Capítulo 18

1178 Words
A festa seguiu leve, cheia de risadas e música. Por algumas horas, a fazenda parecia um lugar diferente — mais humano, mais vivo. Sol aproveitou cada instante. Dançou, conversou, riu alto… era, sem dúvida, o centro de tudo naquela noite. Aos poucos, os convidados começaram a se despedir. Um a um, foram indo embora, deixando para trás o eco da alegria que tinham trazido. Quando tudo já estava mais calmo, Sol puxou Jamila e Afonso. — Vamos dar uma volta no jardim? Os três caminharam juntos sob a luz suave da noite. O ar estava fresco, e o silêncio agora era tranquilo. — Jamila… — disse Sol, sorrindo — o vestido ficou lindo em você. Jamila abaixou o olhar, tímida. — Foi você que escolheu… — E você vai ficar com ele — completou Sol. Jamila arregalou levemente os olhos. — Não, Sol… eu não posso— — Pode sim — insistiu ela, firme, mas sorrindo. Afonso riu de leve. — Eu concordo. Jamila olhou para ele… e os dois se encararam por um instante mais longo do que deveriam. Havia ali uma vontade clara, quase impossível de esconder. Mas Sol estava entre eles. E isso bastava para conter qualquer impulso. Jamila respirou fundo. — Obrigada… de verdade. Sol segurou a mão dela, feliz. Depois de mais alguns minutos de conversa, resolveram entrar. O cansaço começava a pesar, e o dia tinha sido longo. Sol se despediu dos dois e foi descansar. Afonso ainda lançou um último olhar para Jamila antes de subir… um olhar cheio de intenção, mas também de cuidado. E então foi embora. Jamila ficou do lado de fora, organizando algumas coisas da festa. Recolhia objetos, ajeitava o que podia, tentando ocupar a mente. Foi quando ouviu passos. Ela se virou rapidamente, assustada. — Calma… — disse o feitor, levantando levemente as mãos. — Tá tudo bem. Jamila respirou fundo, tentando se acalmar. — O senhor me assustou… — Não era a intenção. Ele se aproximou devagar… e, dessa vez, sem tensão, começou a ajudar a arrumar. — A festa ficou bonita — comentou. — Ficou sim… Sol merecia. Ele assentiu. O silêncio veio por alguns segundos, mas não era desconfortável. Então ele olhou para ela, com um ar mais sério. — Posso te perguntar uma coisa? Jamila hesitou. — Pode… — Sua família… — ele disse, com cuidado. — Você ainda pensa neles? O corpo dela ficou rígido na hora. Seus olhos baixaram. Por um momento, ela não respondeu. — Se não quiser falar… — ele começou, percebendo— — Eu lembro… — interrompeu ela, com a voz baixa. O feitor ficou em silêncio, esperando. Jamila respirou fundo. — Meu pai morreu… ainda lá. — Sua voz era calma, mas carregada de dor. — Minha mãe… morreu no navio. O feitor engoliu seco, sem interromper. — E meus irmãos… — ela continuou — quando chegamos aqui… foram vendidos. A palavra saiu pesada. — Eu nunca mais vi eles. O silêncio tomou conta. O feitor olhava para ela com atenção… mas, dessa vez, sem dureza. — Você lembra deles? — perguntou, mais baixo. Jamila assentiu levemente. — Lembro… cada um. — Um pequeno sorriso triste surgiu. — Eu queria… queria muito encontrar eles um dia. O vento passou suave, como se carregasse aquela dor silenciosa. O feitor desviou o olhar por um instante, pensativo. — Talvez… ainda exista uma chance — disse, sem muita convicção, mas tentando confortar. Jamila não respondeu. Mas seus olhos mostravam que aquele desejo ainda vivia forte dentro dela. E, naquele momento, pela primeira vez… O feitor não a via apenas com desejo. Via também a dor que ela carregava. E isso mudava alguma coisa dentro dele. Jamila permaneceu em silêncio por alguns segundos, olhando para o chão. As palavras ainda pesavam dentro dela, como se cada lembrança abrisse uma ferida antiga. — O Brasil é tão grande… — disse, por fim, com a voz fraca. — Como é que eu vou achar eles? Ela respirou fundo, tentando se controlar, mas a dor veio mais forte. — Antes de morrer… minha mãe me fez prometer que eu ia cuidar deles… — sua voz falhou — que eu nunca ia deixar eles sozinhos… Uma lágrima escorreu pelo rosto de Jamila. — E eu falhei… O feitor observou aquilo em silêncio. Algo no jeito dela mexia com ele de um modo diferente do que antes — não era só desejo… havia algo mais ali, ainda confuso. — Ei… — disse, mais baixo, tentando acalmá-la — não fala assim. Ele deu um passo mais próximo, mas sem invadir o espaço dela. — Você não teve escolha. Jamila enxugou o rosto, mas as lágrimas continuavam vindo. — Eu prometi… Ele pensou por um instante… e então falou: — Eu posso tentar ajudar você. Ela levantou o olhar, surpresa. — Como? Ele hesitou, mas manteve a firmeza. — Ainda não sei direito… mas eu conheço muita gente. Outros feitores, homens que trabalham em outras fazendas… gente que circula por aí. Jamila o olhava com atenção, como se estivesse ouvindo algo que nunca imaginou possível. — Posso perguntar… ver se alguém já ouviu falar deles — continuou ele. — Não é garantia… mas é alguma coisa. O silêncio veio… mas, dessa vez, diferente. Jamila sentiu algo novo surgir dentro dela. Esperança. Mesmo entre lágrimas… um pequeno sorriso apareceu. — Obrigada… — disse, emocionada. O feitor assentiu de leve. — Eu vou pensar em alguma forma. Pela primeira vez, Jamila o olhava de um jeito menos defensivo… menos assustado. E isso não passou despercebido por ele. Depois de terminarem de organizar o que faltava, os dois se despediram. — Boa noite — disse ele. — Boa noite… Cada um seguiu para seu lado. Mais tarde, já no quarto, Jamila contou tudo para Chinara. Falou da conversa, das lembranças… e da promessa de ajuda. Chinara ouviu em silêncio, com os braços cruzados, o olhar atento. — E ele disse que vai te ajudar a encontrar seus irmãos? — perguntou, séria. — Disse… — respondeu Jamila. — Ele conhece pessoas… pode tentar descobrir alguma coisa. Chinara ficou em silêncio por alguns segundos. Pensando. Observando cada detalhe. — Jamila… — disse, por fim, com cuidado — abre o olho. Jamila franziu a testa. — Como assim? Chinara suspirou. — Eu posso estar errada… mas esse homem… — ela fez uma pausa — ele tá mudando o jeito com você por um motivo. Jamila ficou confusa. — Que motivo? Chinara a encarou diretamente. — Ele tá começando a gostar de você… ou pelo menos acha que tá. Jamila não respondeu. — E homem assim… — continuou Chinara — pode usar qualquer coisa pra chegar perto. Até a sua dor. O silêncio caiu pesado no quarto. Jamila abaixou o olhar. A esperança que tinha surgido… agora vinha acompanhada de dúvida. — Você acha que ele tá mentindo? — perguntou, baixa. Chinara deu de ombros. — Não sei. Mas eu não confio. Jamila ficou em silêncio. Dividida mais uma vez. Entre o medo… e a esperança de, finalmente, ter alguma notícia de sua família..
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