Afonso saiu do quarto sem olhar para trás, a respiração pesada, o maxilar travado de raiva. A porta bateu com força, deixando Ofélia sozinha na sala.
— Insolente… — murmurou ela, andando de um lado para o outro. — Ele não sabe o que está fazendo…
O silêncio durou poucos segundos.
— Com licença, senhora…
Ofélia virou-se.
Era Tina, parada com a postura firme, mas respeitosa.
— Fale.
Tina deu um passo à frente.
— Eu… posso dar uma opinião?
Ofélia a analisou por um instante… e assentiu.
— Diga.
Tina falou com calma, escolhendo bem as palavras.
— Talvez… o problema não seja só o senhor Afonso.
Ofélia franziu levemente a testa.
— Como assim?
— Homens… às vezes se confundem — continuou Tina. — Ainda mais quando se trata de uma mulher como Jamila.
Ofélia cruzou os braços, interessada.
— Continue.
— Pode ser que ele ache que sente algo… — disse Tina — mas isso pode não ser amor. Pode ser só… desejo.
Ofélia ficou em silêncio.
Aquilo fazia sentido para ela.
— E se for isso… — Tina deu um leve passo mais próximo — então dá pra quebrar.
— Como? — perguntou Ofélia, agora mais envolvida.
Tina então respondeu, com firmeza:
— Fazendo a Jamila acreditar que ele não é só dela.
O olhar de Ofélia mudou.
— Ciúme…
Tina assentiu.
— Se ela achar que ele está interessado em outra… que pode trocá-la… ela mesma se afasta.
Ofélia ficou pensativa.
— Porque, no fim… — completou Tina — quem mais tem a perder… é ela.
O silêncio caiu por alguns segundos.
E então…
Um leve sorriso surgiu no rosto de Ofélia.
— Interessante…
Ela começou a andar pela sala, pensando.
— Muito interessante…
Agora a mente dela já trabalhava.
Quem?
Como?
De que forma?
Até que parou.
Olhou diretamente para Tina.
E, naquele instante…
Teve a ideia.
Um sorriso mais frio apareceu.
— Acho que já sei exatamente como fazer isso.
Tina não reagiu de imediato.
Mas, por dentro…
Entendeu.
— Você — disse Ofélia, se aproximando. — Vai me ajudar.
O olhar de Tina encontrou o dela.
— Sim, senhora.
E assim…
Um novo jogo começava.
Baseado em manipulação.
Ciúme.
E mentira.
Ofélia caminhava de um lado para o outro, agora mais calma… mas com um plano se formando claramente em sua mente.
Tina permanecia parada, observando.
— Isso pode dar muito certo… — murmurou Ofélia.
Ela parou na frente de Tina.
— Você vai se aproximar do Afonso.
Tina manteve a expressão neutra.
— Como, senhora?
— Do jeito que ele não espere — respondeu Ofélia. — Com delicadeza… presença… sem parecer forçado.
Ela se aproximou mais.
— Quero que as pessoas vejam. Que comentem.
Uma pausa.
— Principalmente a Jamila.
Tina entendeu.
Cada detalhe.
— E se ele não corresponder? — perguntou, estratégica.
Ofélia sorriu de lado.
— Não precisa corresponder de verdade… só precisa parecer.
O jogo estava claro.
Aparência.
Insinuação.
Dúvida.
— Um toque aqui… uma conversa ali… um olhar… — continuou Ofélia. — Isso já é o suficiente.
Tina assentiu devagar.
— Entendi.
Mas, por dentro…
Aquilo ia além.
Porque, diferente do que Ofélia pensava…
Tina não queria apenas ajudar.
Ela queria atingir.
Jamila.
Naquela mesma tarde, o plano começou.
Afonso estava no pátio, verificando algumas coisas com os homens da fazenda.
Tina apareceu.
Diferente.
Mais arrumada.
Mais atenta.
Ela se aproximou devagar.
— Senhor Afonso…
Ele olhou, sem muita reação.
— O que foi?
— Dona Ofélia pediu pra eu avisar… que ela vai precisar do senhor mais tarde.
Afonso assentiu.
— Tá bom.
Mas Tina não saiu.
Ficou ali por um segundo a mais.
O suficiente.
— O senhor… estava muito elegante ontem — disse ela, com um leve sorriso.
Afonso estranhou.
— Obrigado…
Mas já voltou a atenção para o que fazia.
Tina percebeu.
Ele não estava interessado.
Ainda.
Mas isso não importava.
Ela não precisava dele.
Precisava que vissem.
Mais tarde…
Jamila vinha caminhando pelo corredor, carregando algumas coisas, quando parou.
Lá na frente…
Afonso e Tina.
Conversando.
Nada demais.
Mas Tina riu.
Um riso leve.
E tocou de leve no braço dele.
Afonso nem pareceu dar importância.
Mas…
A cena já estava feita.
Jamila ficou parada por um instante.
Observando.
Algo estranho passou pelo peito dela.
Um aperto leve.
Desconforto.
Ela não entendeu na hora.
Mas sentiu.
E seguiu.
Tentando ignorar.
Do outro lado…
Ofélia observava.
Em silêncio.
E sorriu.
Porque sabia.
Aquilo era só o começo.
E, aos poucos…
Ia plantar dúvida.
Insegurança.
E dor.
Exatamente onde mais machucava.
Sem precisar levantar a mão.
Sem precisar gritar.
Apenas…
Manipulando.
E Tina…
Estava jogando exatamente como ela queria.
Ou talvez…
Até melhor.
Naquela tarde, enquanto a casa seguia em sua rotina, um recado chegou até Sol.
Era de Artur.
Ele queria encontrá-la no celeiro.
Sol leu… e ficou tentada.
Mas lembrou do que tinha prometido ao pai.
Suspirou.
— Eu não posso ir…
Ela pensou por um instante… e chamou Jamila.
— Você pode ir por mim?
Jamila olhou, já imaginando.
— Só pra avisar ele — completou Sol. — Diz que meu pai quer que ele venha aqui… do jeito certo.
Jamila assentiu.
— Eu vou.
O caminho até o celeiro estava tranquilo.
Jamila chegou… e logo encontrou Artur.
— A Sol não pôde vir — É perguntou porque você ainda não foi na fazenda garçom o senhor Santiago, mas gentil. — O pai dela só vai deixa vocês conversas quando você for na casa grande pedir autorização.
Artur respirou fundo.
— Entendi…
— Ela quer te ver — acrescentou Jamila — mas agora… tem que ser assim.
Ele assentiu.
— Eu vou.
Jamila sorriu de leve.
— Então vai dar certo.
Depois disso, ele se despediu e seguiu seu caminho.
Na volta…
Jamila caminhava mais leve.
Até que encontrou alguém no caminho.
O feitor.
Eles pararam.
Se olharam.
E, pela primeira vez… sem tensão.
Ele deu um leve sorriso.
Ela também.
Então, com um gesto inesperado, ele segurou a mão dela e deu um beijo leve.
Respeitoso.
Mas carregado de significado.
Jamila se surpreendeu… mas não recuou.
— Eu falei com o senhor Santiago — disse ele, olhando nos olhos dela.
O coração de Jamila acelerou.
— Sobre meus irmãos?
Ele assentiu.
— Ele me lembrou daquele dia… da venda.
Jamila prendeu a respiração.
— Eu não posso te prometer nada… — continuou ele — mas eu vou tentar.
Uma pausa.
— Vou fazer o possível pra descobrir quem comprou eles.
Os olhos de Jamila se encheram de emoção.
— Você faria isso por mim?
— Eu já tô fazendo — respondeu ele, simples.
Um sorriso sincero surgiu no rosto dela.
— Obrigada…
E, naquele momento…
Ela começou a olhar para ele com mais carinho.
Mais confiança.
Talvez até esperança.
Quando voltou para a casa grande, foi direto até Sol.
— E aí? — perguntou Sol, curiosa.
— Ele vai vir — disse Jamila. — Do jeito que seu pai pediu.
Sol sorriu, aliviada.
— Eu sabia!
Jamila então continuou:
— E eu encontrei o feitor…
Sol olhou, atenta.
— Ele falou com o seu pai… sobre meus irmãos.
— Sério? — disse Sol, surpresa.
Jamila assentiu.
— Ele disse que vai tentar descobrir quem comprou eles.
Sol abriu um sorriso.
— Isso é maravilhoso!
Jamila também sorria.
— Eu sei… eu nem acredito ainda.
Sol segurou a mão dela.
— Vai dar certo.
Jamila respirou fundo.
Pela primeira vez em muito tempo…
Sentia esperança de verdade.