A música preenchia o salão, e aos poucos a festa ficava ainda mais animada.
Casais começavam a dançar no centro, risadas ecoavam, taças se chocavam em brindes.
Sol, como sempre, estava no meio de tudo.
— Vem dançar! — disse, puxando Jamila pela mão.
— Não… eu não sei… — tentou recusar, rindo nervosa.
— Aprende agora!
E antes que pudesse fugir, Jamila já estava sendo levada.
No começo, seus passos eram tímidos, inseguros…
Mas Sol ria, guiava, incentivava.
E, aos poucos…
Jamila se soltou.
Um sorriso verdadeiro apareceu.
Leve.
Livre.
Mais afastado, Afonso observava.
Encantado.
Ver Jamila ali… naquele lugar, naquele vestido… sorrindo daquele jeito…
Mexia com ele de uma forma que não conseguia explicar.
Um homem ao lado comentou:
— Sua irmã é animada.
Afonso nem respondeu.
Porque, naquele momento…
Ele só enxergava uma pessoa.
Tina também observava.
E agora… com mais atenção ainda.
Ela viu.
O olhar de Afonso.
O jeito que ele não conseguia disfarçar.
E viu Jamila…
Sorrindo diferente.
Aquilo não era só amizade.
O olhar de Tina escureceu.
— Então é isso… — pensou.
As peças começavam a se encaixar de vez.
Em outro ponto da festa, Ofélia conversava com algumas mulheres da sociedade.
— Sua filha está linda — disse uma delas.
— Sempre está — respondeu Ofélia, com um sorriso contido.
Mas, ao olhar para o salão…
Seus olhos também passaram por Jamila.
E algo ali a incomodou.
Ela ainda não sabia exatamente o quê.
Mas sentia.
A música mudou.
Mais lenta.
Mais próxima.
Alguns casais se juntaram.
Foi quando Afonso decidiu.
Ele caminhou pelo salão.
Passou por algumas pessoas…
Até chegar perto delas.
— Sol — chamou.
Ela se virou.
— Oi!
— Posso roubar a Jamila um minuto?
Sol olhou para os dois.
E sorriu.
Sabia exatamente o que aquilo significava.
— Pode.
Jamila ficou sem reação.
— Eu…?
Mas já era tarde.
Afonso estendeu a mão.
— Vem.
Ela hesitou.
O coração acelerado.
Mas aceitou.
E foi.
Eles caminharam até o centro.
A música suave envolvia o ambiente.
Ele a puxou com cuidado.
Aproximando.
Respeitando.
Mas firme.
Jamila estava tensa.
— Afonso… não aqui…
— Só dança comigo — disse, baixo.
Ela respirou fundo.
E deixou.
Os dois começaram a dançar.
Lentamente.
Próximos demais para ser apenas uma dança comum.
— Você tá linda… — sussurrou ele.
Jamila sentiu o corpo estremecer.
— Você não devia falar isso aqui…
— Eu não consigo evitar.
Os olhos se encontraram.
Por um segundo…
Parecia que estavam sozinhos.
Mas não estavam.
Do outro lado do salão…
Tina observava.
Atenta.
Agora sem dúvidas.
Aquilo não era imaginação.
Era real.
E perigoso.
Um leve sorriso frio surgiu em seus lábios.
— Agora eu sei… — pensou.
E, naquele instante…
Ela entendeu.
Que tinha nas mãos algo valioso.
Um segredo.
E segredos…
Podiam ser usados.
Enquanto isso, Sol observava de longe.
Sorrindo.
Feliz por eles.
Sem perceber…
Que aquela felicidade…
Podia estar prestes a ser ameaçada.
Enquanto a música seguia suave pelo salão, algumas mulheres começaram a cochichar mais afastadas.
Os olhares… todos na mesma direção.
— Você viu aquilo? — disse uma, discretamente.
— O filho do Santiago… — respondeu outra.
— Dançando com uma escrava.
Ofélia, que estava próxima, ouviu.
Mesmo sem querer.
O corpo dela ficou rígido na hora.
— Deve ser impressão… — tentou disfarçar uma terceira.
— Não é não — insistiu a outra. — É aquela… a que vive com a Sol.
Ofélia virou o rosto devagar.
E viu.
Afonso.
Dançando com Jamila.
Perto demais.
Olhares demais.
Aquilo não era uma dança comum.
O sangue dela ferveu.
O sorriso que mantinha no rosto desapareceu na hora.
Mas, como sempre…
Ela se controlou.
Respirou fundo.
E voltou-se para as mulheres.
— Com licença… — disse, forçando uma calma elegante. — Não estou me sentindo muito bem.
— Oh, claro… — responderam, preocupadas.
— Talvez seja melhor eu voltar.
Sem esperar muito mais, Ofélia se afastou.
Mas o olhar dela, antes de sair…
Foi direto nos dois.
Carregado de raiva.
De reprovação.
E de algo ainda pior.
Decisão.
Pouco tempo depois, ela já estava chamando:
— Sol.
A jovem se aproximou, ainda sorrindo.
— O que foi, mãe?
— Nós vamos embora.
Sol estranhou.
— Mas já?
— Agora.
O tom não deixava espaço para discussão.
Afonso também foi chamado.
— Vamos.
Ele percebeu o clima na hora.
Olhou rapidamente para Jamila.
E entendeu.
Algo tinha sido visto.
O caminho de volta foi em silêncio.
Pesado.
Ofélia não disse uma palavra.
Mas o jeito que ela olhava para frente…
Já dizia tudo.
Sol estava confusa.
Afonso… tenso.
E Jamila, mais quieta do que nunca.
O coração apertado.
Sabia.
Sabia que aquilo não ia passar despercebido.
Ao chegarem na casa grande, Ofélia desceu primeiro.
Virou-se para Afonso.
— Depois eu quero falar com você.
A voz fria.
Controlada.
Mas cheia de raiva.
Ele apenas assentiu.
Jamila nem foi olhada.
Mas, de alguma forma…
Aquilo era ainda pior.
Porque o silêncio de Ofélia…
Nunca era um bom sinal.
A noite pareceu não ter fim.
O silêncio da casa grande era pesado, carregado de tensão. Cada um em seu quarto, preso nos próprios pensamentos.
Jamila quase não dormiu.
Afonso também não.
E Ofélia…
Planejava.
O dia amanheceu cedo, como sempre na fazenda.
O som dos baldes, passos apressados, vozes baixas… tudo voltava ao normal na aparência.
As escravas já estavam em seus afazeres.
Umas na cozinha, outras no pátio, outras cuidando da limpeza.
Jamila tentava agir como se nada tivesse acontecido.
Mas o coração ainda estava inquieto.
Chinara percebeu.
— Fica calma… — murmurou, baixo. — Só não chama atenção.
Jamila apenas assentiu.
Enquanto isso, Tina já estava ao lado de Ofélia.
Arrumava seu cabelo, organizava suas roupas… sempre em silêncio, observando.
Ela sabia.
Algo tinha acontecido na noite anterior.
E estava esperando.
— Chame o Afonso — ordenou Ofélia.
Tina saiu e, pouco depois, voltou com ele.
— A senhora mandou me chamar?
— Sente-se.
O tom era frio.
Sem espaço para gentileza.
Afonso obedeceu, mas já tenso.
Tina permaneceu no canto da sala.
Quieta.
Mas atenta a cada palavra.
Ofélia caminhou lentamente até ficar de frente para ele.
— Quer me explicar o que foi aquilo ontem?
O silêncio pesou.
— Eu não sei do que a senhora está falando — tentou ele.
Ela soltou um leve riso, sem humor.
— Não sabe?
Se aproximou mais.
— Então eu explico.
A voz ficou mais firme.
— Você… dançando no meio de todo mundo… com uma escrava.
Afonso manteve o olhar firme.
— Era só uma dança.
— Não minta pra mim! — cortou ela, com raiva contida. — Não era “só uma dança”.
O silêncio voltou.
— As pessoas comentaram — continuou. — Eu ouvi. Eu vi os olhares.
Ela respirou fundo.
— Você tem noção do que isso significa?
— Eu não fiz nada de errado — respondeu Afonso, mais firme agora.
Os olhos de Ofélia se estreitaram.
— Não fez?
Ela se virou por um instante, tentando se controlar.
— Você é filho de um homem respeitado. Tem nome. Tem posição.
Voltou-se para ele.
— E está se envolvendo com uma escrava?
A palavra saiu carregada de desprezo.
Tina, no canto, ouviu tudo.
E absorvia.
Cada detalhe.
Cada reação.
Afonso apertou o maxilar.
— A Jamila não é só isso.
O silêncio foi imediato.
Ofélia o encarou.
— Cuidado com o que diz.
— Eu tô falando a verdade — respondeu ele. — Ela é uma pessoa.
— Não aqui! — rebateu Ofélia. — Aqui ela é o que sempre foi!
O clima ficou pesado.
Quase sufocante.
— Eu não quero mais ver isso acontecer — disse ela, firme. — Nunca mais.
Uma ordem.
Clara.
Fria.
Sem espaço para discussão.
Afonso se levantou devagar.
— Eu não posso prometer isso.
A frase caiu como uma bomba.
Tina arregalou levemente os olhos.
Ofélia ficou imóvel por um segundo.
— O quê?
— Eu não posso fingir que nada tá acontecendo — disse ele. — Porque tá.
O olhar dele estava firme.
Decidido.
Ofélia respirou fundo… mas agora sem esconder a raiva.
— Então você vai me enfrentar?
— Se for preciso.
O silêncio tomou conta da sala.
Pesado.
Perigoso.
Tina observava tudo.
E, naquele momento…
Entendeu.
Aquilo era maior do que ela imaginava.
Muito maior.
E aquele conflito…
Era a oportunidade perfeita.
Um leve sorriso quase imperceptível surgiu em seu rosto.
Porque agora…
Ela sabia exatamente onde atacar.