Alguns dias depois, uma novidade movimentou novamente a casa grande.
Haveria uma festa em uma fazenda vizinha, um pouco distante dali. Um evento maior, com mais gente, mais música… uma oportunidade rara de sair daquele ambiente fechado.
Sol ficou radiante quando soube.
— Eu posso ir? — perguntou a Santiago, quase sem conter a empolgação.
Depois de um momento de silêncio e análise, ele permitiu.
— Mas não vai sozinha — disse, firme. — Jamila vai com você. E um homem vai acompanhar vocês até lá.
Sol concordou na hora.
Mais tarde, no quarto, a animação era evidente.
— A gente precisa caprichar! — disse Sol, abrindo o guarda-roupa.
Jamila tentou recuar.
— Eu posso ir mais simples…
— Nem pensar — respondeu Sol, já escolhendo roupas.
Como da outra vez, ela não deu opção.
Arrumou-se primeiro, escolhendo um vestido bonito, que realçava sua juventude e alegria. Depois, virou-se para Jamila com um brilho no olhar.
— Agora você.
Jamila suspirou… mas já sabia que não adiantava discutir.
Quando terminou de se arrumar, ficou parada por um instante.
Mais uma vez, não estava acostumada a se ver daquele jeito.
O vestido caía bem, valorizando sua beleza natural de forma delicada e elegante.
Sol abriu um sorriso.
— Você tá linda.
Jamila riu de leve, meio sem jeito.
— Você fala isso toda vez…
— Porque é verdade.
As duas saíram acompanhadas por um homem enviado por Santiago, garantindo que chegariam em segurança.
O caminho foi tranquilo, e, ao chegarem, já dava pra ouvir a música e ver a movimentação.
Era uma festa maior do que as da casa grande.
Muita gente, luzes, risadas… um ambiente mais livre.
Sol logo encontrou suas amigas.
— Sol! — gritaram, correndo para abraçá-la.
Jamila ficou um pouco mais atrás, observando, mas logo foi puxada para perto também.
— Quem é ela? — perguntou uma das meninas.
— É a Jamila — respondeu Sol, sorrindo. — Ela tá comigo.
As amigas sorriram, curiosas, mas acolhedoras.
E, aos poucos, Jamila foi se soltando.
As conversas começaram leves… mas, longe dos olhares dos pais e das regras rígidas, logo tomaram outro rumo.
— E os meninos? — perguntou uma delas, rindo.
Sol revirou os olhos, sorrindo.
— Ah… tem um lá do colégio…
As amigas começaram a provocar, curiosas.
— Conta!
— Como ele é?
Sol ficou meio sem graça… mas acabou cedendo.
— Ele é bonito… educado… diferente dos outros.
Jamila observava, ouvindo tudo com atenção.
Era um mundo diferente.
Leve.
Livre.
Quando Sol começou a descrever mais, Jamila não conseguiu segurar e deu uma risadinha.
Sol olhou para ela.
— Tá rindo de quê?
— De você — respondeu Jamila, divertida. — Nunca te vi assim.
As amigas riram juntas.
E, por um momento…
Jamila esqueceu de tudo.
Do medo.
Da dor.
Dos problemas.
Era só mais uma jovem… rindo, conversando, vivendo um instante simples.
Mas, mesmo ali…
O destino ainda tinha outros planos.
Porque, em algum lugar daquela festa…
As risadas continuavam, leves e animadas, quando uma das meninas olhou para o outro lado do salão e arregalou os olhos.
— Sol… — disse, segurando o braço dela — ele tá aqui.
Sol ficou imóvel por um segundo.
— Quem?
— O menino do colégio!
O coração dela acelerou na hora.
— Não… não pode ser…
As amigas já estavam animadas.
— A gente vai fazer vocês dois se encontrarem!
— Não! — disse Sol, nervosa, mas sorrindo ao mesmo tempo.
Jamila, ao lado, ficou tensa.
— Melhor não… — falou, mais séria. — Isso pode dar problema.
Mas ninguém estava disposto a ouvir.
— Ah, Jamila… relaxa! — disse uma das meninas. — É só um encontro!
— Não é tão simples assim… — insistiu ela.
Mas Sol, envolvida pela empolgação, não quis parar.
— Só um pouquinho… — disse, quase implorando.
Jamila suspirou, já prevendo que aquilo não ia acabar bem.
Mesmo assim, tentou mais uma vez:
— Sol… pensa bem…
Mas era tarde.
As amigas já estavam organizando tudo.
Pouco depois, prepararam um “encontro” no jardim da fazenda.
Um lugar mais afastado, com pouca luz, perfeito para uma conversa discreta.
Sol foi levada até lá, nervosa e animada ao mesmo tempo.
Jamila foi junto… mais preocupada do que nunca.
De longe, o rapaz apareceu.
E os dois ficaram frente a frente.
As amigas se esconderam, rindo, enquanto observavam.
Jamila, porém, não achava graça.
Seu olhar estava atento… inquieto.
E não demorou para perceber algo.
O homem enviado por Santiago.
Ele estava ali.
Observando tudo.
Em silêncio.
Jamila sentiu um frio na barriga.
Na manhã seguinte, o clima na casa grande estava pesado.
Muito pesado.
A mãe de Sol já sabia de tudo.
O homem havia contado cada detalhe — o encontro escondido, a conversa, a “armação”.
E, como esperado…
A reação foi de pura raiva.
— Isso é um absurdo! — gritou, furiosa.
Sol tentou se explicar… mas não adiantou.
— E você! — disse ela, voltando-se para Jamila — como deixou isso acontecer?
Jamila ficou em silêncio.
— Eu tentei impedir… — disse, baixa.
— Não foi o suficiente!
O olhar da mulher estava cheio de indignação.
— Você tinha uma responsabilidade!
O silêncio tomou conta do ambiente.
Então ela deu a ordem:
— Quero Jamila na sala. Agora.
E fez uma pausa.
— E tragam o feitor também.
O clima ficou ainda mais tenso.
Jamila sentiu o coração apertar.
Sabia que aquilo não era bom.
Não era nada bom.
Enquanto caminhava até a sala…
A sensação era de que algo sério estava prestes a acontecer.
E, dessa vez…
Ela talvez não conseguisse escapar.