… Ele percebeu que, pela primeira vez… Tinha feito algo não por obrigação. Mas por causa dela. Jamila se afastou apressada, o coração ainda batendo forte. Não queria ver o que aconteceria, mesmo sabendo que, por causa dela, já seria diferente. Do outro lado, alguns dos escravos aguardavam, tensos, preparados para o pior. O feitor caminhou até eles com a postura firme de sempre. O olhar duro ainda estava ali… mas, por dentro, algo havia mudado. Ele parou diante dos homens. O silêncio era pesado. Todos esperavam gritos, violência… o de sempre. Mas não foi isso que veio. — Vocês sabem o que fizeram — disse ele, com a voz firme. — E sabem o que isso costuma trazer. Os homens abaixaram a cabeça. — Mas hoje… — ele fez uma pausa — não vai ser assim. Alguns levantaram o olhar, sem acreditar. — Vão trabalhar dobrado pelos próximos dias. Sem descanso. — continuou. — E eu não quero ver ninguém tentando isso de novo. Era duro… mas não era o castigo que esperavam. Muito longe disso. Os homens assentiram rapidamente, aliviados, mesmo com o cansaço que viria. O feitor deu um último olhar neles e se virou. Por dentro, sentia algo estranho. Não era fraqueza. Era… escolha. Mais tarde, a notícia já tinha se espalhado. — Ele não bateu neles… — disse um, surpreso. — Nunca vi isso… — comentou outro. Chinara, ao ouvir, olhou imediatamente para Jamila. — Foi você, né? Jamila hesitou… mas acabou assentindo de leve. Chinara suspirou. — Isso é bom… — disse — mas também é perigoso. Jamila franziu a testa. — Por quê? — Porque agora ele vai achar que pode conseguir qualquer coisa com você. O silêncio caiu entre as duas. Jamila não respondeu. Mas as palavras ficaram. Mais tarde, enquanto trabalhava, Jamila sentiu um olhar sobre ela. Virou-se. O feitor estava ali, mais distante, observando. Mas, dessa vez, quando seus olhos se encontraram… Ele não desviou. E nem ela. Havia algo novo naquele olhar. Respeito. Interesse. E algo que começava a crescer… sem que nenhum dos dois soubesse até onde iria. Enquanto isso, Afonso observava de outro ponto. E percebeu. Percebeu o jeito que o feitor olhava para Jamila. E o jeito que ela já não demonstrava o mesmo medo de antes. Seu maxilar travou. Algo dentro dele se incomodou. E pela primeira vez… Não era só amor que ele sentia. Era ciúme. E isso… poderia mudar tudo.
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