Sempre que o desespero batia em seu coração, Gisele pensava em fugir. Sim, assim como quando ele a pediu em eternidade e ela não soube o que fazer, e fez a escolha errada. Agora, ela estava de costas para a criatura que mais desejo ver desde aquele dia e seu único pensamento era em fugir!
E ela fugiu.
No entanto, a fuga era um rebento de quem era capaz. O que Gisele tinha na cabeça para fugir, só Deus sabe, porque em míseros passos ela simplesmente foi alcançada e pega por Darius.
— Ei! — Ele segurou em seu pulso, a puxou contra ele, ela se espatifou na montanha dura e sentiu a vertigem do baque ao tomá-la. Ela estava a pura fraquidão e Darius notou isso. — O que fizeram com você?
O que ela tinha pra dizer? Ela simplesmente não conseguia. O sol Stariano era forte demais para esconder o quanto ela achava o gigante dourado bonito. Ela nunca esqueceu das curvas de seus cabelo na ponta da testa, das suas argolas na orelha em da textura da sua língua e, para ela, era inebriante estar presa nos braços dele de novo.
— Perdi muito sangue. — Foi o que conseguiu falar, tão fraca quanto às batidas do seu coração. — Perdi nosso filho. E perdi você.
Darius a olhou pensativo, tentou ser racional e se distanciou por uma questão de segurança, mas impensadamente segurou nas mãos da humana e a guiou para dentro da casa. O robô não a cumprimentou e Gisele notou de antemão uma pequena bagunça.
O gigante dourado a levou silenciosamente para a área da cozinha, onde ela se surpreendeu com uma ilha e dois bancos simples. Ele puxou um para ela em silêncio e foi para a beira do armário. Logo ele começou a movimentar as portas, pegar vasilhas e se parecer com um chefe de cozinha à moda Stariana.
Gisele se acomodou, viu à distância que a sala tinha uma pequena esteira de repouso e um cobertor jogado, a parede de vidro não jorrava água e a cápsula estava levemente fedida. Foi então que ela desviou os olhos e reparou na silhueta do Stariano de costas nuas. Onde era possível notar um pouco mais das suas escamas. Ele estava descalço e usava calças largas.
Darius não estava se escondendo. Estavam afastando ele de tudo, assim como estavam fazendo com ela. E quando pensou nisso baixou os olhos, mas foi obrigada a olhar para cima no momento que viu uma cumbuca redonda com um par de hashis dentro e um caldo cheio de pelotas brancas.
— O que é isso?
— Ovas de dragão áquatico num caldo salgado. — Ele respondeu se sentando ao lado da humana e empurrando a vasilha enquanto ela pegava os hashis desconfiada. — Para nós, Starianos, dá energia e supri bastante a ausência da vitamina sanguínea. Estou tomando uns cinco desses diariamente. São crus e são ótimos.
— Cinco? — Ela ergueu as sobrancelhas.
— Às vezes mais.
Ela tentou não comentar para não soltar nada indevido sobre “cozinhar para ele”, mas pegou as pelotas dentro do caldo e passou a mordê-las com o auxílio dos hashis. Era levemente salgado, mas muito bom. E não tinha gosto de ovo e nem de peixe, mas tinha um gosto bom. E mais ainda, tinha gostado da atenção de Darius.
— É bom. — ela respondeu sob o olhar cuidadoso do Stariano muito perto.
— Coma primeiro, vou fazer algumas perguntas depois.
Era estranho, mas ela o fez. Darius tinha uma mania de ser direto e sincero, e realmente não se mexeu. Ele observou ela dar agulhadas com o hashi nas ovas, observou ela puxar a vasilha até a boca e só se movimentou quando ela limpou os lábios e sorriu satisfeita.
— Me sinto melhor.
Um segundo a observando, foi o suficiente para iniciar a conversa.
— Como chegou aqui sem nenhum guarda te parar?
— Eles me pararam. Eu inventei uma mentira, os convenci e consegui passar. — Darius continuou a observando. — Eles não podem hostilizar humanos, então consegui vir.
Ele desviou os olhos, se levantou devagar e preferiu se afastar. Era uma questão de segurança e ele começava a se questionar se o antídoto tinha algum efeito colateral, porque ele estava querendo marcar território na fêmea de novo. Então, ele se apoiou na bancada, cruzou os braços e fechou o cenho. Para a segurança dela, ele não cederia às vontades carnais que invadiam sua mente.
Ela notou o afastamento, mas apenas não decidiu questionar. Já sentia o sofrimento à porta ao ver que o antídoto realmente deu certo para ele.
— O que quer? — perguntou de forma direta.
— Respostas. — Ela não mentiu e se moveu desconfortável enquanto estava sentada. — Não me deixam ver Cassandra.
Ele afinou os olhos.
— Não podemos. A alma daquela humana é…
— É estritamente importante para impedimento de acontecimentos futuros enquanto Starian encontra medidas protetivas para não ter mais nenhum bebê morto! — Gisele soltou todo o protocolo que sempre repetem para ela. E ela simplesmente espichou o choro e soltou sua raiva de um modo contido. — Foi o meu bebê! O nosso bebê! Isso não te incomoda? — Ela tinha desespero em sua voz agoniada e chorona. — Porque nunca foi me ver?
— Porque não posso. — Darius se mantinha firme e não deixava transparecer nada em seu rosto. Gisele estava altamente emocionada e isso mostrava o quanto ele entendia pouco dos sentimentos humanos.
Ela o recusou, mas estava lá. Ele tomou o antídoto e a queria. O que estava acontecendo de errado?
— Não pode, ou não quer? — Ela tinha um pouco de raiva na voz.
— Não posso. — Ele foi claro e Gisele diminui a guarda. — Ao injetar o antídoto, passei a ser alvo de testes. O antídoto era perfeito somente na teoria, agora preciso passar relatórios todo miserável dia. Meu corpo está sofrendo efeitos colaterais. Mas, ele é bem eficaz, digamos.
— Efeitos? — Ela pareceu curiosa. — Visualmente falando, me parece bem.
— Às vezes ainda sangro.
Ela pareceu desanimada.
— O que quer dizer com eficaz?
— A fêmea está viva e eu também. Era o esperado com a quebra do vínculo. — Ela piscou, um pouco mais desanimada. — Te recusaram estas respostas? — Gisele fez uma negativa — Então o que houve?
— É diferente vindo de você. Acho que eu só não queria acreditar. — Ela falou baixo e deixou os olhos marejados, finalmente tendo a oportunidade de falar. — Fizeram um antídoto para os Starianos, mas não para os humanos.
Ele respirou fundo, apertou as mãos fortemente em seus braços e a olhou sério.
— Está vinculada a mim? — Ela se manteve em silêncio. — Impossível. A humana rejeitou a minha eternidade com meu vínculo extremamente vivo, depois de me permitir marcá-la.
— Para de falar comigo como se isso fosse simples! — Ela gritou, levantou da mesa e apontou o dedo para ele. — Vínculos humanos levam tempo para se concretizar, e é uma merda pra se desfazer! — Ela tentou explicar. — Eu me assustei, tá! Mas eu queria você! Eu só precisava organizar isso na minha cabeça! — Ela percebeu que estava à beira de um surto e se afastou tentando se acalmar. — Eu não queria ter perdido aquele bebê. Eu esperei você voltar! Eu… eu… Tem alguma coisa de errado comigo! Eu não…
Ele permaneceu firme, de braços cruzados e cerrando os dentes. Era sombrio o olhar que ele tinha, mas Darius estava se contendo. Ele precisava se conter, porque se ele marcar a humana de novo, ele vai jogar toda a droga do experimento fora outra vez. Ele está fazendo teste com o antídoto e é lhe ordenado que obedeça! Ele tem a graça de Galak e não podia ceder ao nuance emotivo da humana que não sabe o que sente na hora que tem que sentir! Ele a queria, mas não estava disposto a repetir o sofrimento por um rompante que a humana não sente a capacidade de controlar.
— O que acha que está errado? — sua voz era pesada, e parecia que ia socá-la, mas ela conseguiu respirar fundo.
— Eu quero encontrar Cassandra, e quero ela morta. — Ela soltou o que realmente andava pensando. — Eu acho injusto que aquela v***a fique viva por aí enquanto meu filho está morto. — Ela pausou, puxou o ar e soltou com calma. — Ela me separou do meu filho e tirou você de mim. — finalmente olhou para ele, respirou como se um fardo pesado tivesse caído de seus ombros e conseguiu dizer o que precisava. — Eu o amo. E o antídoto dos humanos é o tempo. — Gisele baixou os olhos, sentiu o coração bater com calma e a alma se colocar no lugar. — Eu o amo. E se alguma coisa acontecer daqui para frente, eu vou entender que não fiz a escolha certa no momento que deveria. Eu só precisava entender isso. Eu o amo. Mas o meu antídoto leva muito tempo.
Darius não se moveu, manteve o corpo inerte e os olhos fixos na humana. Por fim, ela percebeu que só precisava soltar essas palavras. Ela precisava vê-lo e entendê-lo, não viver de recados e, agora, achava que podia tentar seguir em frente. Sempre desejaria a morte de Cassandra, mas conseguia respirar sem querer esmagar alguém. E era isso. Gisele engoliu o choro, virou as costas e caminhou rumo a saída. Ela viu Darius desvinculado. Ele continuava gentil, mas abertamente afastado. Era hora de dar paz ao coitado que se sacrificou para não prejudicá-la. Era o mínimo que devia fazer, já que o Stariano estava a salvando desde o primeiro impacto de seus encontros.
E Gisele caminhou, chegou até a porta, mas ela não abriu. Ela olhou para cima, procurou um comando ao redor e não achou um meio de saída. Quando olhou para trás, Darius estava inerte e de braços cruzados, ainda a olhando de um jeito aterrorizador.
— Pode… Pode abrir pra mim? Por favor?
Ele não se moveu, ela se sentiu um pouco sem graça e virou as costas. Mais uma vez apalpou a parede ao redor, procurou por algum mecanismo e quando voltou a se virar, Darius estava tão perto quanto se podia estar. Gisele pulou levemente para trás, bateu contra a porta metalizada e colocou a mão sobre o peito.
O gigante dourado deu um passo à frente, esticou os braços e os apoiou na porta. Ele se abaixou o suficiente para ficar próximo demais do rosto humano e rosado, onde a intimidou de um modo sombrio preciso e direto.
— Pelo amor de Deus, me deixa sair.
— Me entregou o sentimento supremo dos humanos. A fêmea é minha, com ou sem a vontade de Starian.